O momento de escolher quem vai ser atendido está próximo

Independente da idade, os casos de pacientes graves, com problemas respiratórios e hemodinâmicos críticos, se tornaram absolutamente rotineiros

Curitiba vive desde a segunda quinzena de novembro uma repentina explosão de casos suspeitos e confirmados de Covid-19. Isso levou a um aumento drástico da demanda por atendimento respiratório no SUS e marcou o início de uma segunda onda de infecções ou, segundo os mais otimistas, a ativação simultânea de casos acumulados em latente.

Há uma mudança importante no perfil dos doentes. Agora os enfermos graves não se restringem aos grupos de risco. Jovens de todas as idades, previamente saudáveis, são – na percepção cotidiana – a parcela que mais cresce em consultas e internamentos.

Independente da idade, os casos de pacientes graves, com problemas respiratórios e hemodinâmicos críticos, se tornaram absolutamente rotineiros. Os casos leves ainda são a maioria das consultas, mas a admissão de enfermos em insuficiência respiratória aguda grave, que exigem imediatos cuidados intensivos, sobrecarrega o SUS municipal além de sua capacidade.

A grande expansão de acesso aos exames swab RT-PCR (o teste do cotonete), propiciou expressivo aumento do número de pacientes sabidamente confirmados para Covid-19 (anteriormente subdimensionados). Isso aumentou ainda mais a exigência sobre a já esgotada estrutura da Saúde e aumentou a procura direta em UPAs de verdadeiros exércitos de contaminados, cenário ideal para contaminação cruzada de pacientes.

Os hospitais privados, numa situação inédita, fecharam literalmente as portas por superlotação. Em paralelo, um dos três maiores hospitais públicos de Curitiba orientou na última semana as ambulâncias do SAMU a redirecionarem novos pacientes para as UPAs, em razão da indisponibilidade de vagas. Pacientes egressos, com vínculo neste referido hospital, graves, instáveis, estão sendo remanejados para as UPAs, com menor complexidade, baseados na ideia de que “algum atendimento ser melhor que nenhum cuidado”.

Testemunhei a aflição de colegas médicos em delinear quais critérios serão empregados para priorizar recursos médicos escassos ante o aumento do volume e complexidade dos pacientes, ou seja, antecipando o dilema bioético da limitação de esforços terapêuticos ante a inexistência de insumos para todos. Sabemos que o momento de escolher está próximo.

Acompanhantes e familiares invadem com frequência as dependências internas de unidades de emergência angustiados por suporem o pior para seus entes queridos e incertos por condições subótimas. Como julgá-los? Enquanto isso, profissionais de saúde compartilham rotinas semelhantes ao estresse e à sobrecarga de tempos de guerra.

Serviços de saúde estão fechando a porta ao público em geral e sendo destinados ao exclusivo atendimento de Sars-Cov2 . Praticamente todos os prestadores de atendimento médico – públicos ou privados – foram forçados a reduzir o montante de leitos “limpos” (não Covid-19) para expandir o montante de vagas de leitos Covid-19, estrangulando a vazão de pacientes infartados, vítimas de hemorragias, traumas graves e toda sorte de emergências não respiratórias.

Nesse contexto, estima-se que nem 5% da população brasileira já tenha sido contaminada e estamos muito próximos de um completo afogamento das portas de entrada de urgência e emergência do SUS. Não há outra opção senão escalonar os cuidados de isolamento e simultaneamente otimizar os recursos disponíveis.

A bandeira laranja

As medidas preconizadas pela prefeitura de Curitiba no Decreto 1.600/2020 são evidentemente insuficientes para atingir o isolamento social necessário e arrefecer o flagrante caos no SUS municipal.

Ainda que condutas verdadeiramente austeras em restrições fossem adotadas hoje, as repercussões só viriam depois de três semanas (após completar, ao menos, um período de incubação e um ciclo viral integralmente).

A adesão de medidas incompetentes adiciona dias, talvez semanas, de piora em queda livre até o efetivo cumprimento das normas sanitárias legitimamente eficazes.

Seguem abertos todo tipo de comércio não essencial: galerias, shopping centers, lanchonetes, restaurantes, buffets, circos, teatros, cinemas, museus, feiras de varejo e feiras livres (em horários que variam das 6h às 22h) – todos continuam funcionando e disseminando a infecção.

A compreensão da saúde como “patrimônio individual” é um egoísmo atávico, uma bestialidade mercantilista e um contrassenso científico. A saúde é um compromisso coletivo, multifacetado e, acima de tudo, um direito humano em si mesmo.

A flacidez administrativa e a natureza subserviente aos interesses de comerciantes míopes devem reduzir nosso sistema já colapsado a terra arrasada nas próximas semanas.

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