Duas noites com o rei Roberto Carlos e duas vidas dedicadas a ele

Um par de fãs de Roberto Carlos (um deles é sósia do rei) assiste às apresentações do cantor em Curitiba, no Teatro Positivo

Era quase fim de tarde quando vestiu o típico traje de camiseta branca, paletó e calças azuis. Havia tempos que não mais aquecia a voz em frente ao espelho antes de apresentar-se em shows, e sabia que a noite o reservava abraços e fotos com dezenas de fãs. Os cabelos grisalhos, outrora pretos e vivazes, eram penteados de forma a preencher o topo da quase lisa cabeça. Não gosta de muita maquiagem no rosto, permitindo somente uma leve aplicação de base da esposa sobre as “curvas do pecado” que circundam o nariz e a boca. O carro em frente ao Edifício Tijucas, na Boca Maldita de Curitiba, o esperava para levá-lo a um lotado Teatro Positivo. Era noite de ver Roberto Carlos. Era noite de ser Roberto Carlos.

O sósia

Luiz Carlos Chacon de Oliveira, ou simplesmente Chacon, intitula-se o primeiro sósia de Roberto Carlos. Nascido no mesmo ano que o rei, passou a interpretá-lo em 1973, após ser avisado por amigos que os gestos e a aparência lembravam os do cantor. De Mallet, no sul do Paraná, mudou-se para a capital paranaense ainda adolescente depois de alguns anos em Rio Negro. Passou a ganhar a vida de diversas formas: ator, dublador, artista circense, expedidor de carteiras de trabalho. Mas foi como imitador do artista que conquistou maior prestígio.

“O quanto vale isso na vida da gente, cara? Uma pessoa que recebe isso com carinho, como eu tô recebendo”, afirmou ao recordar vezes em que comoveu ou divertiu admiradores do rei. “Você não pode enganar o público, de jeito nenhum. Não pode fazer palhaçada, principalmente por ser o Roberto Carlos. É coisa séria, e ele sabe como é que eu sou”, enfatizando o respeito que tem pelo ídolo e pela plateia.

Luiz Carlos Chacon de Oliveira, ou simplesmente Chacon, intitula-se o primeiro sósia de Roberto Carlos. (Foto: Arthur Salles/Especial para o Plural)

Mesmo quando enfrentou vaias, não perdeu o decoro. “Senti que cinco pessoas estavam me vaiando. ‘Eu vou prometer uma coisa: no próximo show, apenas três vão me vaiar. Vou melhorar um pouquinho’”, relembrou o que disse ao público certa vez, fazendo das vaias aplausos.

Se já rodou o país como cover, também acompanhou algumas turnês de Roberto Carlos pelo país enquanto fã. Guarda nos bolsos das calças um punhado de fotos, várias delas repetidas, em que abraça o cantor. Todas levam a mesma escrita: “Com abraço do Chacon”.

Desde o início da pandemia que as roupas de “pano bom”, feitas sob medida para o ofício, não eram tiradas do armário. Em 8 de maio, ele teve mais uma oportunidade de reviver os gestos e as emoções que o fazem companhia há 50 anos.

Roberto Carlos

Roberto Carlos retornou a Curitiba para duas apresentações após quase quatro anos. Enchendo o maior teatro do estado por duas noites consecutivas, incluindo recorde de público em 9 de maio, o rei trouxe seus maiores sucessos para quase 5 mil pessoas.

O show foi organizado pelo grupo RC e pela curitibana Cult! Produções. A apresentação especial comemorou os 330 anos da capital e os 15 anos do Teatro Positivo. A produtora também trouxe Fafá de Belém em março como parte das celebrações, que seguirão ao longo do ano com nomes como Paulinho da Viola.

Com início do espetáculo marcado às 21h, seis minutos bastaram para que o público entoasse pedidos pela presença do rei no palco. Pouco depois, abriam-se as cortinas, entrava a banda e um pot-pourri com os maiores clássicos do artista acompanhava o jogo de luzes que cobria a plateia.

A fã

“Senhoras e senhores, com vocês Roberto Carlos!” A passos lentos, surgia do fundo do palco o artista de 82 anos responsável por inspirar gerações, músicas e um sem-número de pessoas com 140 milhões de álbuns vendidos no mundo todo.

Entre as primeiras fileiras, uma fã especial do cantor. Egli das Graças Cardoso de Faria, de 68 anos, compareceu às duas noites de apresentação. De São Paulo, onde quer que Roberto Carlos esteja, muito provavelmente lá também estará Egli. Em alto-mar ou na Europa, ela contabiliza presença em mais de 300 shows do artista. A peregrinação iniciou em 1977, na capital paulista, e já percorreu Panamá, Costa Rica, Bélgica, Portugal e os Estados Unidos nas últimas quatro décadas.

“Hoje tô aqui e ontem também estava”, declarou, orgulhosa. A caráter, evidencia como pode a admiração por Roberto Carlos: da camiseta em que beija o cantor na bochecha aos óculos de armação azul, cada peça do vestuário tem uma homenagem ou história com o ídolo. “Eu ganhei essa pulseira quando tinha 11 anos de idade. Meu pai que me deu”, apontava para um bracelete de metal trançado no braço direito.

