Em breve, os paranaenses escolherão o novo governador do Estado, seus representantes no Congresso Nacional e os deputados que integrarão a Assembleia Legislativa. Enquanto os partidos definem candidaturas e diferentes grupos setoriais procuram incorporar seus interesses aos programas eleitorais, uma pauta decisiva para o futuro do Paraná ainda permanece distante do centro do debate político: a proteção das áreas naturais como parte estratégica do desenvolvimento econômico, da segurança da população e da capacidade de adaptação do Estado às mudanças climáticas.
É legítimo que setores organizados apresentem suas demandas aos candidatos. O problema surge quando compromissos eleitorais são assumidos sem uma análise mais abrangente de seus efeitos sobre o conjunto da sociedade. A formulação de políticas públicas não pode ficar subordinada exclusivamente a interesses imediatos. Precisa considerar as transformações globais que já afetam o território paranaense e antecipar riscos capazes de comprometer cidades, atividades econômicas e a qualidade de vida da população.
Entre essas transformações está o agravamento dos eventos climáticos extremos. Enchentes, estiagens, ondas de calor, deslizamentos e outros desequilíbrios ambientais deixaram de representar ameaças distantes. Seus impactos já recaem sobre a agricultura, a infraestrutura urbana, o abastecimento de água, a geração de energia, a saúde pública e inúmeras cadeias produtivas. As comprovações desses prejuízos não são recentes, mas se tornam cada vez mais evidentes e expressivas.
Diante desse cenário, duas frentes precisam ser incorporadas de maneira definitiva à gestão pública. A primeira é o fortalecimento da capacidade de prevenção e resposta aos desastres, com investimentos em Defesa Civil, monitoramento, informação, planejamento territorial, infraestrutura e logística. A segunda, igualmente importante, é a proteção da infraestrutura natural ainda existente no Paraná.
Florestas, manguezais, restingas, campos naturais, rios, nascentes e áreas úmidas não são espaços vazios ou improdutivos. Constituem uma infraestrutura viva e permanente, capaz de armazenar carbono, regular o ciclo da água, reduzir a erosão, amenizar temperaturas, proteger encostas, favorecer a infiltração da chuva e ampliar a resiliência dos territórios diante de eventos extremos.
Durante muito tempo, a defesa das áreas naturais e de sua biodiversidade foi indevidamente apresentada como uma preocupação de grupos radicais ou contrários ao desenvolvimento econômico e social. Essa narrativa está ultrapassada. A conservação da natureza não se opõe ao desenvolvimento: é uma das condições para que ele possa se sustentar no longo prazo.
Os remanescentes naturais garantem os chamados serviços ecossistêmicos, dos quais dependem tanto as populações urbanas quanto as atividades rurais. Proteger essas áreas, restaurar regiões que apresentam déficit de vegetação natural e valorizar aqueles que contribuem para sua conservação são medidas essenciais para reduzir vulnerabilidades ambientais, sociais e econômicas.
Por isso, o Paraná precisa superar a visão de que áreas naturais constituem obstáculos à produção. Essa interpretação equivocada ainda sustenta iniciativas de enfraquecimento da legislação ambiental e decisões públicas que desconsideram os custos econômicos da degradação.
A mudança necessária segue na direção oposta: incorporar a conservação das áreas naturais às políticas de desenvolvimento, ao planejamento urbano, às estratégias de adaptação climática e à gestão dos diferentes setores produtivos. Não se trata de uma escolha ideológica, mas de uma questão de segurança, competitividade e sobrevivência.
Essa transformação exige que a sociedade reconheça a natureza como provedora de benefícios concretos. As áreas naturais protegem pessoas, propriedades, lavouras, empreendimentos, sistemas de abastecimento e infraestruturas públicas. Portanto, precisam ser consideradas ativos essenciais ao funcionamento da economia e à manutenção da qualidade de vida.
