A estrada mais bonita do mundo?

Algumas impressões da espetacular Icefields Parkway

Uma rodovia relativamente curta, de 227 km, que une dois dos mais famosos Parques Nacionais do Canadá, Banff e Jasper, é uma celebridade mundial. Esta rodovia, a Icefields Parkway (ou a estrada dos campos de gelo, em tradução livre), costuma aparecer no ranking das mais bonitas do mundo – isto quando alguém não se avexa de dizer que é a número um, aquela com uma beleza que nenhuma outra consegue alcançar.

Eu tive o privilégio de fazer esta estrada cinco vezes – três com a Fran, na ida e na volta do Alasca, e mais duas com meu primo Thiago, que entrou na tripulação do Paçoca no final de setembro. Se tivesse oportunidade, teria feito a estrada mais dúzias de vezes – não cansa, dá para passar uma vida só explorando esta região do Canadá.

Paçoca com o fundo de glaciares da Icefield Parkway. Foto: André Tezza

Mas afinal, a Icefields Parkway é a mais bonita do mundo? No quesito estrada bonita, eu e a Fran, modéstia à parte, temos alguma autoridade. Fomos muitas vezes aos Andes de carro, partindo de Curitiba. Nas incursões andinas, conhecemos as regiões do Atacama e de Catamarca. Fizemos também a região dos lagos e o sul da Patagônia chilena, pela Carretera Austral. Percorremos a maior parte da estrada mais mítica da Argentina, a Ruta 40, e um bom pedaço do Vale Sagrado, no Peru.

Também andamos em estradas espetaculares europeias, como a região das Dolomitas, na Itália, ou a costa da Galícia. Sem falar no que fizemos nos EUA com o Paçoca, nos meses anteriores: parques do Arizona e de Utah, Big Sur e Península Olímpica. Chegamos à conclusão de que todas estas estradas são absurdamente lindas. E, claro, existem muitas outras que ainda não conhecemos. Mas de tudo o que já fizemos, sim, a Icefields é a que mais nos impressionou.

Um elk macho, na época do acasalamento. Foto: André Tezza

A Icefields Parkway é uma estrada que entende de narrativa. Para usar a expressão da moda, o troço vem com um storytelling. Você começa de forma tímida, se aproximando das montanhas. Depois vai vendo tudo quanto é tipo de recorte: estrada com neve, com gelo, com lago verde, com floresta. Se é outono, há amarelo, laranja e vermelho no horizonte. Às vezes, tem plot twist: uma montanha nevada desponta depois de uma curva. Chegue mais perto e aparece um lago azul que estava invisível. Ou uma cachoeira. Ou um glaciar. Ou vários glaciares. Sem contar a vida selvagem.

Banff e Jasper, além de parques nacionais, são vilarejos. Banff é bem mais turística, atraindo multidões no verão. Jasper é mais intocada, introspectiva e selvagem. Em ambas as cidades, bem como na Icefields Parkway, há dezenas de opções de caminhos para fazer de bicicleta, a pé, a cavalo ou de carro. Bastam alguns minutos de passeio para fugir das multidões e chegar em um lugar deslumbrante e vazio.

Moose no arredor de Jasper. Foto: André Tezza

Não chegamos a ver animais à beira da rodovia, mas vimos muitos alces nas redondezas dos vilarejos. No Canadá, há muitas espécies diferentes de alces – nesta região, vimos os elks e os mooses. Segundo a Fran, o moose é como nós, gente como a gente, feinho arrumadinho, atrapalhado, simpático. Já os elks são como o Rodrigo Hilbert ou a Taís Araújo. O mais incrível foi ter visto estes animais nos campings em que ficamos, a poucos metros de onde estacionamos. Abrir a cortina da mesinha do motorhome e tomar um café da manhã com alces está entre as experiências mais incríveis da odisseia com o Paçoca.

Com o meu primo Thiago, fizemos muitas trilhas da região. Uma delas foi a Tunnel Mountain, pequena montanha que está de frente para Banff. É uma trilha relativamente curta, com algumas surpresas no cume. Uma delas foi encontrar uma placa informando que sua majestade, a rainha Elizabeth II, havia feito esta mesma trilha trocentos anos antes. Outra foi encontrar um sujeito tocando uma gaita de fole. Apesar de ser um principiante no instrumento, não deixou de ser mágico.

Um homem toca gaita de fole no cume da Tunnel Mountain, em Banff. Foto: André Tezza

Uma tragédia aconteceu enquanto estava em Banff com o Thiago. Em uma das trilhas, dois turistas foram mortos por um urso. Ataques de urso são raros e ataques fatais são mais improváveis do que morrer com um raio na cabeça – mas, sim, podem acontecer. Aquele era o lembrete definitivo: não dá para fazer trilhas nestes cantos do mundo sem spray de urso, isto é, um spray de pimenta para se proteger de possíveis ataques. Desde que entramos na região dos ursos, ainda na Califórnia, sempre fizemos trilhas com o spray na mochila.

Depois da última incursão nos parques canadenses, eu e o Thiago fizemos uma sequência de parques americanos: Glacier, Yellowstone, Grand Teton, Custer e Badlands. Será o assunto da próxima coluna.

Muitos motorhome percorrem a Icefields Parkway no verão. Foto: André Tezza
Elks no camping de Banff. Foto: André Tezza


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