Há um século e meio, a Espanha chegava ao Paraná

Primeira leva de migrantes veio substituir a mão de obra escrava, que se tornava escassa

Há mais de cem anos, os espanhóis, por diversos motivos, começaram a criar laços com o Paraná. Fugindo de momentos difíceis na Europa, milhares de famílias vieram procurar abrigo aqui e formaram uma colônia das mais importantes para a história recente do estado.

O jornalista Diego Antonelli, especializado na história do Paraná, pesquisou a história dessa colonização e seu legado. Autor, entre outros, de Paraná: Uma História e Vindas: Memórias da Imigração, Antonelli concedeu uma entrevista ao Plural falando dessa história.

Por que os espanhóis se viram tentados a vir para o Paraná? A situação na Europa era pior do que aqui?

Antes, é importante entender que a imigração espanhola chegou ao Paraná em três ondas. E em cada onda vou explicar os motivos que contribuíram para o processo imigratório. Acho que vai ficar mais fácil.

A primeira onda imigratória dos espanhóis no Paraná remonta ao final do século 19 e aos primeiros anos do século 20. A industrialização começava a deixar desempregados nos territórios europeus e o Brasil buscava mão de obra para trabalhar, principalmente no campo, para suprir a falta de mão de obra em virtude do fim da escravidão. Cerca de 190 mil espanhóis chegaram ao país entre os anos de 1884 e 1903. Parte deles migrou para o Paraná. Não se sabe, exatamente, o número de espanhóis que vieram para cá. Muitos também remigraram de outras localidades, como São Paulo, para o território paranaense.

A segunda leva de imigrantes espanhóis ao estado remonta ao período instável em termos sociais e econômicos que assolou a Europa nos anos e que antecederam e sucederam a Primeira Guerra Mundial. Entre os anos 1910 e 1920, os espanhóis vieram para o Brasil, e consequentemente, para o Paraná fugindo da guerra, da fome e da miséria que atingia grande parte do Velho Continente. Muitos vinham com contratos de trabalho para atuar nos cafezais de São Paulo. Constatou-se, também. que, após o término dos contratos, muitas famílias se mudaram para o Paraná em busca de nova vida.

Quem chegou nesse período era, na sua maioria, proveniente das regiões de Andaluzia e Galícia. Perto de 1,8 mil espanhóis viviam no Paraná em 1920.

Entre as décadas de 1940 e 1960, foi registrada a maior onda migratória espanhola que o Paraná já recebeu. Somente na década de 1950, cerca de mil famílias vieram da Espanha para Curitiba. Elas se instalaram na cidade e se dedicaram ao comércio, à gastronomia, à construção e, também, a profissões liberais que trouxeram da Espanha. Hoje, a título de curiosidade, existem aproximadamente cinco mil espanhóis natos e descendentes apenas na capital do estado.

Na década de 1960, o Paraná chegou a contabilizar 7.653 indivíduos que eram nascidos na Espanha. Isso porque os imigrantes espanhóis também foram construir suas vidas pelo interior do Paraná, em especial na região norte, como Londrina, Jacarezinho, Wenceslau Braz e Santo Antônio da Platina. Suas principais atividades nessas localidades estavam ligadas ao comércio e à indústria moveleira.

Quem eram e de onde eram os espanhóis que vieram, e a partir de que época?

Eram pessoas que estavam buscando uma vida nova, com possibilidades de reinventar suas vidas, castigadas por uma Europa tomada por guerras, crises econômicas e sociais. A maior parte veio das regiões de Andalucía, Aragón e Galicia. Mas também há os que vieram de outras localidades.

Sempre gosto de fazer o exercício da alteridade: o que faria a gente se mudar para o outro lado do Atlântico, deixando parte dos familiares na terra natal, encarar uma cultura e um idioma que não conhece, para tentar recomeçar a vida e com chances quase nulas de voltar ao país em um curto ou médio período? Muitos chegaram ao Brasil e jamais voltaram a ver seus pais ou irmãos. E ainda se submeteram a trabalhos pesados e que não estavam habituados – especialmente no início.

É um exercício interessante para percebermos quão grave estava a situação que assolava essas localidades nessa época, motivando a migração de diversas etnias para o Paraná. De certo modo, essa realidade continua ocorrendo com outras nacionalidades, como a recente imigração haitiana ou as oriundas dos países do Oriente Médio.

Assim como os italianos, os operários espanhóis parecem ter tido papel importante na politização dos trabalhadores brasileiros. Como isso ocorreu?

No final do século 19, o movimento operário no Brasil se efetivou justamente por causa da presença dos imigrantes, como italianos, alemães, espanhóis, entre outros. Eles lutavam por melhorias de condição de trabalho, menor jornada de trabalho, e por melhores condições de vida, como saúde e educação. No Rio de Janeiro, por exemplo, muitos espanhóis viviam em cortiços e ganhavam um salário miserável. Na luta para melhorar essa situação que se repetia nos maiores centros urbanos do Brasil, os imigrantes espanhóis tiveram participação ativa no desenvolvimento do movimento operário, muitas vezes com vertente anarquista. Assim, classe operária brasileira passou a se organizar a partir de sindicatos revolucionários, também com a uma ideologia anarquista – anarcossindicalismo. Esses movimentos sociais tiveram papel dos espanhóis que trouxeram duas ideologias e tradições de lutas para o Brasil

Como era a vida deles por aqui? Conseguiram manter a cultura nativa? Quais os legados principais dessa migração, na sua opinião?

Muitos imigrantes espanhóis que vieram ao Brasil a partir da década de 40 tinham como intuito retomarem os ofícios que praticavam na Espanha. Dessa forma, muitos se dirigiram aos centros urbanos para dedicaram ao comércio de alimentos, hospedagem, carpintaria, sapataria, alfaiataria, entre outros. Ao manter e transmitir esses conhecimentos técnicos, os imigrantes ajudavam a influenciar na arquitetura, na alimentação, nos hábitos e nos costumes da cidade onde se instalaram. Uma grande troca cultural e de conhecimento, típico de um processo de hibridismo cultural.

Além disso, o legado cultural espanhol resiste ao tempo. Há, por exemplo, um grupo d dança folclórica no Centro Espanhol do Paraná, que fica em Curitiba, e realiza apresentações no Brasil e também no exterior. Além das danças folclóricas, o grupo mantém vivo o idioma. Quase todos sabem falar o idioma espanhol.

O alimento típico também é preservado e degustado por descendentes e não descendentes. Na gastronomia, por exemplo, os espanhóis introduziram vários pratos típicos, como os churros, madrileños, palmeiras e rosquiñas e a ensaimada, doce típico da região de Palma de Mallorca. Também introduziram o gosto pela paella, prato característico da região de Valência, e pela sangria, bebida tradicional de toda a Espanha.

De onde vem a ideia da Praça da Espanha?

Por meio da Lei 1082, de 23 de março de 1955, a Praça da Espanha foi oficialmente “criada”. Antes, o espaço era chamado de Praça Áurea e depois Praça Alfredo Andersen. A inauguração oficial como “Praça da Espanha” aconteceu em 1956. Na ocasião, o então prefeito Iberê de Mattos decidiu prestar uma homenagem à imigração e colonização espanhola na cidade.

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