Uma comédia romântica termina quando os personagens quepassaram o tempo inteiro batendo cabeça conseguem ficar juntos. As histórias dasérie “Easy” começam daí: quando o encanto diminui e tem início o trabalho durode fazer uma relação dar certo.
Joe Swanberg, o criador da série, é um cara esquisito. Foiconsiderado um dos expoentes do mumblecore,um subgênero do cinema independente americano feito de maneira tosca, semorçamento e com a ajuda de amigos e amigas. Os filmes que fez nessa época sãobem ruins. Precários mesmo.
Na Netflix, a história é outra. “Easy” é muito bem produzida etem três temporadas que somam 25 episódios (8 + 8 + 9). E só. Mas não sei atéque ponto o termo episódio fazsentido aqui porque eles funcionam mais como pequenos filmes com cerca de 30minutos cada um, todos com começo, meio e fim, e todos mais ou menos independentesum do outro (com uma exceção importante, na temporada final: os episódios“Deslize para a direita” e “Desliza para a esquerda”). Se você respeitar aordem das temporadas, vai ver que os personagens evoluem com o tempo. Se,porém, quiser assistir aos episódios aleatoriamente, não tem problema algum.
As sacadas começam pelo título. É divertido que uma sériechamada “Fácil” fale sobre relacionamentos, sexo e amor. Rola uma ironia aí. Eela aborda o tema levando em consideração toda a parafernália digitaldisponível hoje em dia. Os personagens usam Tinder, não largam do celular o diainteiro, ficam dependurados nas redes sociais…
Em vez de falar sobre todos os 25 episódios, vou tomar comoexemplo quatro. Um da primeira, um da segunda e dois da terceira temporada.Esses quatro episódios tratam de Andi e Kyle, casados e com filhos. Eles têmseus 40 e poucos anos, estão juntos há mais de 20 e a relação esfriou.
Depois de um ano e meio frequentando a terapia, os doisdecidem abrir o casamento. Foi uma ideia da mulher, Andi. Da maneira queSwanberg aborda o assunto – ele escreveu os roteiros, além de dirigir osepisódios –, um casamento (aberto, nesse caso) está longe de ser fácil. Asdificuldades, os constrangimentos e os desencontros vão se acumulando.
Para você ter uma ideia: Andi queria se sentir desejada denovo e sugeriu sair com outras pessoas por causa disso. Ela e Kyle continuariamsendo parceiros para a vida, vivendo debaixo do mesmo teto, cuidando das criançase até compartilhando histórias de seus casos extraconjugais. Enquanto Andicomeça a explorar as possiblidades desse novo arranjo, Kyle acaba se envolvendocom Amy, numa relação que vai além do sexo (os dois claramente têm afeto umpelo outro).
Rotular um filme ou série com as palavras “cinemaindependente americano”, como fiz aqui, significa que você vai ver uma produçãomais preocupada com histórias e personagens, e menos com ação e suspense. Dizernão para o suspense é uma decisão ousada para uma série porque, em geral, éesse impulso – o de descobrir o que vai acontecer – que mantém as pessoasgrudadas no sofá, episódio atrás de episódio.
O que motiva a ver “Easy” então é a vontade de saber maissobre os personagens e as situações enfrentadas por eles.
No episódio cinco da terceira temporada, “Deslize para aesquerda”, Andi (Elizabeth Reaser) e Kyle (Michael Chernus) têm uma conversademolidora sobre casamento, desejos e frustrações. É uma cena de vinte minutosque trata de tanta coisa importante que não consigo explicar aqui. Ela sozinhafaz valer as mais de dez horas que você talvez gaste vendo a série.