Andrea Caldas, pré-candidata do PSOL: “não temos como ir com o PT e Ducci”

Professora da UFPR é a única candidata do PSOL em Curitiba até o momento

A professora Andrea Caldas, da UFPR, é até o momento a única pré-candidata do PSOL à Prefeitura de Curitiba. Pedagoga, pesquisadora do Departamento de Educação da universidade, foi chefe de setor por oito anos. Concorreu ao cargo de vice-reitora na chapa de Marcos Sunyê em 2016. Em entrevista ao Plural, ela diz o que pensa sobre a situação eleitoral em Curitiba e fala sobre a opção de partidos de esquerda de apoiarem a candidatura do ex-prefeito Luciano Ducci (PSB).

Como estão os preparativos do PSOL para a eleição em Curitiba? O partido vai de candidatura própria?
O PSOL começou o debate eleitoral ainda no ano passado, colocando a necessidade da existência de um programa de esquerda para Curitiba e delimitando o arco de possíveis alianças e diálogos com diferentes agrupamentos políticos. É consenso para nós a urgência da “desbolsonarização” da cidade a partir do diálogo com os problemas concretos que o trabalhador enfrenta diariamente e existência de um programa que proponha soluções reais, reafirmando nosso compromisso no combate às desigualdades. Um programa essencialmente de esquerda é aquele que se norteia pela busca da dignidade e qualidade de vida das pessoas. Queremos falar de maneira concreta de educação, de saúde, de mobilidade urbana, de sustentabilidade, de cultura a partir do potencial que uma cidade como Curitiba pode oferecer para a totalidade de sua população.

O PSOL não acredita na ideia de que Curitiba é imutavelmente conservadora e de direita. Pelo contrário, aqui tem muita luta e organização coletiva. O papel da esquerda é o de sonhar e projetar outros modos possíveis de vida para a população, mas também o de demonstrar como esses modos de vida podem ser concretizados dentro do sistema em que vivemos.

Não fechamos as portas para possíveis alianças ou construções com outros partidos ou movimentos. Mas, para nós, a existência de um programa de esquerda é balizador para a hipótese de unidade, assim como a escolha do nome precisa ser parte desse processo. Se a ideia for uma candidatura que anime as ruas da cidade, então a ideia de síntese será bem-vinda.

O problema é que a lógica apresentada até aqui por parte importante da esquerda curitibana é o mero cálculo eleitoral, se baseando muito em pesquisas, esquecendo o debate programático e, até mesmo, o passado recente de figuras tradicionais da política da nossa cidade. Há uma parcela da esquerda cogitando apoio a quadros que até ontem integravam a gestão de Beto Richa e que apoiaram o golpe contra Dilma.

Diante do cenário de diluição da esquerda em candidaturas tradicionais de centro/direita, com acordos selados por cima e com nomes que nada têm a ver com as lutas da cidade, a ideia de candidatura própria do PSOL se fortalece.

O seu nome está definido como pré-candidata? Quais são os próximos passos?
Coloquei meu nome à disposição para a pré-candidatura do PSOL à prefeitura de Curitiba por acreditar que esta é uma construção coletiva que tem na transformação social seu principal compromisso, e acredito que a minha experiência na luta pela educação pública e de qualidade ao longo dos últimos 40 anos desde o movimento estudantil, passando pela escola básica, pelo sindicato dos professores e pelo exercício da docência e da gestão no setor de educação da UFPR tem muito a contribuir nesse sentido.

Até este momento, sou a única pré-candidata do PSOL à prefeitura de Curitiba, e conto com o apoio de um setor expressivo da direção do partido e de grandes quadros nacionais, como os deputados Glauber Braga, Fernanda Melchionna e Sâmia Bomfim. Isso me alegra e me dá força para avançarmos na construção dessa pré-candidatura.

Até abril, quando ocorrerá a convenção municipal do PSOL, é possível que mais companheiras e companheiros apresentem seus nomes como pré-candidatos. Todos os filiados e filiadas podem apresentar seus nomes para a tarefa eleitoral, seja com pré-candidatura à Prefeitura ou à Câmara Municipal.

Em conjunto com outros companheiros, tenho planos de acelerar o debate programático na direção do partido. Definir temas, organizar calendário de reuniões e rodas de conversa pela cidade, a fim de escrever programa consistente para guiar a nossa ação política nestas eleições. Esse processo deverá se iniciar na metade de fevereiro.

Em São Paulo, o PT vai apoiar o Boulos. Aqui os dois partidos devem ir separados?
É provável que sim, por conta da incompatibilidade política da tática que o PT está propondo para Curitiba com os princípios do PSOL. A movimentação ao redor do ex-prefeito Luciano Ducci (PSB) nos afasta em um momento em que poderíamos estar pautando conjuntamente o debate político à esquerda. Ou alguém irá sustentar que o Luciano Ducci é de esquerda? Não enxergamos essa tática como algo produtivo ou que contribua para a transformação social e a minimização das desigualdades.
Em diversas cidades do país, estão se desenhando unidades importantes que podem impor derrotas à direita. Esses exemplos precisam ser aplaudidos. Especialmente em Curitiba, um dos centros da organização da extrema-direita no país, é fundamental pautar o debate ideológico e programático do ponto de vista da esquerda democrática.

