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Um ibireté chamado Panapaná

Novo livro do poeta, tradutor, ensaísta e professor Guilherme Gontijo Flores cavalga o leitor por uma amorosa descida ao inferno

Um ibireté chamado Panapaná
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Quiçá um livro feito de outros livros fosse previsível na trajetória poética de um premiado tradutor. O problema desse corolário é que há pouco de previsível em Panapaná (Ars et Vita) – e tampouco é nessa relação tradutória onde as dores (poucas) e delícias (muitas) que habitam essa obra fundam morada: o mais recente livro de Guilherme Gontijo Flores trauteia os leitores por uma tripla melopeia que começa no amor, se conjura no inferno, e se devolve ao futuro, trazendo consigo alguma esperança e profundas cicatrizes.

Qual um preâmbulo, convite ou epitáfio, ainda antes de iniciar a tríade capitular da obra, Gontijo canta seu “Ritornello (Renovo de anos)”, uma espécie de anunciação de seu regresso ao corpo do poema, à carne da palavra, porém agora: “as barbas de molho agrisalhadas / como nos outros tempos / afundado feito pedra”. O poeta clama para lhe puxem, lhe subam, lhe conclamem, “de pedra em carne, do fundo ao prato / deste amor recolhido entre limos: / estou aqui, estico as palmas por vocês”.  Seu colega, Caetano W. Galindo, traduziu esse gesto prévio no texto do posfácio: “mal passado dos quarenta anos”, se transforma “naquele velho de barbas de molho agrisalhadas, capaz de usar tudo que sabe e sempre soube de poesia para nos mostrar uma vez mais a realidade de que tentamos fugir, declarada ou tacitamente”.

A espinha espinhosa do livro se inicia, de fato, com o conjunto de 21 poemas e um “Envoi” do capítulo “Muxima (Travellings)”. Muxima, aprendemos com Gontijo, “é palavra em quimbundo para designar ‘coração’”. Composto formalmente por versos longos, sua mancha gráfica lembra a prosa-poética, embora o efeito prosaico se dilua no lirismo evocado, mais pela sonoridade do que pela imagem, dos versos. São poemas de amor e de afeto, crivados pelo tempo, pelos desencontros e desenganos: toda essa crueldade, contudo, é aqui trabalhada com doçura. O ipê, essa palavra-estalo que suspira na boca, aflora nesse capítulo como árvore e emblema, e será semeado outras vezes ao longo da obra, nos trechos mais ensolarados. “Envoi”, último poema do capítulo, é o “rebrasileiramento” do “célebre poema tupi da cobra”, a princípio mencionado por Montaigne “num de seus Ensaios”, cuja versão em tupi antigo foi também vertida por Gontijo, e Alexandre Nodari. O resultado é de uma delicadeza ancestral. 

O segundo capítulo, “Monami (Partitas)”, é a descida de Gontijo ao inferno, sua catábase. O poeta nos conta que “Monami é palavra em quimbundo para designar ‘minha criança’, ‘meu filho’”: mas é a todos nós, filhos desse planeta, que Partitas se destina.  Formalmente diverso – com versos curtos e longos, muitos brancos, silêncios e distensões – os poemas ressoam como a elegia do desastre, os sons se encaixando qual partitura – Gontijo, esse regente ousado, entre a cantiga popular e os prolixos asclepiadeus e caliambos. Ora juntura e ora nó de poema, os sons se agarram uns nos outros, sugerindo e ecoando primeiro o que vocalizam, depois o que comunicam e, ao fim, como um coro, ouvimos o grito da distopia climática, o fim dos tempos feito à nossa feição, do nosso jeitinho. E a linguagem, a linha de frente da catástrofe, é aqui mobilizada num torvelinho enigmático e delicioso.

Chegamos, finalmente, em “Araguyje ñemokandire (Primavera, ainda)”: “expressão do mbyá-guarani para designar a virada do ano, a partir da noção de madureza e também da prática ritual dos cemitérios das ossadas. É portanto uma espécie de primavera em sentido físico e transcendental.” Eu traduziria como redenção. Existe vida, resiste mundo, persiste o amor após a devastação. Os seis poemas finais são, paradoxalmente, um convite ao recomeço, uma celebração dos encontros e miúdas belezas, embora a hecatombe ainda espreite.

Caetano W. Galindo considera este livro uma “constelação”, a “poesia possível na poeira do antropoceno”: “uma canção de amor”. Por isso, para ele, Panapaná já é “uma obra definitiva. Uma marca. Momento histórico de mudança.” Não é o primeiro livro que Gontijo publica pela Ars et Vita: Entre costas duplicadas desce um rio, em parceria com François Andes, foi escrito durante residência do Festival Artes Vertentes. Depois ainda vieram Potlatch (2021, todavia), Ranho e sanha (2024, Círculo de poemas/Fósforo) e outros livros de poemas, romances, ensaios, traduções etc.

Não estamos diante de um livro de leitura fácil e apreensão horizontal. Seus versos são arredios à linearidade, porosos a outros textos, autores, ritmos, métricas, vozes. Escapam, mesmo quando são objetivos: é preciso estar atento, como a qualquer grande livro que convida a horizontes. Na topografia de planaltos da criação poética de Guilherme Gontijo, Panapaná certamente é um ibitireté: uma serra por excelência.

Serviço
Lançamento de Panapaná
Arte e Letra (Rua Des. Motta, 2.011)
Sexta, dia 3, 18h30

Jr. Bellé

Jr. Bellé

Jr. Bellé é poeta do sudoeste, doutorando em Estudos Literários. Foi residente da Yaddo (NY), e venceu os prêmios Flipoços, Variações e Cidade de Belo Horizonte. É gremista, anarquista e vegetariano.

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