Os discos que passou a ganhar do irmão quando tinha nove anos viraram uma coleção de tudo que possa ser imaginado e que tenha relação com o rei. Contadora aposentada, despende todos os esforços para acompanhar o músico e mantê-lo por perto como puder. São incontáveis as vezes em que teve que driblar o trabalho para seguir o artista. “Foi o maior sufoco para eu começar a ver o Roberto por causa dos meus pais. Depois falei: ‘Eu vou casar pra homem ficar me segurando? Tsc, tsc’”, contou.

Egli das Graças Cardoso de Faria: “Essa aqui é uma queridona”, diz o empresário do rei. (Foto: Arquivo Pessoal)

Com as redes sociais inteiramente dedicadas ao artista, a galeria de amigos compartilha o mesmo gosto maior. Quando pode e confia, se hospeda na casa de amigas e fãs de Roberto Carlos, espalhadas por todo o Brasil. Mas são raras as vezes, já que opta por hotéis, pousadas ou pensões. O que for mais barato, pois a prioridade é o artista, custe o que custar.

Foram poucas as oportunidades em que ganhou ingressos para assistir a shows, mas não reclama. Pelo contrário, ressalta o esforço que faz para ir e vir atrás do cantor. Em tantas andanças, já conheceu pessoalmente integrantes da banda, o maestro Eduardo Lages e até mesmo Dudu Braga, filho de Roberto Carlos e falecido em 2021.

“Essa aqui é uma queridona, que acompanha Roberto com muito amor, carinho e dedicação”, comentou Leonardo Esteves, filho de Erasmo Carlos e empresário de Roberto Carlos, enquanto abraçava a fã.

O espetáculo

Embora vasto, o repertório de Roberto Carlos não é novidade para o público. A faceta romântica, predominante desde a década de 1980 nas setlists do cantor, foi a que Roberto Carlos apresentou nas duas noites. 

Os primeiros acordes de composições consagradas foram suficientes para despertar a voz da plateia. Na terceira música, “Além do Horizonte”, o cantor enfim encontrava o ritmo da acanhada audiência.

Foi na segunda noite, em especial, que o público entoou boa parte das canções, quando solicitado ou não pelo intérprete. “Nossa Senhora” arrancou um coro uníssono da voz de 2,5 mil pessoas. Com o público em pé, dedicou a música para Rita Lee, falecida horas antes. Não havia boca calada ou coração desalentado na ocasião.

Há 14 anos, Roberto Carlos apresentava-se no recém-inaugurado Teatro Positivo. Mesmo quem acompanhou o show lá atrás garante que o tempo foi generoso com os sentimentos entre o cantor e o público. 

A emoção

“Lembro com muita emoção daquele encontro, pois foi um dos mais belos eventos já apresentados em nosso palco. Hoje, novamente, sinto aquela mesma emoção e com alegria ainda maior”, disse o coordenador do teatro, Claudinei Branco. Ele e os técnicos do espaço tiveram a oportunidade de levar os familiares para o show extra, da segunda-feira, como cortesia da produtora local.

Sempre grato e orgulhoso pela banda que o acompanha há décadas, entre uma faixa e outra pedia aplausos para cada conjunto de instrumentistas. As mãos para trás, em sinal de reverência sobre o palco, faziam do rei mais um admirador do próprio show.

A tradicional distribuição de rosas colombianas, durante a execução de “Jesus Cristo”, encerrou cada uma das noites com a emoção de sempre. Crianças choravam e adultos se aglomeravam em frente ao palco, todos querendo a memorabilia máxima que um show de Roberto Carlos pode proporcionar. Mesmo quem não conseguia se mostrava animado ao ver a pessoa ao lado empunhando uma das flores jogadas por ele.

Dezenas de flores arremessadas, quinze músicas cantadas e lá se despedia o rei. Da mesma forma como surgira no proscênio, voltava a passos lentos para o fundo do palco. O cenário estrelado engolia o artista, e a plateia ganhava os céus com duas noites memoráveis em Curitiba.

O repertório

Nos shows de Curitiba, o repertório apresentado pelo rei Roberto Carlos foi: “Emoções”; “Como vai você”; “Além do horizonte”; “Ilegal, imoral ou engorda”; “Detalhes”; “Outra vez”, “Olha”; “Nossa Senhora”; “O calhambeque”; “Lady Laura”; “Sua estupidez”; “Evidências”; “Apresentação da Banda”; “Esse cara sou eu”; “Como é grande o meu amor por você”; “Jesus Cristo”; 

A equipe 

Os profissionais que acompanham o cantor são: o maestro Eduardo Lages, os vocalistas Luiz Carlos Ismail e Jurema de Cândia e os músicos Clécio Fortuna, Dárcio Mario Ract, Arthur de Paula, Norival D’Angelo, Jorge Berto, Elias Almeida, Nahor Gomes Oliveira, Manoel dos Santos, Ubaldo Versolato e Paulo Coelho.

Sobre o/a autor/a

Compartilhe:

Leia também

Melhor jornal de Curitiba

Assine e apoie

Assinantes recebem nossa newsletter exclusiva

Rolar para cima