Pular para o conteúdo

Volta à bandeira amarela evidencia uso de leito como estratégia

Prefeitura libera cinemas e parques infantis apesar do número de pessoas internadas em UTIs não ter caído

Volta à bandeira amarela evidencia uso de leito como estratégia
Publicado:

Abrir novos leitos de UTI e enfermaria durante uma pandemia é uma necessidade. A ação mobiliza recursos para atender os doentes e aumentar suas chances de sobrevivência. Mas é também um risco: com a situação nos hospitais em aparente controle, é necessário um esforço extra para convencer a população a aderir a outros cuidados mais urgentes, aqueles que de fato evitam que pessoas se contaminem.

Em Curitiba, a primeira parte da estratégia está funcionando muito bem. Com quase 900 leitos especiais para Covid-19 (tanto de cuidados intensivos quanto de enfermaria), a cidade mantém há um mês o percentual de ocupação dos leitos de UTI abaixo de 90%.

Mas o dado mascara outro tão importante quanto: desde o início de dezembro a cidade tem mais de 800 leitos especiais (esse total chegou a 900 na segunda semana de dezembro) em funcionamento, 370 dos quais são UTIs.

Só as UTIs custam, pelo valor estipulado pelo Ministério da Saúde para unidades exclusivas para Covid-19, meio milhão de reais por dia. É caro, e não só para o Sistema Único de Saúde. Quem desenvolve casos graves de Covid-19 fica mais tempo internado, corre mais risco de morte e, se sobreviver, de ter sequelas.

A manutenção, por tanto tempo, de tantos leitos ativados, é sinal de que os casos graves se mantém estáveis na cidade, apesar da redução de novos casos registrados. O município, porém, continua a não tomar medidas mais efetivas para conter a contaminação e, desta forma, reduzir as chances das pessoas acabarem numa UTI.

Na última quarta-feira, dia 27, a prefeitura voltou a declarar bandeira amarela, flexibilizando as medidas de restrição a atividades não essenciais e autorizando, por exemplo, o funcionamento de teatros, cinemas, parques infantis e a realização de eventos para até 50 pessoas.

A comunicação sobre a necessidade de isolamento e distanciamento social também é dúbia. Por um lado, tanto a secretária de saúde, Márcia Huçulak, quanto o prefeito, Rafael Greca, insistem que a "pandemia não acabou". Mas promoveram aglomeração para receber e aplicar as primeiras doses da vacina na capital.

Os dados da própria prefeitura de Curitiba mostram que desde maio, em nenhum momento o número de leitos criados para o enfrentamento da Covid-19 ficou abaixo de 500 (somando UTIs e enfermarias). Além disso, depois de um salto para 800 leitos em julho, no primeiro pico de casos da doença na cidade, Curitiba teve só um pequeno respiro entre meados de setembro e fim de novembro, quando este total caiu para em torno de 650 leitos.

Além dos leitos em si, essa estratégia coloca no limite uma grande equipe de profissionais necessária para dar conta do estrutura extra. A própria secretária municipal de Saúde (ela mesma enfermeira de carreira do SUS), chegou insistir que suas equipes estavam "no limite" quando Curitiba entrou em uma nova escalada de casos da doença no início de dezembro.

Porém, apesar de só esta semana a cidade começar a ver uma queda mais efetiva no número de pessoas internadas, a prefeitura retirou a bandeira laranja instituída em dezembro e voltou para o alerta amarelo, reduzindo as restrições a atividades não essenciais na cidade. Nas próximas semanas também está previsto o retorno das aulas presenciais nas escolas.

É possível ver, na comparação entre o número de pacientes internados em enfermarias Covid-19 e o número de leitos ainda disponíveis, que apesar da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) ter fechado apenas dois leitos nas últimas semanas, só nos últimos dias o número de leitos disponíveis saiu da casa dos 100 para chegar em 200.

Além disso, se olharmos os dados de leitos de UTI Covid-19 na cidade, desde meados de outubro não chegamos a cem leitos disponíveis. E o total de pacientes internados está próximo de 300 desde o fim de novembro, mesmo com a redução no número de novos casos nas últimas semanas.

Esses dados apontam que, muito embora o número de casos novos tenha diminuído, o número de pacientes graves da doença não acompanhou esse movimento. A questão é: a estratégia de enfrentamento da doença deveria justamente ter como principal objetivo reduzir o número de pessoas que desenvolvem graves complicações da Covid-19 e que podem precisar de tratamento intensivo, intubação e até mesmo chegar a óbito.

Até mesmo a vacinação, que começou devagar no país inteiro neste fim de janeiro, tem justamente este objetivo. A Coronavac, principal imunizante usado no país, promete reduzir em 50,4% o risco de contrair a doença e em 100% o desenvolvimento de sintomas graves. Mas este efeito só será significativo quando pelo menos a população mais vulnerável a doença estiver em sua maioria imunizada, o que não tem data para acontecer ainda.

Até agora a cidade recebeu cerca de 90 mil doses da vacina. Mas para conter a doença Curitiba terá que imunizar a maior parte de um milhão e duzentos mil moradores, num total de dois milhões e quatrocentas mil doses. Até lá, sem a conscientização da população, a aposta, parece, continuará a ser nos respiradores e nas equipes de leitos especiais. Uma aposta que até agora já soma o prejuízo incalculável de 2.585 vidas perdidas para a doença.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

Todos os artigos
Tags: Artigos

Mais em Artigos

Ver todos

Mais de Rosiane Correia de Freitas

Ver todos

De nossos parceiros