A voz da nova literatura hispânica tem sotaque curitibano

A tradutora Mariana Sanchez fala sobre as dificuldades de traduzir livros do espanhol para o português

Mariana Sanchez é jornalista de formação, mas aos poucos foi escapando cada vez mais para sua paixão sobre livros. Escreveu sobre literatura em jornais, criou seu próprio blog de literatura e logo começou a traduzir.

Hoje é uma das principais tradutoras de literatura de língua espanhola no Brasil. Vem apresentando toda uma geração de escritoras e escritores aos brasileiros com sua prosa elegante e precisa.

Nesta entrevista ao Plural ela fala sobre sua carreira e sobre as dificuldades (e as delícias) que seguem à espera de quem se aventura pela língua de Cervantes, García Márquez, Borges e de uma multidão de novos autores.

Como você decidiu se tornar tradutora de espanhol?

Esta nunca foi uma decisão tomada de forma consciente, na verdade. Sou jornalista formada e pós-graduada em cinema, mas com o tempo fui atuando cada vez mais no chamado “jornalismo cultural”, particularmente na área de literatura. Uma vez, preparando uma longa reportagem especial sobre cultura argentina contemporânea, entrevistei uma escritora premiadíssima, cuja obra estava inacreditavelmente inédita em português, e arrisquei traduzir dois contos dela. Estes contos, publicados na revista Estórias, da editora curitibana Arte & Letra, foram os primeiros textos de Samanta Schweblin traduzidos ao português. Na época eu lecionava espanhol nos finais de semana e já tinha pleno domínio do idioma, mas nenhuma experiência como tradutora. Acabei cursando uma especialização em tradução logo depois e, há cerca de uma década, venho pesquisando e traduzindo autores latino-americanos atuais, além de clássicos modernos, sobretudo os do cone sul.

A semelhança do idioma com o português em alguma medida torna a tradução literária mais fácil?

Acho que não. É claro que a tradução espanhol-português deve ser mais simples se comparada com outros pares idiomáticos de alfabetos, lógicas e estruturas muito distintos, mas essa contiguidade, no fim das contas, acaba sendo um dificultador extra.

E não falo só dos tais “falsos cognatos”, palavras que são iguais porém com significados diferentes (penso em berro, bengala, monte, duelo, coma, tarado e uma série de termos que já renderam mais de um fiasco a tradutores desavisados ou sonolentos), mas de erros terríveis de interpretação, de tom, de peso, da evolução cultural das palavras.

Pessoalmente, acho que um dos maiores desafios da tradução literária espanhol/português é driblar a hipercorreção. Como o espanhol é uma língua muito mais pronominal do que o português (há muitos les, los, las), algo que originalmente seria coloquial corre o risco de soar superformal em tradução.

A distância entre a fala culta e a cotidiana é muito maior no português brasileiro do que no espanhol, seja o peninsular ou o americano, e isso é sempre um problema para o tradutor. Outro problema é que no nosso português brasileiro as estruturas gramaticais são bem menos rígidas, bastante maleáveis até. Não há muita ordem prescrita para os elementos (sujeito, verbo, predicado) como existe em espanhol. Aqui, pode-se fazer assim ou assado, quase toda inversão é permitida, conforme o efeito sonoro ou rítmico que se queira alcançar.

Embora tudo isso dê mais liberdade ao tradutor, quanto maior a liberdade, maior o número de soluções e mais se tem de pensar sobre elas. Para resumir: não é difícil traduzir do espanhol para o português, mas é muito difícil fazer uma boa tradução do espanhol para o português. E vice-versa.

A literatura de língua espanhola vive um bom momento, aparentemente. A nova geração tem potencial para chegar à mesma altura de Borges e Garcia Márquez?

