O Plural lançou um simulador interativo que calcula, família por família, o efeito financeiro direto de ligar ou desligar programas e tributos do Orçamento federal brasileiro de 2026. O leitor informa a renda mensal da família, marca o que gostaria de cortar ou manter — do Bolsa Família aos juros da dívida pública, do IRPF ao imposto sobre consumo — e vê na hora quanto a sua faixa de renda ganharia ou perderia por mês. Os valores partem dos dados da Lei Orçamentária Anual, publicados pela Controladoria-Geral da União, e da arrecadação federal divulgada pela Receita Federal.
A ferramenta está disponível no site do Plural, com código e dados abertos: qualquer leitor pode auditar os pressupostos ou propor ajustes. A base é a execução orçamentária da União de 2026 e as séries de arrecadação por tributo, cruzadas com coeficientes de incidência extraídos de estudos do IPEA, do Banco Mundial e do World Inequality Database, projeto que reúne pesquisadores de referência em desigualdade de renda.
Como funciona
O simulador classifica os brasileiros em dez faixas, da pobreza extrema (famílias com até R$ 1.500 por mês) aos ultra-ricos (acima de R$ 1,5 milhão mensais), com rótulos coloquiais como "classe média", "ricos" e "milionários". Para distribuir cada rubrica entre as fatias, a ferramenta aplica coeficientes de incidência — quanto cada faixa paga em determinado tributo, quanto recebe em determinada despesa — calibrados pelas pesquisas citadas.
Há ainda a opção de incluir o custo de reposição privada: se o SUS fosse desligado, por exemplo, o simulador soma quanto cada família teria que gastar em plano de saúde para repor o serviço — algo entre três e quatro vezes o custo per capita do atendimento público, segundo a literatura. O mesmo vale para outras rubricas que, uma vez cortadas, forçariam o pagamento particular do serviço.
O que os resultados expõem
Os números revelam desigualdades que costumam ficar escondidas no debate fiscal. Cortar o Bolsa Família reduz em cerca de R$ 650 por mês a renda das famílias em pobreza extrema, equivalente a mais de 70% do que elas ganham hoje, e não altera nada da vida de quem está do meio da pirâmide para cima. Já desligar o pagamento de juros da dívida pública faz a classe média perder menos de R$ 100 mensais, mas tira cerca de R$ 350 mil por mês da família ultra-rica típica — quase um quarto da sua renda.
O Imposto de Renda, apesar de progressivo no desenho, bate mais pesado nos milionários (algo como 10% da renda) do que nos ultra-ricos (menos de 3%), resultado da isenção de dividendos e do teto da alíquota, que permite que quem vive de capital pague proporcionalmente menos do que quem vive de salário alto.
Em termos práticos
A ferramenta é uma simplificação deliberada: trabalha com médias por faixa de renda, não considera efeitos de segunda ordem na economia — como a queda de consumo que vem com o corte de benefícios — e assume que o governo gasta de forma eficiente. Os números devem ser lidos como ordens de grandeza, não como previsões exatas.
Ainda assim, servem como contraponto a um debate fiscal que costuma apresentar os cortes orçamentários como escolhas técnicas e neutras, sem dizer de qual bolso o dinheiro sai e para qual outro deixa de ir.
Como apuramos esta reportagem
A matéria descreve o simulador publicado pelo Plural em outubro de 2026. As rubricas de despesa são extraídas da execução da Lei Orçamentária Anual de 2026 divulgada pela Controladoria-Geral da União, e as de receita, dos dados abertos de arrecadação federal da Receita Federal. Os coeficientes de incidência por faixa de renda vêm de pesquisas do IPEA, do Banco Mundial e do World Inequality Database. O custo de reposição privada do SUS adota a razão de três a quatro vezes o custo per capita público, apontada pela literatura. A ferramenta tem código e dados abertos no site do Plural; qualquer leitor pode auditar ou propor ajustes.
Perguntas rápidas
O que o simulador do Plural calcula? O efeito financeiro mensal, por faixa de renda, de ligar ou desligar programas e tributos do Orçamento federal de 2026. O leitor informa a renda da família e marca o que cortaria ou manteria; a ferramenta mostra quanto a família ganharia ou perderia por mês.
De onde vêm os dados? Da Lei Orçamentária Anual de 2026 publicada pela Controladoria-Geral da União e da arrecadação federal divulgada pela Receita Federal. Os coeficientes de incidência por faixa de renda saem de pesquisas do IPEA, do Banco Mundial e do World Inequality Database.
Como as famílias são classificadas? Em dez faixas, da pobreza extrema (até R$ 1.500 por mês) aos ultra-ricos (acima de R$ 1,5 milhão mensais), com rótulos coloquiais como "classe média", "ricos" e "milionários".
Qual a limitação da estimativa? Trabalha com médias por faixa, não considera efeitos de segunda ordem na economia e assume gasto público eficiente. Os valores são ordens de grandeza, não previsões exatas.