Para Nicole Lima
Nos textos da época de escola, eu escrevia sempre a partir de um título dado pela profe. Hoje em dia eu deixo o “nome da redação” por último. Seja aqui no Plural ou nos contos e romances que cometi, não lembro de ter começado já com um título pronto. Escrevo e depois fico me batendo para achar um rótulo capaz de carimbar dignamente o texto. É gostoso, principalmente porque dá a sensação de que o pior já passou, o esforço de fazer o bolo se foi e resta só colocar a cerejinha e servir, esperando que esteja gostoso. Mas fácil não é, vide minha coluna passada, que eu batizei de “Pareidolia do ego”, me arrependi, desbatizei, rebatizei de “Uma canção para mim” e logo em seguida ouvi: mas por que você mudou?
Na era adulta,desconfio que esse texto aqui seja o primeiro que faço experimentando oprocesso pelo seu contrário: estou convicto do título, agora me bato para falaralguma coisa que preste sobre ele. A cerejinha está ali, flutuando, sem boloembaixo.
Lembrei da vozdo Milton Nascimento cantando “Certas canções que ouço / cabem tão dentro demim / que perguntar carece / como não fui eu que fiz?”
Pode ser que “umachado é um machado” tenha a ver com isso. Muitas vezes sentimos “uma coisa,sabe?”, e essa coisa não sabemos nomear, só chamamos de coisa mesmo, reviramosum pouco os olhos, fazemos um movimento circular com os indicadores perto dacabeça e paramos por aí, lançando nesse “sabe?” uma esperança de que aquele quenos ouve saiba mesmo a que nos referimos quando dizemos “uma coisa”. O outro, pelaamizade, faz um sim amarelado e mal convencido, que aceitamos aliviados, semtempo de perceber que ele não faz ideia alguma de que coisa se trate, ou talvezempreste as coisas dele para tapar o vácuo.

As grandesexperiências que fazemos ao longo da vida, acho eu, passam pelo encontro comalgo que consiga vestir com palavras a nossa coisa misteriosa. As palavras nãoconseguem ser o real da vida, o real da existência, mas o vestem, contornamesse real e dão a ele um corpo vestido, simbólico e imaginário. O real é um ilegívelinvisível que só toma alguma forma quando vestido. Tirou a roupa, vira almapenada, evapora-se, vaza. Vira, no máximo, uma coisa, sabe?
É conhecido nomeio psicanalítico o caso de uma paciente atendida por Jacques Lacan que viviaatormentada pelo terror da guerra, com sonhos recorrentes e sempre no mesmohorário em que a Gestapo, polícia nazista, batia nas casas das pessoas atrás dejudeus. Lacan aproximou-se dela, tocou seu rosto e disse geste à peau(tipo um “gesto na pele”). Gestapo e geste à peau têm, em francês, amesma pronúncia (“gestapô”). Aquele significante “Gestapo”, tão fixo etraumático, de que a paciente não conseguia se desfazer por meio do luto, ganhavaentão uma chance de se abrir, de respirar outro sentido, arejando uma estruturaque estava fechada.
Estouconseguindo dar forma ao meu “um achado é um machado”? Tento mais um pouco:
Jáfalei aqui que sou ruim de memória e passo vergonha quando digo que li umlivro, assisti a um filme, mas quase nunca me lembro dos enredos, por exemplo. Contudo,há um gesto que sempre me vem à lembrança em momentos de leitura: o dasuspensão admirativa. A própria expressão não é minha, li faz muito tempo emalgum lugar. E o que ela indica? Indica um buraco no terreno liso da leitura.Ou: indica a abertura de uma fenda na estrada pavimentada de uma narrativa, deum poema. Estamos seguindo o curso de uma história – isso vale também para ocotidiano, para a rotina da vida – e sem muito aviso o chão se abre e dali saialgo que nos faz parar um tempo, pausar, interromper o tráfego, que nos deixaintransitivos para aproveitar o mergulho e não a superfície.
Suspensão admirativa:parar o curso, a caminhada, para se deter e pensar coisas do tipo puta quepariu, que massa.
É isso, olhacomo um achado, que eu posso chamar de Grande Encontro (com uma narrativa, umpoema, um quadro, uma pessoa), no meio de tantos pequenos encontros, foi capazde vestir e revestir o real, envolvendo-o sem, no entanto, sê-lo. Ele pode emprestar,enfim, sentido para aquela “uma coisa, sabe?”, para aquele “noooossa, estou sempalavras”, ou criar fissuras no tecido imaginário, que vê verdades onde só háfantasma, ou ainda ressimbolizar aquilo que se dava por indiscutível e,portanto, por questão fechada – como dizem os italianos, punto ebasta. O achado é atiçador do desejo e, para o desejo, não há punto,nem há basta.
(Espera, minhavoz contra-argumentadora está me avisando alguma coisa aqui: ela diz que estousendo incoerente, pois são justamente esses encontros que nos deixam sempalavras, que deixam nu o real). É que o Grande Encontro – um achado! – seduzmais do que conduz. E seduzir é desviar. A vida seguia por um caminho e o achadoabre uma fenda que nos mostra possibilidades de mergulho e outros caminhospossíveis, derivados, uma deriva esperando por passos que, do contrário,seguiriam pelo terreno da vida ordinária e previsível. Podemos sim ficar sempalavras no momento de um Grande Encontro, mas haverá retomada, agora em novochão, e lá vamos nós fazendo outros laços com a existência.

No nossobalaio diário de perdidos e achados, o encontro de verdade é sempre um achado.E um achado é um machado não porque tolhe e corta o que viceja, mas porque abrefendas que permitem que nosso novo chão frutifique diferente. O machado aquinão destrói, abre sulcos de semeadura em terra batida – a rigor, então, umachado é um arado, só que aí eu perco o trocadilho.
Vivemos bemmais de perdidos do que de achados, bem mais de coisas que logo descartamos doque de machados capazes de abrir um poro por onde se possa respirar e fazerconfluir a beleza do outro. As coisas mais raras frequentemente se tornamtambém as mais preciosas. Os Grandes Encontros são assim. Não se trata de umnarcisismo patológico, em que me afogo e morro. Mas de encontrar no outro umachave outra, caixa de ressonância que me faz vibrar em nova frequência.
Né, não?