As eleições de 2026 marcam um novo recorde de candidaturas indígenas. Um levantamento da Campanha Indígena, iniciativa da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), com base nos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), identificou 191 candidaturas de pessoas que se autodeclararam indígenas em todo o país. É o maior número desde 2014, quando a Justiça Eleitoral passou a divulgar informações de cor e raça dos candidatos.
Os dados mostram uma trajetória de crescimento ao longo dos últimos 12 anos. Em 2014, foram 85 candidaturas indígenas; em 2018, 133; e, em 2022, 186. Com os 191 nomes registrados neste ano, o número aumentou 125% desde o início da série histórica.
A disputa pela Câmara dos Deputados também alcança um patamar inédito. São 75 candidaturas indígenas a deputado federal em 2026, contra 25 em 2014, 39 em 2018 e 59 em 2022. Em 12 anos, portanto, o número triplicou. A maior parte das candidaturas deste ano, porém, está nas assembleias legislativas, que concentram 99 nomes. Outros três candidatos disputam uma vaga de deputado distrital no Distrito Federal.
Também estão na lista quatro candidatos ao Senado, três aos governos estaduais e dois a vice-governador. Há ainda cinco candidaturas para suplente de senador.
A presença indígena se espalha por 26 unidades da Federação. A Amazônia Legal concentra 80 das 191 candidaturas, ou 41,9% do total. Na sequência aparecem o Sudeste, com 37 candidaturas; o Nordeste, com 34; o Centro-Oeste, com 27; e o Sul, com 14.
Para a Apib, chegar a 191 candidaturas indígenas representa a prova concreta de uma caminhada histórica de resistência e de cobrança dos povos indígenas por espaço e respeito no poder. “Essa realidade evidencia a ausência que ainda persiste nas estruturas de decisão do país. Estamos presentes em 26 unidades da federação, com 64 povos registrados na disputa e uma marca histórica de 75 candidaturas à Câmara dos Deputados. Essa presença nasce dos territórios e amplia, com força política, nossa exigência de participação efetiva nos rumos do Brasil”, afirma destaca a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil.
No Paraná, quantidade de candidatos indígenas diminuiu
No estado do Paraná, a quantidade de candidatos autodeclarados indígenas diminui com relação ao último pleito estadual. Nas eleições de 2022 oito candidatos se declararam indígenas ao TSE. Nestas eleições, são apenas três.
Os três candidatos disputam uma vaga na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep):
Eloy Nhandewa: É candidato a deputado estadual pelo PSOL. Eloy é liderança indígena do Paraná, professor, articulador político e conselheiro estadual dos Povos Indígenas. Pertencente ao povo Guarani Nhandewa, atualmente é suplente de vereador em Curitiba e obteve a maior votação de um candidato indígena no estado. Ao longo de sua trajetória, protagonizou diversas lutas em defesa dos povos indígenas, da justiça social e da preservação ambiental. Desde 2021, está à frente da retomada na Floresta Estadual Metropolitana, onde desenvolve um trabalho de regeneração do território, com o plantio de araucárias e outras espécies nativas, além da proteção dos mananciais que abastecem Curitiba.
Kakonore Dalprá: É candidata a deputada estadual pelo PSD. Ela é indígena do Povo Gavião Parkatejê e natural de Bujaru no estado do Pará. É nutricionista e empresária. Trabalha com projeto ligados à nutrição e também em projetos para indígenas como educação alimentar para os indígenas do Brasil e restauração da medicina tradicional indígena. É representante da Agroindígena do Brasil na Região Sul.
Ivan Kaingang: Ivan é candidato a deputado estadual pelo PT. Ele é da Terra Indígena Kaingang de Apucaraninha, em Tamarana. Bacharel em Direito, foi fundador e ex- Coordenador da ARPINSUL, ex-presidente do Conselho de Caciques Kaingang do Paraná (2005-2008), ex-coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena Litoral Sul (DSEI) da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), membro do Conselho Nacional de Políticas Indígenas e articulador Cultural da Juventude Kaingang Nén Gá.
Mulheres ampliam participação de candidaturas no Brasil
A participação feminina também ganhou espaço entre as candidaturas indígenas em todo o Brasil. Dos 191 nomes registrados em 2026, 84 são mulheres, o equivalente a 43,8% do total. Em 2014, eram 29 mulheres entre 85 candidaturas indígenas. O número subiu para 49 em 2018 e chegou a 85 em 2022. Neste ano, embora tenha havido uma pequena redução em relação à eleição anterior, a participação feminina permanece próxima do maior nível registrado.
64 povos na disputa
O levantamento do TSE identifica 64 povos indígenas entre as candidaturas de 2026. O maior número é do povo Macuxi, de Roraima, com 13 candidatos. Em seguida aparece o Guarani Kaiowá, de Mato Grosso do Sul, com 12. A lista inclui ainda oito candidaturas Guarani, sete Mundurukú, seis Múra e seis Terena.
Para a Campanha Indígena, a eleição representa também uma continuidade das mobilizações dos povos originários em defesa de seus territórios e direitos. A participação nas urnas é apresentada como parte de um processo político construído a partir das lutas desenvolvidas nas comunidades e nos territórios indígenas.
Neste ano, a Apib e suas organizações regionais de base apresentam o documento Nosso Território, Nossa Vida, elaborado a partir das experiências acumuladas pelo movimento indígena. A proposta defende um projeto de país em que as decisões sobre o futuro do Brasil sejam construídas com a participação dos povos indígenas.
A Campanha Indígena pretende que candidaturas indígenas e candidaturas aliadas às pautas relacionadas à terra e ao território conheçam o documento, façam sua adesão e incorporem suas propostas às campanhas eleitorais. A iniciativa também busca levar o conteúdo para os territórios e ampliar o debate durante o processo eleitoral.