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Secretário de Turismo de Ratinho Jr expôs crianças por anos após denúncia de estupro em creche de Cascavel

Mesmo após denúncia formal, gestão de Leonaldo Paranhos manteve servidor em CMEIs; secretária de Educação à época segue no cargo

Secretário de Turismo de Ratinho Jr expôs crianças por anos após denúncia de estupro em creche de Cascavel
Leonaldo Paranhos (esq.) com o governador Ratinho e o atual prefeito Renato Silva. Foto: Divulgação
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Cascavel - A Prefeitura de Cascavel manteve, por cinco anos, em contato direto com crianças, o agente de apoio Bruno Garcia Leite, condenado em março passado a 30 anos de prisão por estupro de vulnerável contra um menino de três anos.

A denúncia foi feita em 2019, mas o servidor só foi afastado definitivamente em novembro de 2024, após sucessivas prorrogações de um processo administrativo que permaneceu paralisado por mais de três anos, período que coincide integralmente com a gestão do então prefeito Leonaldo Paranhos (PL), atual secretário de Turismo do governador Ratinho Jr (PSD).

Segundo a sentença da juíza Nicia Kirchkein Cardoso, o menino relatou agressões ocorridas dentro do CMEI durante o horário de descanso. A mãe registrou boletim de ocorrência, buscou atendimento no Nucria, acompanhou escuta especializada e laudos médicos. A Justiça considerou o conjunto de provas suficiente para condenar o servidor.

Negligência institucional e pressão popular

No âmbito administrativo, porém, a denúncia não resultou em medidas imediatas. A direção do CMEI não acionou o Conselho Tutelar, e a Secretaria de Educação, comandada à época por Márcia Aparecida Baldini, limitou-se a orientações informais, como afastar o servidor do “soninho” das crianças, sem formalizar qualquer ato de afastamento, readequação de função ou fiscalização.

Baldini permanece à frente da pasta na gestão de Renato Silva (PL), vice de Paranhos à época dos fatos, eleito prefeito no primeiro turno em 2024, também com apoio expressivo do governador.

Diante da pressão e comoção popular, foi aberta na Câmara de Cascavel a CPI do “Professor Monstro”, como ficou conhecida. Criada apenas em junho deste ano, depois que a condenação de Bruno se tornou pública. O relatório final, concluído em 19 de novembro, atesta que a Secretaria de Educação não afastou o servidor diante da denúncia de 2019, não criou protocolos específicos para casos de suspeita de abuso e não informou aos diretores de CMEIs de que o agente de apoio respondia à investigação criminal.

O documento também atribui responsabilidade direta ao então prefeito Leonaldo Paranhos. Entre 2021 e 2024, o processo disciplinar de Bruno teve 18 prorrogações consecutivas, sem avanço efetivo. Depoimentos à CPI demonstraram que o prefeito assinava as extensões sem receber informações claras sobre a gravidade do caso, e a Controladoria Municipal tampouco tratou o procedimento como prioritário, embora envolvesse suspeita de estupro de criança em creche pública.

Mais abusos sexuais e omissões

Com o PAD travado, Bruno continuou atuando em CMEIs. Em 2024, mães relataram mudanças no comportamento dos filhos, como medo de homens, verbalizações sobre toques íntimos e sinais de sofrimento emocional. Pollyana Caxias, uma delas, afirma ter sido desencorajada pela coordenação ao relatar suspeita de abuso. Diretores e coordenadores disseram não ter sido avisados pela Secretaria de Educação ou pelo Executivo sobre a investigação quando o servidor foi transferido para suas unidades.

A CPI também evidenciou que parte dos responsáveis pela análise final das falhas integrava o mesmo grupo político que administrava a cidade à época. O relator, Hudson Moreschi (Podemos), havia sido secretário de Assistência Social na gestão Paranhos, pasta integrante da rede de proteção à infância. A comissão contou ainda com vereadores aliados ao ex e ao atual prefeito, como Everton Guimarães (PMB), Contador Mazutti (PL) e Dr. Lauri (MDB).

O relatório final conclui que houve falhas sistêmicas, ausência de comunicação entre CMEIs, Secretaria de Educação, Assistência Social e Controladoria. Além da demora injustificada na conclusão do PAD e falta de medidas protetivas às vítimas. O documento afirma que o sistema de proteção infantil de Cascavel “não funcionou em nenhuma etapa” e encaminhará cópia do relatório ao Ministério Público.

Paranhos disse à CPI que seguiu trâmites técnicos. Dias após a condenação de Bruno Garcia Leite, foi nomeado secretário de Turismo do Paraná. Márcia Baldini permaneceu na Secretaria de Educação, e Hudson Moreschi assumiu no Legislativo a cadeira responsável por investigar a gestão de que participou.

Para a mãe que denunciou o caso, a omissão da Prefeitura expôs outras crianças ao risco. “Se tivessem nos ouvido em 2019, isso não teria se repetido”, afirmou Mariana Kautschner, mãe da vítima reconhecida judicialmente.

Outro lado

Procurado pela reportagem, o secretário Paranhos enviou a seguinte nota:

Sobre o relatório da CPI conduzida pelo Legislativo Municipal, informo que ainda não tive acesso ao documento. Ainda assim, de forma voluntária, me coloquei à disposição para prestar depoimento e contribuir com todos os esclarecimentos necessários.

Quanto ao caso que envolveu um servidor público, registro que fui o primeiro prefeito da história de Cascavel a demitir um pedófilo, decisão que resultou em uma condenação de 30 anos de prisão pela Justiça.

Tenho um histórico sólido de combate à exploração de menores. Na Assembleia Legislativa, como deputado estadual e presidente da Comissão da Criança, Adolescente e do Idoso (CRIAI), atuamos firmemente, chegando a prender taxistas e caminhoneiros envolvidos em exploração sexual em Paranaguá. E, na Prefeitura, novamente fui o primeiro prefeito a agir e demitir um servidor acusado de explorar crianças.

Sem respostas
Procurados pela reportagem, a defesa de Bruno Garcia Leite, a Prefeitura de Cascavel e a Secretaria Municipal de Educação não responderam aos pedidos de posicionamento até o fechamento desta reportagem. O espaço permanece aberto para manifestações dos envolvidos.

Tags: Paraná

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