O PSOL tem convicção de que o nosso compromisso enquanto partido de esquerda é com a população trabalhadora em primeiro, em segundo, em terceiro e em último lugar. Então estamos focados em pensar a cidade e em construir um diálogo verdadeiro com os movimentos sociais e setores populares de Curitiba para atender as suas reais necessidades.

O que você pensa sobre essa possível aliança da centro-esquerda com o Ducci?
Acredito que a política se faz pela batalha de ideias e pela coragem para o enfrentamento, não há atalho. Os partidos de esquerda erram ao optar pelos gabinetes, em vez das ruas. Nós do PSOL temos coragem para o enfrentamento e temos ideias consistentes para melhorar a vida da população curitibana.
Alguns colegas do campo progressista dirão que engolem Ducci em nome da democracia, mas isso é enganoso por dois motivos. Em primeiro lugar, porque a eleição municipal não passa pelo mesmo modelo de tensionamento das eleições à presidência, nem por um risco de fechamento democrático. Não faz sentido espelhar para Curitiba de modo mecânico o que ocorre no cenário nacional.

Além disso, o fortalecimento da direita mais truculenta do país só ocorreu porque o campo democrático entregou o papel de combatente do sistema para os setores mais retrógrados, que encontraram espaço para crescer. Não foi à toa que saltaram do esgoto político para as principais instituições. Cada passo atrás ao falar (ou silenciar) sobre os problemas da agenda pública – combate ao racismo, reforma agrária, desmilitarização da PM, descriminalização do aborto, Novo Ensino Médio etc. – é um espaço desperdiçado.

Tem uma frase do Vladmir Safatle que gosto muito e que penso que se encaixa bem para essa situação: “Por de trás de uma esquerda que teme dizer seu nome, há uma direita que se fortalece”. Penso que é exatamente isso que ocorre com o PT de Curitiba. Um vacilo em nome de acordos nacionais num momento em que não podemos dar espaço ou criar ilusões com figuras que nunca estiveram ao lado do povo trabalhador. Essa tática irá cobrar seu preço e quem vai pagar são os mais pobres. É por isso que o PSOL já votou contra a opção de unidade em torno do nome de Luciano Ducci.

E se o PT tiver candidatura própria, com a deputada Carol Dartora, por exemplo, isso facilita uma aproximação?
Como disse antes, o que nos baliza para uma possível unidade é primeiramente o programa, depois vem a decisão de nomes. Se o PT estiver disposto a debater um programa de esquerda para Curitiba, sustentado na mobilização, participação popular e de enfrentamento aos privilégios dos ricos, podemos avançar. Mas infelizmente não foram essas as sinalizações por parte da direção petista na cidade.

Tenho grande respeito pela Carol Dartora. Penso que ela é uma legítima expressão da luta no Paraná. Mas nós não podemos esperar a decisão de outro partido para tomar a nossa.

O Psol nunca conseguiu uma votação mais expressiva em Curitiba. Como mudar isso?
Acredito que o histórico de votações pouco expressivas do partido na cidade se deve ao fato de o PSOL em Curitiba ter tido, infelizmente, uma história de descontinuidades. Muitos quadros fundacionais pararam de militar, outros saíram da cidade e alguns mudaram de partido. Mas o contexto político e social está constantemente em transformação, e nos ensina o que não devemos repetir e o que podemos aprimorar. O PSOL tem consciência do seu papel ativo e da sua importância para as construções de esquerda no Brasil e na América Latina desde a sua fundação e não hesitará diante desta responsabilidade.

Penso que hoje o PSOL está muito mais maduro e tem uma direção bastante focada na tarefa eleitoral, ao mesmo passo que está mais enraizado nos movimentos sociais da cidade. Então, eu enxergo com muito entusiasmo as chances de termos um crescimento eleitoral significativo em 2024, por conta da consistência no seu compromisso com a luta social.

Nós acreditamos concretamente na chance de eleger parlamentares do PSOL e enxergamos a campanha política como um momento de visibilidade exponencial para os principais conflitos da cidade, portanto, estaremos engajados em enriquecer e aprofundar o debate público.

A prioridade é eleger alguém para a Câmara? Qual o cálculo de vocês quanto aos votos necessários para isso?
A direção do PSOL está elaborando a tática eleitoral, no que diz respeito a cálculos e mapas de votação, mas a nossa afirmação para a população curitibana é a seguinte: eleger é tão possível quanto necessário. A cidade precisa de mandatos que vocalizem as lutas que têm referência no PSOL e o partido está pronto para ganhar mais protagonismo.

Qual a avaliação de vocês da gestão Greca?
Infelizmente, a Curitiba das redes sociais não existe para a maior parte das pessoas que vivem aqui. A prioridade dessa e de outras gestões da direita foi dirigida aos bairros centrais em detrimento da periferia. Para uns, asfalto de qualidade e luzes natalinas; para outros, filas nos serviços de saúde e repressão pela Guarda Municipal. Falta moradia, falta incentivo à cultura, mas sobra preço abusivo na tarifa de ônibus e incentivo à especulação imobiliária. Isso sem falar no desrespeito aos servidores municipais, como recentemente se viu no plano de carreira dos/as trabalhadores/as da educação. O mito da “cidade modelo” cai por terra quando a realidade se impõe a quem mais precisa do poder público. Eu estou entre as pessoas que acreditam em uma cidade mais humana, com serviços públicos de qualidade e valorização dos trabalhadores e trabalhadoras. É preciso ter ousadia e coragem para anunciar uma outra Curitiba, que vá além da miséria política dos últimos anos.

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