O Holocausto como produto de ficção

Mesmo criando ilusões de realidade, linguagens artísticas existem justamente para não terem compromisso com o factual. Suas liberdades permitem alcançar terrenos e emoções que o testemunho do sobrevivente não pode.

Quando o filósofo alemão Theodor Adorno postulou que “escrever poesia depois do Holocausto é bárbaro” (“nach Auschwitz ein Gedicht zu schreiben, ist barbarisch”), ele mal podia imaginar a criação de um gênero literário tão específico e, como detalhou o crítico inglês Robert Hanks, com regras “tão restritivas como aquelas que vinculam o estilo Agatha Christie às histórias de detetive”. Porém, mesmo com Adorno revisando sua famosa declaração, as perguntas permanecem: transformar a experiência do Holocausto em obras ficcionais seria um ato legítimo ou um desrespeito aos sobreviventes, à memória e à História? Quais as limitações éticas das representações literárias desse genocídio?

No decorrer das últimas décadas, nos deparamos com incômodos públicos a respeito da ficção sobre a Shoá. Casos de dois prêmios Nobel: Elie Wiesel, categórico ao afirmar que “um romance sobre Treblinka não é um romance ou não é sobre Treblinka”; e de Imre Kertész, que apontou que “os sobreviventes assistem impotentes enquanto suas experiências autênticas são abolidas”. Seria correto, afinal, conceber textos ficcionais sobre algo tão catastrófico quanto o Holocausto? E por que a ficção desagrada tanta gente?

Visita do ficcionista, ensaísta e pesquisador Jacques Fux ao Museu do Holocausto de Curitiba.

No recém-lançado “Herança” (Editora Maralto, 2022), o premiado escritor e pesquisador Jacques Fux explora a construção da memória de um trauma geracional e o reproduz numa ficção. Sarah, Clara e Lola representam três gerações (avó, filha e neta) que, de diversas formas, foram impactadas com a experiência da perseguição e do extermínio nazistas. Elas, no entanto, não existiram, não são reais, ao contrário dos personagens ao redor (como Mordechai Rumkowski, líder do Conselho judaico do gueto de Lodz). Mas com tantas histórias a serem contadas e compreendendo o potencial pedagógico dos testemunhos em primeira pessoa, por que romancistas e ficcionistas continuam escrevendo sobre o Holocausto?

Ficção não é o oposto de realidade

Em sua “Poética”, Aristóteles já dizia que “há mais verdade na poesia do que na História”. Essa é uma condição para compreender que, para início de conversa, ficção não é o oposto de realidade. Os próprios depoimentos das vítimas do Holocausto não podem ser encarados como registros totalmente fidedignos, já que o passado, como destacou o arqueólogo Jan Assmann, não existe como resultado natural. Ele surge a partir de uma criação cultural das lembranças – e, como toda lembrança, pressupõe reinterpretações constantes daquilo que aconteceu. Para que lembranças se transformem em memórias coletivas, é necessário trazê-las para o presente e montá-las como um quebra-cabeça com peças faltantes. Um testemunho dado hoje é diferente do relato dado ontem.

Se ficção não é o contrário de realidade, elas também não são frutos exclusivamente da imaginação. Como apontou o escritor espanhol Javier Cercas, “a ficção pura não existe, é uma invenção dos que não sabem o que é a ficção”. Toda literatura é baseada em fatos reais, e este é um dos problemas suscitados no fim da cadeia: os leitores e o público em geral têm dificuldade de entender o que significa o alerta explícito de que uma obra é baseada em fatos. Ela não é 100% mentira e nem 100% verdade.

Ludwig ‘Lali’ Eisenberg e Gita Furman, personagens do romance “O Tatuador de Auschwitz”. Echo/Planeta/família Sokolov.

Eu mesmo, nos primórdios do Museu do Holocausto de Curitiba, torcia o nariz para a existência e o uso pedagógico da ficção sobre o genocídio. Afinal, essa era a lógica: com tantas histórias reais a serem narradas, por que transmitir histórias fictícias? Assim como Adorno, minha posição se alterou radicalmente à medida que compreendi que “o sofrimento perene tem tanto direito à expressão quanto o martirizado tem de berrar”. Para ele, “a poesia precisa resistir a esse veredito” (o de sua impossibilidade). Não apenas porque é tênue a linha divisória entre o testemunho e a literatura ficcional, mas porque, parafraseando o filósofo alemão Friendrich Von Schelling, é somente por meio da arte que podemos compreender a realidade.

Ficção e arte

Mesmo criando ilusões de realidade, linguagens artísticas existem justamente para não terem compromisso com o factual. Suas liberdades permitem alcançar terrenos e emoções que o testemunho do sobrevivente não pode. Quando Primo Levi disse que “nós, os sobreviventes, não somos as verdadeiras testemunhas”, ele reconhece os limites da representação e a dificuldade de narrar essas experiências. Em outras palavras, o testemunho do sobrevivente nunca pode expressar o Holocausto por completo. Nesse caso, a ficção tem uma vantagem, pois é tecnicamente possível transmitir o que acontece em quaisquer situações, produzindo e reproduzindo (como apontou Walter Benjamin) as próprias peças nesse quebra-cabeça da construção da memória.

Cabe ao autor ficcionista priorizar ou enfatizar suas próprias escolhas artísticas. E não se trata de uma ode à liberdade de expressão (cuja opressão foi cometida pelo nazismo), e sim uma possibilidade de preencher lacunas que a historiografia não pode se ocupar. São diversos exemplos, que variam de “A Morte é meu ofício” (Vestígio, 2022) até best sellers como “A Lista de Schindler” e “O Pianista”. Neles, a ficção funciona com a ferramenta que liga o factual à arte, a amálgama que trabalha nossos sentimentos a partir de roteiros escritos por pessoas que geralmente não foram testemunhas oculares da História. O mesmo se diz para produtos que carecem de verossimilhança, casos de fascinantes obras de arte como “Jojo Rabbit”, “Bastardos Inglórios” e “O Trem da Vida”.

O principal inconveniente nesse debate não diz respeito (ou pelo menos não deveria) às licenças ou transgressões históricas – como ocorreu com a fraca série Hunters e com o romance “O Tatuador de Auschwitz”, de 2018, desaconselhado pelo Memorial de Auschwitz em razão das imprecisões (presentes em todas as ficções). A questão se dá quando uma obra artística se apresenta como factual, exatamente o que aconteceu com o livro “Fragmentos”, escrito por um homem que se fez passar durante anos por um sobrevivente do campo de concentração nazista de Flossenbürg. O livro foi desmascarado pelo jornalista austríaco Daniel Ganzfried em 1998, provando que o autor pretendia recontar uma história que não era sua. Em outras palavras, violou a confiança do leitor, vínculo este que existe, é forte nas narrativas do Holocausto e que foi quebrado ao mentir deliberadamente.

De qualquer forma, além de ser impensável proibi-la e da necessidade de utilizar a arte para preencher as lacunas da memória, a ficção do Holocausto tem também seu valor pedagógico. Mais acessíveis e com maior alcance dos que os testemunhos, elas também aproximam emocionalmente os leitores desse gênero. Precisamos combater o tabu da impossibilidade moral da escrita ficcional sobre a Shoá, aceitar a existência da representação artística e elencar os benefícios educativos dessa literatura. Embora exista um dever de zelo perante as experiências das vítimas do Holocausto, isso não significa que a arte difame a História. Afinal, como dizia Oscar Wilde, a verdade talvez seja apenas uma questão de estilo.

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