Os parques do deserto

Como é fazer trilhas e acampar nos Estados Unidos

De todos os textos que escrevi para o Plural antes de começar a viagem de motorhome, o que mais deu repercussão foi o sobre a falta de infraestrutura dos parques brasileiros. A coluna recebeu manifestações no site do Plural, nas minhas redes sociais e até no meu WhatsApp.

O título era provocativo: “E se houvesse um teleférico no Pico Paraná?”. Quero deixar claro, eu não sei se deve haver um teleférico no Pico Paraná. O ponto central era outro: entendo que as condições dos nossos parques são precárias e perigosas. O texto recebeu elogios – especialmente de quem conhece a realidade internacional. E foi também bastante criticado por alguns ambientalistas e montanhistas, que entendem que o acesso deve ser restrito, como uma forma de preservação da natureza.

Mas como são os parques nos Estados Unidos? No Arizona e em Utah, visitamos dois parques nacionais (o Grand Canyon e o Zion) e um parque estadual (o Red Rock). Em todos eles, eu e a Fran fizemos trilhas e, no caso do Grand Canyon, passamos três noites em um dos campings do parque.

Para o ingresso, compramos o American Beauty, um passe que dá acesso a todos os parques nacionais. Aparentemente custa caro – U$ 80 – mas duas famílias inteiras podem utilizá-lo por um ano. No final das contas, para quem gosta do mato, não sai caro, considerando o custo de vida daqui. Mas para quem desejar somente visitar um parque, há ingressos avulsos que custam muito menos.

Nas entradas, quem dá as boas-vindas são os rangers, os famosos guarda-parques, aqueles que usam um chapeuzinho bem característico. Geralmente, eles são extremamente simpáticos e, como comentarei adiante, tem uma formação bastante sofisticada.

Parques nacionais americanos: além da beleza, há bons serviços para quem visita

Reservei o camping do Grand Canyon com seis meses de antecedência. Como estamos no verão do hemisfério norte, em alta temporada, a reserva precisa ser feita bem antes mesmo. Os textos que li diziam que os parques ficam lotados, mas o conceito de lotado aqui é bem diferente do conceito de lotado no Brasil. Eu imaginava que iria encontrar algo como o trânsito de Floripa no verão, com tudo congestionado e dificuldade de locomoção para fazer qualquer coisa. Mas a verdade é que o camping não é tão grande assim – fazer as reservas é uma forma eficiente de controlar o número de visitantes que pernoitam e, por extensão, o impacto sobre os parques.

No Grand Canyon, uma vez dentro do parque, que é imenso, fizemos o nosso check in no Mather Campground, o camping propriamente dito. Novamente fomos atendidos com simpatia pelos rangers e dirigimos o Paçoca até o nosso espaço. Chegando lá, um papel com o meu nome e os dias reservados estava colado em um postinho que indicava o local do estacionamento. Um aspecto que chamou a atenção positivamente é que os lotes não são colados um ao lado do outro – há uma distância bem razoável, o que permite privacidade entre os campistas.

Cada lote tem um lugar para estacionar o motorhome ou o carro, um espaço amplo para armar barracas, um latão para fazer fogo com grelha, e uma mesa de piquenique de concreto. Ainda que existam lotes estruturados para motorhomes no Grand Canyon, o nosso não tinha eletricidade. Mas havia uma torneira bem próxima (em que foi possível abastecer a nossa caixa d’água) e uma dump station, isto é, uma estação para esvaziar os tanques de esgoto de motorhomes.

Palestra para visitantes com dicas de como aproveitar melhor o parque

Próximos de nós, estava a estrutura de banheiros e lavanderia. Nos banheiros, há chuveiros quentes que funcionavam por tempo, inserindo moedinhas – U$2,50 por cinco minutos de banho. As lavanderias são do estilo self-service, com máquinas de lavar e secar.

A infraestrutura ainda conta com um supermercado, ônibus gratuitos que ligam os principais pontos de observação do parque, pousadas, hotéis, um lindo auditório ao ar livre, museus, passarelas, trilhas bem demarcadas com muitas placas indicativas, mapas distribuídos gratuitamente, pontos de água e mais uma porção de outros cuidados.

O passeio é ao gosto do visitante. Para quem quiser conforto, tem conforto. Para quem desejar aventura, tem aventura. Uma das principais trilhas desce até o fundo do cânion, onde corre o rio Colorado. O desnível é de 1.500m, isto é, uma vez e meia o Olimpo, no Marumbi. A diferença é que você vai descendo e há telefones de emergência ao longo da trilha, bem como banheiros e locais bem demarcados de água e acampamento. Outra diferença é que há placas por todos os lugares avisando quais os itens você deve levar, quais horários são recomendados para a caminhada e que a trilha é difícil – em caso de dúvidas sobre a sua condição física, você deve consultar os rangers.

Em uma das voltas para o nosso camping do Grand Canyon, à noite, passamos pelo auditório ao ar livre, onde uma ranger estava dando uma palestra gratuita. Ela era jovem, tinha mestrado em educação e era uma excelente professora. Animada, contava piadas, provocava as crianças e os adultos. Um dos assuntos que abordou foi a história do velho oeste e a diversidade dos cowboys, mostrando que eles podiam ser negros ou pertencer a uma minoria LGBT. É impossível não pensar no contraste com os (poucos) funcionários dos parques brasileiros, que são mais fiscais de entrada e saída e não propriamente educadores. A palestra acontecia sob um céu estrelado e esta foi uma das nossas melhores memórias do parque.

Estação para reparo de bicicletas: infraestrutura invejável. Foto: André Tezza

A estrutura dos demais parques era bem similar. No parque estadual do Red Rock, que fica em Sedona, no Arizona, uma das principais atrações é fazer trilhas de mountain bike. Em um dos pontos, há um “bike repair”, uma pequena estação com infraestrutura de conserto das bicicletas. No Zion, fizemos duas trilhas moderadas e era comum encontrar famílias fazendo os percursos.

Estamos realmente admirados com a cultura campista daqui. Há de tudo: famílias com crianças, pessoas sozinhas, pessoas mais velhas, casais LGBT. Os lugares são limpos e os campings têm regras rígidas de silêncio depois das 8h da noite. Em todos os lugares que ficamos, inclusive nos campings selvagens, estas regras foram respeitadas. Não presenciamos ninguém escutando música alta em nenhum lugar.

Para os americanos, o encontro com a natureza é uma atividade acessível, democrática e para todas as classes sociais. Vimos hippies mochileiros acampando, bem como gente que chegou de BMW ou até mesmo em uma Ferrari. Há também um grande esforço de educação ambiental, que é visível por todos os lados: na formação dos rangers, nos áudios dos ônibus internos, nos centros de informação, nos mapas, nos pais lendo as placas informativas para os filhos. Apesar da quantidade de visitantes, a vida selvagem é rica e abundante – nós já avistamos tudo quanto é tipo de bicho, de esquilos a alces.

De minha parte, o Brasil ganharia muito se tivesse uma melhor infraestrutura nos parques. Até porque, em beleza natural, sabemos todos que somos um país privilegiado. É possível associar o acesso com sustentabilidade – e, acho eu, esta deveria ser uma das nossas formas principais de desenvolvimento.

Sobre o/a autor/a

1 comentário em “Os parques do deserto”

  1. Tezza, ler sua coluna aqui no Plural é um grande prazer.
    Faço questão de acompanhar esse projeto tão bacana.
    Um forte abraço.

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