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Comecei a dar aulas aos 18 anos. Meus alunos, em um supletivo de bairro, eram todos mais velhos do que eu. Senti ali, pela primeira vez, a urgência do conhecimento. Experiência eu não tinha, história de vida também não. Aquelas pessoas cansadas e sonolentas sentavam nas carteiras estreitas e olhavam para mim à espera de algo. Não fazia sentido aquelas horas sem dormir e sem jantar se não houvesse uma compensação à altura. Eu precisava, diariamente, refazer a conexão com eles, apresentando algo que eles não viam no seu cotidiano, algo que nunca lhes passou pela cabeça, algo que despertasse-os da anestésica rotina dos seus afazeres mal remunerados. E eu estudava e estudava para sempre ter uma história suculenta para eles. Como o artesão que capricha na peça que será admirada; como o agricultor que revolve e revolve a terra para dela tirar o fruto de encher os olhos. Eu aprendia e eu ensinava. E assim eu aprendia o que devia ensinar. Eu era ponte, eu era isca, eu era o palhaço e o domador, o atirador de facas, o malabarista. E muitas vezes eles saiam das aulas com os olhos vermelhos de sono, cansaço, um breve sorriso, um balançar de cabeça. Eu havia chegado em algum lugar deles. Eu estava ali. Eu sei.
Chegar em algum lugar deles era fácil de perceber. Lembro-me de faze-los descolar as costas das carteiras e quererem, com o olhar, aproximarem-se de mim. Essa era a senha: quanto menos interessante é o que você fala, mais o outro quer se distanciar. Mas quando há sumo e cheiro de mistério, a vontade é de morder, é de beijar. E nesses dias eu saia da escola sabendo porque aquela seria a minha profissão para sempre. Sentia-me gente, humano. E aprendia que queria aprender mais e mais. Para repetir aquele momento. Como uma droga, como um passe no terreiro, como uma benção alcançada.
Souprofessor há 37 anos. E ainda hoje, vez por outra, consigo fazer essa mágica,fruto de estudar e aprender e estudar eestudar. Sei que não sou eu quem faz a mágica, é o conhecimento que carrego comoum vaso Ming. Não há tecnologia ou outro recurso didático que substitua a carnefarta de uma história contada em todos os seus detalhes, uma explicação longa econsistente, uma demonstração calma e clara. O ser humano, mesmo acossado pelagrosseria do presente, pela força que desfaz as coisas belas, continuaencantado por uma história cheia de conhecimentos. Fazer sentido, perceber-seentre as coisas que até pouco tempo eram estranhas e que agora acenam comovelhas amigas, realizar algo que era só sombra e medo cria laços que jamaisserão rompidos. Cada vez que consigo isso, realizo-me como professor. Como amente cartesiana que se fascina por conhecer-se, é no olhar de compreensão doaluno que entendo o que faço.
Serprofessor é carregar esse novelo de confiançae responsabilidade. Como uma Ariadne, temos a chance de ajudar as crianças ejovens a saírem do labirinto, matarem o Minotauro da ignorância que aniquilacom seu medo violento. Ser professor é ser um porta voz do conhecimento deoutros seres humanos, uma ponte queconecta os saberes em uma corrente que mantém os monstros dogmáticos àdistância.
Sempre vivemos em guerra, sempre restamos no front. Assumir essa tarefa de ser professor é saber que não haverá o momento do descanso pra valer e que sempre o conhecimento precisará ser cultivado e ser entregue em outras mãos. Como uma espécie de herói melancólico, a vida pessoal de um professor não tem a importância de seu trabalho e ele está sempre à espera de um chamado. E o professor é assim porque quer ser assim. Cansado mas sem preguiça. Pesaroso mas nunca desesperançado. Porque o labirinto precisa ser percorrido e o Minotauro precisa ser morto muitas vezes, ou as crianças e jovens viverão para servir de alimento para os tiranos insaciáveis.