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Venda da Copel Telecom pode desconectar escolas e municípios

Escrito por Leandro Grassmann
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O governador Ratinho Júnior (PSD) afirmou, em entrevista a um jornal do estado, que a Copel Telecom não fornece serviços de necessidade básica à população e não tem função social. Afirmou ainda que a Copel Telecom atende somente o setor privado. “Não tem porque a gente manter esse ativo sendo que está faltando dinheiro para outras áreas. É uma bobagem”. O discurso do governador tem sido utilizado como justificativa para privatizar a empresa que lidera o ranking de satisfação de clientes da Anatel e tem potencial para se tornar uma das maiores empresas do setor, beneficiando os paranaenses, seus “maiores acionistas”.

Aparentemente, o governador desconhece a realidade das empresas do Grupo Copel e até mesmo das secretarias do próprio governo estadual. A Copel Telecom tem papel estratégico no desenvolvimento do estado. Nesse artigo, vou apontar apenas a relação da empresa e sua responsabilidade social com a educação e com os 339 municípios. Em uma era cada vez mais tecnológica, poder ofertar aos estudantes conhecimento de forma ágil, interativa e a baixo custo para o estado deve ser a prioridade número um de quem fala em modernizar a gestão pública. Bem como melhorar o desenvolvimento das cidades encurtando as distâncias por meio da conexão de interesse público.

Vamos aos fatos. A Copel Telecom, empresa que nasceu como um departamento da Copel há mais de 40 anos, atende necessidades de telecomunicações da própria Copel, da Sanepar e do governo do Paraná. Estas partes relacionadas repassaram aproximadamente R$ 20 milhões pela remuneração dos serviços prestados. Os dados estão disponíveis no balanço da Copel Telecom. De acordo com a Celepar, os números de março de 2019 mostram que a Copel Telecom fornece 167 acessos da rede de alta velocidade e 3.352 acessos de banda larga aos órgãos do governo estadual. Ou seja, eficiência e excelência que o governador pode estar sendo induzido a entregar às empresas privadas. Agora pare e pense. É certo os paranaenses abrirem mão de uma empresa líder no ranking nacional para ser vendida, por exemplo, a TIM, Claro, Vivo e Oi, que são empresas de telecomunicações e lideram o ranking de reclamações do Procon em 2017 e 2018?

Responsabilidade com os municípios e educação

Na questão de responsabilidade social na educação, vale destacar que, em parceria com governo do estado, por meio da Secretaria da Educação, Celepar e Instituto Fundepar, a Copel Telecom promove acesso à internet e redes de comunicação de dados a municípios e escolas estaduais. São 2.205 escolas estaduais conectadas, de acordo com a Celepar.

Acredito que com o trabalho dos colaboradores da Copel Telecom, o governador deveria estar empenhado em ampliar o Programa Paraná Digital, que promove apoio aos professores para a utilização de recursos feitos pelos assessores técnico-pedagógicos das Coordenações Regionais de Tecnologia na Educação (CRTEs), localizadas em cada Núcleo Regional de Educação. Não há como discordar da ex-secretária da Educação Yvelise Arco-Verde quando, em 2008, ela disse que “além de um importante instrumento de inclusão digital, a implantação de laboratórios de informática, com acesso à internet em todas as escolas estaduais, traz possibilidades inovadoras na sala de aula. O Paraná Digital é hoje o maior programa nacional de informatização escolar”.

Para concluir no tema educação, considero que a Copel Telecom tem papel central no desenvolvimento do Paraná, seja levando banda larga aos consumidores, seja prestando serviços mais baratos ao governo e ao desenvolvimento social. Destaco ainda o Projeto Internet sem Bullying, uma verdadeira parceria público-privada, que envolve sociedade e poder público sem abrir mão de recursos ou ativos do povo. Nesse programa,  realizado com o Instituto Abrace Programas Preventivos, se busca reduzir e prevenir a prática do cyberbullying, orientar famílias e promover o uso ético da internet. “Prevenir, orientar e ajudar as pessoas a identificarem esse problema, é uma forma que encontramos de tornar a internet um espaço que respeita a diversidade, as diferenças e a convivência das pessoas”, afirmou o ex-diretor da Copel Telecom Adir Hannouche à época do lançamento do projeto.