Acho que a geração imediatamente seguinte a de Borges e García Márquez sentiu mais o peso de lidar com estes modelos. Hoje há uma infinidade de jovens autores que, ao invés de repetir ou tentar superar os procedimentos literários borgeanos, está mais interessada em subverter o cânon do seu tempo (que é justamente o que Borges fazia). Penso nas argentinas Gabriela Cabezón Cámara – cujo romance Las aventuras de la China Iron se apropria do clássico poema Martín Fierro, de José Hernández, a partir de uma perspectiva de gênero – e Mariana Enriquez, que traz o gênero do terror e do fantástico para o campo político. A literatura hispano-americana contemporânea vive uma fase excelente e me parece que as autoras, mais até do que os autores, têm se destacado com obras singulares, de altíssima voltagem.

Existiu a onda do realismo mágico. Hoje existe algo que una a literatura de língua espanhola?

Creio que o rótulo “realismo mágico” fez bastante mal pra literatura da região ao reduzi-la a algo exótico e um tanto esquemático, num certo sentido. Embora muitas obras daquele período – o chamado boom latino dos anos 60 e 70 – tivessem a genialidade de desestabilizar as noções de realismo, no fundo acabaram vítimas da lógica editorial colonialista europeia – não por culpa dos autores, evidentemente, mas de um sistema literário muito mais euro-dependente do que o de hoje.

Por sorte um autor latino-americano não precisa mais responder ou dar conta de sua “condição” geográfica e sociocultural, muito menos ao rótulo de realismo mágico ou qualquer outro. Não acho que exista algo que una a literatura de língua espanhola hoje, mas se olharmos para muitos autores contemporâneos na América Latina, um traço mais ou menos reconhecível é a ditadura militar como um rumor de fundo, uma espécie de marca geracional entre os que viveram a violência do estado durante a infância e adolescência, e que a escrevem como “filhos”, a partir de lacunas, imprecisões e memórias emprestadas. Existe até um termo para isso, “literatura de los hijos”.

Os chilenos Alejandro Zambra, Nona Fernández e Alejandra Costamagna são alguns exemplos, assim como os argentinos Félix Bruzzone, Laura Alcoba e Patricio Pron, entre tantos outros. Não chega a ser um movimento literário, mas é algo que os une de alguma forma.

Como é o mercado nas editoras para tradução de espanhol? Tem melhorado?

No quesito reconhecimento tem melhorado, sem dúvidas. A editora Moinhos, por exemplo, tem a grandeza de colocar o nome do tradutor na capa, algo que a maioria das editoras faz apenas no caso de tradutores com uma longa trajetória. O bom momento atual da literatura hispânica também tem impulsionado mais e mais traduções no Brasil, o que é ótimo, e até as tarifas por lauda estão ficando um tiquinho melhores (mesmo que nunca sejam suficientes, pelo imenso trabalho envolvido).

Por outro lado, ainda falta recebermos pelos direitos autorais de nossas traduções, já que este é definitivamente um ofício de coautoria. A imprensa também poderia dar mais espaço ao tradutor em resenhas e ao citar trechos de obras traduzidas, pois estes quase nunca são creditados.  

O que você diria para alguém que queira entrar nessa área?

Diria que leiam muito, não só textos originais que tenham interesse em traduzir, mas também boas traduções, até para se ter exemplos de como resolver problemas de linguagem no idioma de chegada. É importante acompanhar os mercados editoriais dos países de interesse, mas sobretudo o brasileiro, conhecendo o catálogo e o perfil das editoras com as quais gostaria de trabalhar – e, eventualmente, oferecendo projetos de tradução a elas.

Também acredito que, com a maior profissionalização da área, estudos acadêmicos são cada vez mais desejáveis na tradução – o departamento de Letras da UFPR tem hoje um dos núcleos de estudos da tradução mais efervescentes do país, para citar apenas um. De qualquer forma, é bom deixar claro que é quase impossível viver exclusivamente de tradução literária no Brasil, mas isso se aplica a quase tudo no campo intelectual e das artes, lamentavelmente.

Por fim, diria que não deixem de escrever muito na sua própria língua, pois é nela que o tradutor terá de sambar para recriar os efeitos do original. É nela que as grandes batalhas são travadas de fato, no dia a dia, e garanto que não são poucas.

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