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Protetores e especialistas alertam para avanço da esporotricose no PR

Notificações cresceram 335,9% em animais e 530,2% em humanos entre 2022 e 2025; dados preliminares de 2026 mantêm a tendência de alta

Protetores e especialistas alertam para avanço da esporotricose no PR
Causada por fungos do gênero Sporothrix, a esporotricose é uma zoonose que pode atingir gatos e ser transmitida a humanos. Foto: Giovani Sella/Plural
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A morte de um gato por esporotricose mudou a relação de Alice Marques, 31 anos, com a proteção animal. Em 2021, quando um de seus animais contraiu a doença, ela pouco sabia sobre a infecção os cuidados necessários durante o tratamento. Passado o luto pessoal, começou a pesquisar sobre a doença para tentar ajudar outros animais com resgates e tutores com informações pelas redes sociais no "SOS Vida Felina".

Uma preocupação semelhante levou Arthur Leal, 37 anos, a concentrar seu trabalho na doença. Protetor desde 2018, ele criou, em 2023, o projeto "CWB Contra a Esporotricose". A iniciativa surgiu diante da dificuldade de encontrar acolhimento para gatos infectados e encaminhados à eutanásia, apesar da possibilidade de tratamento.

As experiências compartilhadas por Alice e Arthur ajudam a dimensionar um problema que avançou no Paraná nos últimos anos. Desde 2022, quando a Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (SESA) passou a monitorar as ocorrências, as notificações cresceram de forma acentuada em gatos e humanos.

Entre 2022 e 2025, período com amostras consolidadas pela SESA, as notificações em gatos no estado passaram de 1.412 para 6.155, uma alta de 335,9%. No mesmo intervalo, os registros em humanos subiram de 215 para 1.355, um crescimento de 530,2%.

Dados preliminares de 2026 reforçam a tendência de alta. Entre janeiro e junho, foram 3.586 notificações em animais e 710 em humanos. Nos dois grupos, os números do primeiro semestre já passam da metade do total registrado no ano anterior.

Curitiba concentra o maior número absoluto de notificações. Na capital, os registros em animais passaram de 386, em 2022, para 1.491, em 2025. Entre os residentes, as notificações em humanos subiram de 47 para 432 no mesmo período.

Na Região Metropolitana, Colombo e Piraquara apresentam movimentos distintos. Em Colombo, as notificações em animais passaram de 67 para 639 no recorde consolidado, enquanto os registros humanos foram 64 tanto no início quanto no fim do período. Já em Piraquara, as notificações em animais passaram de 181 para 424, e os registros humanos cresceram de quatro para 100.

Sobre a esporotricose

Causada por fungos do gênero Sporothrix, a esporotricose é uma zoonose que pode atingir gatos e ser transmitida a humanos. Entre os felinos, a transmissão ocorre principalmente por arranhões, mordidas ou contato direto com feridas de animais infectados. Em humanos, a doença costuma se manifestar por lesões na pele e feridas de difícil cicatrização, podendo evoluir para formas mais graves quando não há diagnóstico e tratamento precoces.

Segundo Amanda Louise, médica-veterinária com ênfase em medicina felina, o fungo pode ser encontrado no ambiente, especialmente no solo e em troncos de árvores. Ao entrar em contato com esses locais, o gato pode se expor aos esporos. Uma vez infectado, pode transmitir a doença a outros animais, principalmente por arranhões e mordidas.

Por isso, reduzir o acesso dos gatos à rua é uma das principais medidas para interromper a cadeia de transmissão. O tratamento, no entanto, varia de acordo com a extensão das lesões e as condições clínicas do animal.

Nos casos mais simples, com uma única lesão e sem disseminação da doença, o tratamento pode durar ao menos três meses e é feito principalmente com itraconazol, antifúngico administrado por via oral.

Quadros mais complexos, com múltiplas lesões ou comprometimento do nariz e de mucosas, podem exigir associação com outros medicamentos e cuidados adicionais. Nesses casos, o tratamento pode se prolongar por seis meses ou chegar a um ano.

A duração e a necessidade de acompanhamento contínuo ajudam a explicar por que a situação se torna mais difícil quando o gato não tem tutor. Além da medicação diária, o animal pode precisar de isolamento, exames e acompanhamento veterinário durante meses.

Amanda afirma que, na rotina clínica com tutores que assumem esses cuidados, nunca precisou indicar eutanásia exclusivamente em razão da esporotricose. O cenário muda, segundo ela, quando um animal resgatado chega em estado avançado e não há quem garanta a continuidade do tratamento. Nesses casos, a avaliação também precisa considerar o sofrimento do animal e o risco de que ele volte às ruas e continue transmitindo a doença.

