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Amianto: a luta por direitos e pela vida

Observatório do Amianto tenta aliviar problemas de saúde dos expostos ao material

Por Admin
Amianto: a luta por direitos e pela vida
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Ainda que o Senado e o Supremo Tribunal Federal (STF) não venham jamais a reverter o banimento do amianto no Brasil (veja reportagem sobre isso aqui), o país terá de conviver por muitos anos com os estragos já causados pelo mineral na saúde dos trabalhadores e das pessoas expostas às doenças que ele causa.

Para lidar com os casos de doenças graves, como o mesotelioma (câncer causado pelo amianto) e a asbestose, o Ministério Público do Trabalho (MPT), a Secretaria de Saúde de municípios da Grande Curitiba e a Associação Paranaense dos Expostos ao Amianto (Aprea) fizeram uma parceria e criaram o Observatório do Amianto.

A ideia é agilizar o fluxo de atendimento na saúde públicaaos expostos, que serão encaminhados, posteriormente, a instituiçõeshospitalares especializadas. Segundo o planejamento, o check-up inicial fica acargo do Hospital do Trabalhador. A partir daí, os pacientes com câncer devemfazer acompanhamento no Erasto Gaertner, enquanto que as doenças crônicas sãotratadas no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Manter esse fluxo funcionando, no entanto, não é uma tarefa fácil. É aí que entra o trabalho da Aprea, que há muito tempo luta pelos direitos e pela vida dos expostos. O presidente da Associação, Herbert Fruehauf, tem conhecimento de causa: ele passou quatro anos atuando na área de manutenção mecânica industrial de uma fábrica de telhas na região de Curitiba.

https://youtu.be/r83ZtUtjNfc

Herbert, hoje com 60 anos, ficou exposto ao amianto entre 1995e 1999. Ele só notou que havia algo errado com a sua saúde em 2004, durante umexame admissional para outro emprego. “Esse foi o primeiro alerta de que eupoderia ter uma contaminação no pulmão. Nessa época, eu sentia um pouco defalta de ar, mas algo que até então era considerado normal. Eu fiz ainvestigação e o laudo concluiu, após o exame radiológico, que era por causa doamianto”, conta.

O presidente descobriu que a fibra havia se fixado na pleura,membrana que reveste o pulmão, e causado asbestose. “A coisa não muda mais, éum caso muito crítico e cruel. Não tem cura e eu terei que conviver com issoaté o dia que Deus permitir”.

Não bastasse o mal que o amianto lhe causou, ele precisou enfrentar uma jornada árdua entre a suspeita da doença, a comprovação oficial e a concessão da aposentadoria por invalidez acidentária, que só aconteceu em 2007. “Eu só consegui tudo isso em São Paulo, onde obtive a assinatura do nexo causal. Aqui no Paraná, infelizmente, essas coisas estão engatinhando”, declara.

No Paraná, osobstáculos são maiores

Para obter indenização, aposentadoria ou acompanhamentomédico bancado pela empresa, o exposto precisa provar que teve a saúde afetadapelo amianto. Em São Paulo, primeiro estado que baniu o uso da fibra, esse processoé mais flexível e agilizado, diferente do que ocorre no Paraná.

“Aqui tudo tem que ser via SUS [Sistema Único de Saúde] e unidade de saúde. Então nós dependemos do suporte das prefeituras de Curitiba, São José dos Pinhais e Colombo, cidades onde atuam as três fábricas que usavam o amianto como matéria-prima. Além disso, necessitamos da ajuda dos médicos, que na maioria das vezes têm receio de assinar os laudos, porque preferem não se comprometer com a presença nas audiências trabalhistas”, diz Herbert.

https://youtu.be/Opd2VdrrbfI

De acordo com ele, questões como essas são responsáveis pelalentidão do sistema judiciário. “Nós temos processos correndo há mais de 11anos, sem conclusão. Sabemos de casos de mesotelioma em que a pessoa morreu semnem fazer o diagnóstico final. Enquanto a saúde pública não se inserir natotalidade e facilitar o trâmite, não teremos como ajudar os afetados ou criarum histórico, com números que mostrem quantas pessoas tiveram problemas porcausa da exposição”.

Entre as ações da Aprea para mudar essa realidade, estão umaampla campanha em parceria com o Ministério Público do Trabalho para divulgaros perigos do amianto, lançada em 2017, e a realização de frequentes reuniõescom o poder público. Herbert comentou que as prefeituras, porém, alegam faltade recursos e limites no orçamento. “Nós não vamos parar a luta por aí. Sabemosque as demandas vão além dos municípios e pretendemos marcar novos encontroscom as autoridades para garantir um caminho mais definitivo que leve a um acompanhamentomédico e judicial de qualidade”, conclui.

Campanha que ultrapassadivisas e fronteiras

O movimento social que busca dar visibilidade à causa dos expostos ao amianto ganhou força nacional. Hoje, ele está presente em estados como o Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e São Paulo.

O vice-presidente da Aprea, Eliezer João de Souza, de 77 anos, conta que a mobilização teve início em Osasco (SP), onde uma conquista importante deu esperança para os ativistas. “Na época, nós conseguimos que trabalhadores aposentados de uma fábrica recebessem 50% a mais no salário que ganhavam, originado da contaminação. Isso foi há cerca de 16 anos”.

Eliezer e Herbert: luta de quem sabe bem o que é o problema. Foto: Marina Sequinel/Plural

Assim como Herbert, Eliezer também sofreu com asconsequências de ser exposto ao amianto na indústria onde trabalhava, em SãoPaulo. Ele atuou na área de acabamento dos materiais produzidos com a fibra, aspirandoo pó por 13 anos – de 1968 a 1981.

“As minhas condições de trabalho eram um inferno, eu ficavaexposto da hora que entrava até a que saía. Muitos anos depois, descobri umnódulo na pleura, que surgiu por causa do amianto. Eu passei por uma cirurgiapara a retirada dele em 2000. Se não tivesse feito o procedimento, poderia terdesenvolvido o mesotelioma e aí seria o fim. Vários colegas meus morreram por causadisso. Se o câncer aparecer, você já pode encomendar a missa de sétimo dia”,desabafa.

https://youtu.be/3QEqVV4X5TI

O máximo que uma pessoa acompanhada pela Aprea viveu com adoença, segundo Eliezer, foi um ano e dois meses. Um dos próprios fundadores daAssociação, Aldo Vincentin, faleceu em decorrência do mesotelioma em 2008, aos66 anos, apenas três meses após o diagnóstico.

“A preocupação não é só com os funcionários das fábricas, mas também com a população que teve contato com o amianto sem nem saber o que é isso. Muitos já morreram e estão morrendo. Existem cidades em que não há advogado, médico, nem nada que dê apoio a essas pessoas e isso é algo que precisamos mudar”, fala o vice-presidente.

Mais adiante, a ideia é pensar a nível internacional. Asassociações pelo Brasil pretendem lutar pelo fim da exportação do amianto, paraque o material banido no país não vá para o exterior e cause todo o sofrimentovivenciado pelos expostos brasileiros.

Quem está nogrupo de risco ou conhece alguém que se encaixa nesse perfil deve procuraratendimento no Observatório do Amianto, por meio do e-mail [email protected] ou pelotelefone (41) 3095-7595. Para mais informações, clique aqui: http://www.observatoriodoamianto.com.br/.

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Tags: Paraná

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