À minha mãe

Aos 50 anos, a vida teve a ousadia de colocar um tumor no lugar onde minha mãe gerou seus dois filhos. Mas ela vai vencer

As histórias de amor de mãe não são expressas por palavras. É impossível. Se assim fosse, as nossas vidas certamente seriam vazias e contrárias ao verdadeiro sentido da ternura. Assim como todas as mães do mundo, a minha é uma imagem sacra que inspira e acalma. Se o mundo é desafiador e hostil, é neste colo que encontro o sossego. 

Antes de aparecer neste jornal, Maria da Conceição cultivou uma história profunda nas terras vermelhas do Norte do Paraná. Em uma família numerosa e formada por imigrantes mineiros, passou a infância perto das lavouras e distantes das escolas. O passado ficou marcado por uma rotina de trabalhos exaustivos — dentro e fora de casa — e baixo orçamento. 

Em nossa casa, durante as crises econômicas dos anos 90, davam-se jeitos para não faltar roupas, comidas e educação. Foi árduo, mas passou. Já em 2000, as condições de vida mudaram… Maria tirou a habilitação, comprou o primeiro automóvel, uma casa, os eletrodomésticos e matriculou os filhos em cursos profissionalizantes. Até a vida social se tornou mais ativa, com tempo de sobra para encontrar amigos e dançar nos bailões interioranos.

Observar o passado familiar é como assistir Aftersun (2022). É um mergulho profundo e denso. Adequando a trama para uma relação entre mães e filhos na fase adulta, o mais difícil é que, conforme o tempo passa, ficamos cada vez distantes, e mais perto da despedida dolorosa. Emaranhados em recordações e saudades. É impossível negar este sentimento no domingo dedicado a elas. Para distrair essa paranoia, resta a crença de que os bons filmes são memoráveis pelo enredo, e não pelo final próspero.

Em 31 dezembro de 2023, quando os fogos de artifício iluminavam o céu, parecia que o ano novo seria um misto de rotina com conquistas pontuais, mas, logo que amanheceu, a paz se foi. O destino teve a audácia de testar as suas forças e, após os 50 anos, gerou um tumor no mesmo espaço em que gerou os seus dois filhos. 

Parafraseando uma música dos Engenheiros do Hawaii, ela insiste em dizer que envelheceu uns dez anos ou mais nesse último mês. Seu semblante comprova o relato. Antes disso tudo acontecer, retocava os fios de cabelos, penteava as madeixas avermelhadas e se enfeitava para passear à toa no centro de Curitiba nos dias de folga. Agora, faltam forças para lidar com o cotidiano, comer e beber viraram sacrifícios. Até o melhor pudim saboroso deixou de ser feito. Realmente, a quimioterapia é uma arma quente.

Afastada do trabalho, o trajeto da Fazenda Rio Grande até o Hospital Erasto Gaertner se tornou rotina. O tratamento, previsto para dois meses, contou com cinco sessões de radioterapia e uma quimioterapia por semana. Em uma listagem longa de medicamentos, são vários os efeitos colaterais: enjoos, diarreias, fraqueza, desidratação, perda do apetite, febre, entre outros. As rotinas foram modificadas, mas seu corpo não concordou. Houve momentos em que achou que iria partir. Os altos e baixos da pressão arterial estavam constantes e desregulados ao ponto de impedir o banho solitário. É árduo, mas está passando.

Assim como todas as mães do mundo, a minha segue firme para vencer todas as dificuldades. Restando poucas semanas para eliminar o câncer alojado em seu útero, Maria convida seus entes queridos para tocarem o sino da liberdade, que deve acontecer na segunda metade de julho. Assim que a liberdade cantar, deseja voltar a trabalhar, retocar as madeixas e se enfeitar para passear no centro de Curitiba nos dias de folga.

“Nossas mãos ainda encaixam certo
Peço um anjo que me acompanhe
Em tudo eu via a voz de minha mãe
Em tudo eu via nóis
A sós nesse mundo incerto
Peço um anjo que me acompanhe 
Em tudo eu via a voz de minha mãe
Em tudo eu via nóis”

Mãe, Emicida

Este texto faz parte do projeto Periferias Plurais, em que o Plural convida jovens de Curitiba e região a falarem sobre suas vidas e suas comunidades. O projeto tem apoio do escritório de advocacia Gasam.

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