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“Serotonina” é a lengalenga de um homem branco de meia-idade

Livro de Michel Houellebecq, figura famosa da literatura francesa atual, é narrado por um agrônomo que se arrasta pela vida sem propósito algum

Por Admin
“Serotonina” é a lengalenga de um homem branco de meia-idade
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Ler ”Serotonina”, de Michel Houellebecq, éum pouco como assistir a “Tubarão 3”, “Rambo 4” ou “Rocky 5”: tudo ali soafamiliar, mas de um jeito meio cansado, sem o vigor das histórias anteriores.

Houellebecq é tido como o escritor maisfamoso da França, talvez pelas polêmicas em que se meteu. Digamos que ele não éconhecido por sua compaixão e, num exemplo que seus detratores gostam de usar,o homem foi processado pela própria mãe (porque, em resumo, ela queria grana eele não estava nem aí para ela).

Pense num assunto espinhoso e você vai encontrá-lonum livro de Houellebecq. O islamismo na Europa? “Submissão”. Turismo sexual?“Plataforma”. Sexo como um sentido para a vida? “Partículas elementares”. “Sexocomo declínio da civilização ocidental? “A possibilidade de uma ilha”. Sexo,como se vê, é uma constante.

Ou era uma constante. Em “Serotonina”,falta sexo e, quando ele acontece, é um sexo ruim. Tão ruim quanto todo o restona vida modorrenta do protagonista narrador, de nome Florent-Claude Labrouste. Masvamos chamá-lo de Chuchu. Por ser assim, terrivelmente insosso.

O fiapo de enredo fala desse Chuchu, umhomem de meia-idade sozinho

no mundo – sem família, sem filhos, sempassado – às voltas com uma amante japonesa muito mais jovem e indiferente.

Chuchu se arrasta pelos dias sem ter muitoo que fazer no emprego (ele é agrônomo e trabalho para o governo), estádecidido a terminar com a japonesa e consome cada vez mais remédios para lidarcom uma ansiedade de origem difusa (um dos efeitos colaterais da medicaçãodestrói, justamente, sua vida sexual).

Nós o acompanhamos numa viagem de férias(turismo é um tema que interessa a Houellebecq). A certa altura, remoendo opassado – e o passado será determinante na história –, ele decide rever umamigo que, como ele, também estudou agronomia. Mas que, diferente dele, optoupor trabalhar como agricultor nas terras de sua família. Uma decisão quetransformou esse amigo, duas décadas depois, em um homem amargo e desesperado.

Chuchu tem algum dinheiro e tem tempo. Comoé um sujeito sem ambições e sem interesses na vida, ele muito rápido se perdeem devaneios sobre o que poderia ter sido e não foi, sobre as poucas (duas)mulheres que chegou a amar e pelas quais foi amado.

Numa reviravolta estranha, o último terço dolivro se concentra nos percalços dos agricultores franceses, endividados eencurralados pelos acordos comerciais do bloco europeu (daí a amargura doamigo).

O maior problema de “Serotonina” não é ofato de retomar temas familiares na obra de Houellebecq. O problema é fazerisso sem os insights que elecostumava ter sobre o ser humano, a vida e o mundo.

Tire os insightsde Houellebecq e sobra só a ladainha de um homem branco de meia-idade chatopacas.

Para não ser injusto, o livro tem uma ououtra ideia memorável. Como quando ele fala sobre as diferenças na forma comque homens e mulheres encaram o amor. O trecho é muito bom e vale uma citaçãomais longa (ela começa na página 50, com tradução de Ari Roitman e PaulinaWacht):

“O amor para a mulher é uma potência, uma potência geradora, tectônica, quando se manifesta na mulher o amor é um dos fenômenos naturais mais imponentes que a natureza pode nos oferecer, e tem que ser visto com receio, é uma potência criativa do mesmo tipo que um terremoto ou um desastre climático, a origem de outro ecossistema, outro entorno, outro universo, a mulher com seu amor cria um mundo novo, dois pequenos seres isolados estão chapinhando numa existência incerta e de repente a mulher cria as condições de existência de um casal, uma entidade social, sentimental e genética nova cuja vocação é efetivamente eliminar qualquer traço dos dois indivíduos preexistentes, (…) a mulher sempre se entrega por completo a essa missão, mergulha nela, se dedica de corpo e alma, como se diz, e aliás não estabelece mesmo diferença entre as duas coisas, para ela essa diferença entre corpo e alma não passa de uma chicana masculina irrelevante. Ela sacrificaria sua vida sem pestanejar por essa missão que na verdade não é uma missão, é a pura manifestação de um instinto vital.

“O homem, a princípio, é mais reservado, ele admira e respeita esse descontrole emocional sem compreendê-lo totalmente, acha um pouco estranho complicar tanto as coisas. (…) Pouco a pouco, o imenso prazer dado pela mulher modifica o homem, este lhe dá reconhecimento e admiração, sua visão de mundo é transformada, e de forma imprevista para si mesmo ele tem acesso à dimensão kantiana do respeito, pouco a pouco o homem passa a ver o mundo de outra maneira, a vida sem uma mulher (no caso, justo sem esta mulher que lhe dá tanto prazer) se torna verdadeiramente impossível, vira uma caricatura de vida; é nesse momento que ele começa a amar de verdade. O amor no homem, então, é um fim, uma realização, e não, como na mulher, um início, um nascimento; é isso que devemos considerar”.

Esse trecho é bom e representa uma exceção.Em geral, “Serotonina” é deprimente de um jeito ruim. Enquanto os outros livrosde Houellebecq, na falta de uma palavra melhor, eram deprimentes-bons.

Serviço

“Serotonina”, de Michel Houellebecq.Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Alfaguara, 240 páginas, R$ 59,90.

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Tags: Paraná

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