Outras fontes ouvidas pela reportagem apontam que as dificuldades de controle tendem a se agravar em contextos de maior vulnerabilidade social, nos quais o acesso a atendimento veterinário, castração e condições para manter um animal isolado e em tratamento prolongado pode ser mais limitado.

Atendimentos e políticas públicas

A dimensão dos casos aparece também na rotina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Segundo Fabiana Monti, professora do curso de Medicina Veterinária, o serviço mantido em parceria com a Prefeitura de Curitiba realiza entre 120 e 140 atendimentos por mês a animais com esporotricose, considerando casos novos e retornos.

A professora acompanha os atendimentos à doença na instituição desde 2016 e, a partir dessa experiência, descreve a presença persistente da esporotricose como uma endemia sem sinal de redução.

Fabiana afirma que o controle da doença passa não apenas pela restrição do acesso dos gatos à rua, mas também por guarda responsável, castração, informação e ampliação do acesso aos serviços veterinários.

O diagnóstico correto é outro desafio. A professora relata que a equipe já recebeu gatos com carcinoma, um tipo de câncer que também pode provocar úlceras, que haviam sido tratados durante meses com itraconazol. Segundo ela, confundir outras doenças com a esporotricose prejudica o cuidado com o animal e direciona medicamentos a pacientes que não precisam deles.

Mesmo quando o diagnóstico é correto, a disponibilidade do medicamento resolve apenas uma parte do problema. Fabiana explica que alguns animais precisam de internação e que, nos casos atendidos pela equipe, pode ser necessária a associação entre itraconazol e iodeto de potássio.

Enquanto o itraconazol é disponibilizado pelo poder público, outros custos envolvidos no tratamento podem representar uma barreira para tutores e protetores. Internação, acompanhamento veterinário e manutenção do animal em isolamento podem se prolongar durante meses.

De acordo com a Nota Técnica Animal nº 10/2026 da SESA, o tratamento da esporotricose em gatos deve seguir evidências científicas e a avaliação individual do médico-veterinário. O Estado fornece gratuitamente itraconazol para animais suspeitos ou confirmados, com retirada mensal.

Debates sobre a eutanásia

A mesma norma estabelece que a eutanásia deve ser indicada e realizada por médico-veterinário após avaliação criteriosa do caso e em conformidade com as normas do Conselho Federal de Medicina Veterinária. Para fins de vigilância em saúde, o documento também considera as normas sanitárias relacionadas a animais que representem risco à saúde pública.

É justamente a distância entre a disponibilidade do medicamento e as condições necessárias para sustentar o tratamento que aparece na experiência dos protetores. Para Alice, fornecer o antifúngico não resolve o problema quando não há quem possa acolher o gato e assumir meses de cuidados. Arthur também aponta que a duração do tratamento, a necessidade de isolamento e o risco de transmissão dificultam encontrar pessoas dispostas a se responsabilizar pelos animais.

Sem lares temporários disponíveis, Alice precisa recorrer a hospedagens ou internações. Ela cita locais que cobram cerca de R$ 800 por mês e uma clínica em que a internação chega a R$ 1.500 mensais. Os valores se acumulam ao longo do tratamento e levam os protetores a organizar campanhas de arrecadação. “Mas isso é com o nosso bolso”, afirma.

A falta de estrutura também ajuda a colocar a eutanásia no centro da discussão. Fabiana relata que a equipe da PUCPR já recebeu gatos encaminhados com indicação para o procedimento que responderam ao tratamento, inclusive animais em quadros graves. “Alguns colegas às vezes indicam eutanásia sem necessidade. Isso é fato”, afirma.

Segundo a professora, a maioria dos animais responde à terapia, embora existam casos refratários e situações em que a doença retorna. Para ela, por isso, a ausência de um tutor ou de recursos para sustentar o tratamento também exige discutir até onde vai a responsabilidade do poder público. “Será que o Estado não pode ser responsável, não pode ser responsabilizado?”, questiona.

Fabiana defende a criação de condições que permitam internação e tratamento nesses casos. Segundo ela, a equipe da PUCPR já conseguiu tratar gatos sem perspectiva inicial de acolhimento e, depois da recuperação, encontrar tutores para os animais, evitando a eutanásia.

Eric Rodrigues

Eric Rodrigues

Repórter, fotojornalista e documentarista. Mestrando em comunicação na UFPR. Participante do 15º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Autor de "Comadre São".

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Assuntos: Paraná saúde

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