A incorporação da conservação às estratégias de desenvolvimento exige a participação de todos os setores econômicos, especialmente daqueles cuja continuidade depende diretamente da estabilidade do clima, da disponibilidade de água, da fertilidade dos solos e da ocupação adequada do território. Construir essa agenda não pressupõe confronto, mas responsabilidade compartilhada e capacidade de adaptação.
Já existem instrumentos capazes de conciliar desenvolvimento econômico, segurança jurídica e conservação, reconhecendo e valorizando proprietários, empresas e comunidades que mantêm áreas naturais protegidas e prestam serviços relevantes a toda a sociedade.
Esse é o princípio da “produção de natureza”: reconhecer que a manutenção dos processos naturais gera benefícios sociais e econômicos mensuráveis. Apesar de sua importância, esses serviços ainda não são adequadamente contabilizados nem remunerados.
Instrumentos como o pagamento por serviços ambientais, os incentivos econômicos à conservação, a restauração de áreas degradadas, o apoio às reservas particulares e a incorporação da infraestrutura natural ao planejamento público precisam ganhar escala e continuidade. Mais do que projetos pontuais, devem constituir políticas permanentes de Estado.
A proteção das áreas naturais também precisa ser compreendida dentro do conceito de Saúde Única, que reconhece a interdependência entre a saúde humana, a saúde dos animais e a integridade dos ecossistemas. Ambientes equilibrados contribuem para a segurança hídrica e alimentar, reduzem riscos sanitários e fortalecem a capacidade de adaptação das comunidades e dos negócios.
Outro obstáculo à construção dessa agenda está nas narrativas que oferecem mais do que efetivamente entregam. Discursos excessivamente ufanistas, quando não são sustentados por indicadores, resultados verificáveis e políticas públicas estruturantes, podem criar uma percepção artificial de que os desafios já estão sendo enfrentados de maneira satisfatória. Em vez de mobilizar a sociedade, produzem acomodação e reduzem a compreensão sobre a dimensão dos riscos existentes e a urgência das mudanças necessárias.
Quando a comunicação pública apresenta um cenário de progresso incompatível com a realidade observada nos territórios, contribui para a desinformação e enfraquece a capacidade de questionamento da sociedade. Reconhecer avanços é importante, mas isso não pode significar ocultar fragilidades, minimizar perdas ambientais ou postergar decisões urgentes.
Sem uma percepção clara da realidade, diminuem também as condições para que a população cobre mudanças de postura, de prioridades e de políticas. O ufanismo exagerado, somado a narrativas que apresentam um cenário de fantasia sobre problemas que não estão sendo enfrentados adequadamente, inibe contestações indispensáveis à mudança de rumo.
O próximo governo do Paraná e os futuros representantes do Estado terão, portanto, uma responsabilidade inadiável: adaptar as políticas públicas e os modelos de desenvolvimento para reconhecer o papel crítico das áreas naturais. Os benefícios proporcionados por esses territórios precisam ser devidamente considerados, contabilizados e valorizados, inclusive por meio da remuneração daqueles que contribuem para mantê-los.
Apesar das evidências e da urgência climática, grande parte das candidaturas ainda reproduz uma agenda convencional, incapaz de integrar adequadamente natureza, economia e qualidade de vida. Interesses imediatistas, narrativas desconectadas da realidade e a omissão de diferentes segmentos da sociedade continuam dificultando a construção de soluções estruturantes.
As eleições representam uma oportunidade para mudar essa realidade. Cabe aos cidadãos observar se os candidatos apresentam propostas concretas para a proteção das áreas naturais, a adaptação climática, a restauração de ecossistemas e a valorização dos serviços prestados pela natureza. Mais do que compromissos genéricos, é preciso cobrar metas, instrumentos, orçamento, transparência e capacidade de execução.
O futuro do Paraná dependerá da disposição para abandonar modelos que tratam a conservação como entrave e construir uma estratégia de desenvolvimento compatível com os limites e as potencialidades do território. Não haverá economia sólida, cidades seguras ou qualidade de vida duradoura sem natureza protegida. Essa não pode continuar sendo uma pauta secundária.