Com relação as cidades, tenho que destacar o papel estratégico que a Copel Telecom pode exercer no desenvolvimento do estado.  O Rede 399 – Internet para Todos corre riscos com a possível privatização. Esse programa tem como objetivo estimular a instalação de internet banda larga em todos os municípios do Paraná. Por meio de incentivos, como a isenção de impostos e financiamentos a juros baixos, o governo pretendia incentivar a modernização da gestão pública nas prefeituras e levar internet de qualidade à maior parte dos cidadãos. A Copel Telecom forneceu os acessos. Os provedores tiveram redução de 95% no ICMS, além de financiamento pelo Fomento Paraná, com juros abaixo de mercado. Já as prefeituras puderam utilizar recursos do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE).

Da nossa parte, parece pouco estratégico que o governador do Paraná considere avanço entregar à iniciativa privada a “joia da coroa”. O grupo Copel (Copel Telecom inclusa) teve geração de caixa (Ebitda) de R$ 3,143 bilhões. Teve um lucro líquido de R$ 1,444 bilhão. O lucro em 2018 foi 29% maior do que em 2017. As empresas do grupo Copel investiram R$ 2,569 bilhões em 2018. Valor praticamente igual ao investido em 2017 (R$ 2,508 bilhões). A receita operacional bruta de todas as empresas do grupo em 2018 foi de R$ 23,725 bilhões. Desta receita, a Copel Telecom foi responsável por R$ 584 milhões. Os investimentos na Copel Telecom em 2018 totalizaram R$ 309,4 milhões.

Riscos e retrocessos

Diante dessas informações, torna-se impossível entender as declarações do governador Ratinho Júnior. Esta suficientemente claro que a Copel Telecom tem função social e beneficia milhões de pessoas no Paraná inteiro. Também não é possível aceitar a declaração de que a Copel Telecom presta serviço somente para empresas privadas. Pelo contrário, a empresa tem papel central no desenvolvimento do estado.

Por outro lado, caso a Copel Telecom seja privatizada, a população será diretamente afetada. Quem ocupará o lugar da empresa no provimento de serviços às escolas e municípios? Impossível pensar na manutenção da qualidade dos serviços prestados.

Se pergunta também como ficam os serviços prestados pela Copel Telecom para a própria Copel? O provimento de serviços confiáveis é fundamental para a manutenção e operação de centros de operação do sistema elétrico. Uma falha e as operações remotas de milhares de chaves deixam de funcionar. O sistema elétrico fica sem gerência. A confiabilidade do serviço de comunicação também é peça chave para a automação e integração de inteligência na operação de redes de energia. Medição de consumo, bilhetagem e cobrança eletrônica, corte e religação remota de consumidores. Funções importantes na automação de redes (peças chave na implementação de smart grid) e para a redução de custos da Companhia de Distribuição e que podem estar sendo comprometidas no caso de venda da Copel Telecom.

Afirmar que pretende vender a Copel Telecom porque utiliza recursos que “estão faltando para outras áreas” também não parece correto. A Copel investiu R$ 2,569 bilhões em 2018. Destes, somente R$ 309,4 milhões foram para a Copel Telecom (cerca de 12% do total). Ademais, as empresas do Grupo Copel tem apresentado lucros crescentes, números de fazer inveja em muitas empresas privadas.

E então governador? Agora que os fatos estão postos, não cabe reavaliar suas declarações?

Sobre o autor

Leandro Grassmann

Leandro José Grassmann é engenheiro da Copel e vice-presidente do Senge-PR.

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