Mais de 12 anos depois do início da Lava Jato, o saldo da operação não parece muito positivo: investigados e condenados estão em cargos públicos, a juíza substituta que homologou a criação de uma fundação de "combate à corrupção" foi punida pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o rombo na economia causado pela operação pode chegar a R$ 153 milhões. Nada disso, entretanto, parece afetar a imagem dos principais personagens da operação, o ex-juiz Sergio Moro e o ex-procurador Deltan Dallagnol, que poderão ser eleitos em outubro no Paraná.
Vista como intocável até 2019 por grande parcela da população, a Lava Jato começou a ruir com a publicação da série Vaza Jato, do site Intercept Brasil. As mensagens trocadas por integrantes da operação em grupos no aplicativo Telegram mostraram conversas nada republicanas de Dallagnol com outros procuradores e até com Sergio Moro, juiz titular da 13ª Vara Federal de Curitiba.
As mensagens mostraram que membros da força-tarefa da Lava Jato no Ministério Público Federal (MPF) em Curitiba combinavam passos e operações com Sergio Moro. Os integrantes trocavam informações privilegiadas, mantinham relações próximas (e promíscuas) com jornalistas – para os quais passavam informações “no tempo certo” – e internamente colocavam em dúvida as provas e delações que eles mesmos ajudavam a mídia a divulgar.
Principal alvo foi eleito presidente
O principal alvo da operação Lava Jato foi o então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), apontado como "chefe de quadrilha" na famosa e desastrosa exposição de power point feita por Deltan Dallagnol em setembro de 2016 – que rendeu uma condenação ao ex-procurador.
Lula foi condenado duas vezes no âmbito da Lava Jato, por Sergio Moro e pela juíza substituta Gabriela Hardt, a mais de 26 anos de prisão. Depois que as mensagens da Vaza Jato foram divulgadas, os processos foram anulados em 2021 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que considerou Sergio Moro um juiz parcial. No ano seguinte, Lula foi eleito presidente contra Jair Bolsonaro (PL) – apoiado por Moro e Dallagnol, que deixaram seus cargos para assumirem de vez que faziam política.
Condenações de paranaenses foram revertidas, com as do ex-governador Beto Richa (PSDB), eleito deputado federal em 2022; e do ex-deputado federal André Vargas (PT), que deve tentar voltar à Câmara neste ano. Outro que teve a condenação anulada foi o ex-presidente do Banco do Brasil Aldemir Bedine. O Estado tinha cerca de 20 alvos – todos livres de processo atualmente.
Outros investigados pela Lava Jato ou operações derivadas seguem livres: o senador Renan Calheiros (MDB-AL), o deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), o ex-senador Romero Jucá, o ex-ministro José Dirceu e o ex-senador Ciro Nogueira (PP-PI) são alguns deles.
Os nomes mostram que há um descompasso entre a amplitude da operação (e o espaço que ela ocupava diariamente nos noticiários) e os resultados traduzidos em prisões e condenações. Se Sergio Moro e Deltan Dallagnol tinham em mãos as provas tão robustas que diziam ter, se mostraram incompetentes ou irresponsáveis e colocaram tudo a perder ao trocarem mensagens indevidas em grupos de Telegram.

Empatia zero
Além de revelar inconsistências, a Vaza Jato mostrou um lado da operação que não apareceria na Globo: falta de empatia por parte dos integrantes da Lava Jato. Em 2017, ironizaram Lula quando morreu a ex-primeira-dama Marisa Letícia; em janeiro de 2019, a morte do irmão de Lula, Genival Inácio da Silva, também foi tratada com ironia. Um dos integrantes chegou a dizer que o então ex-presidente só queria "passear" – ele estava preso na sede da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.
Dois meses depois eles voltaram ao ataque, desta vez para ironizar a morte do neto de Lula, Arthur Araújo Lula da Silva, aos 7 anos. Os procuradores discutiram estratégias para não permitir que Lula deixasse a prisão para ir ao velório. A notícia foi dada pela procuradora Jerusa Viecili, que comentou: "Nova novela da ida ao velório". Depois que os diálogos foram divulgados, Jerusa Viecili pediu desculpas publicamente, reconhecendo que as mensagens eram verdadeiras – o que nunca foi admitido por Moro e Dallagnol.
Juíza punida, lava-jatistas em alta
Na terça-feira (4 de agosto), o o plenário do Conselho Nacional de Justiça puniu Gabriela Hardt, juíza substituta de Moro na 13ª Vara Federal de Curitiba. Ela foi afastada por dois anos do TRF-4 (recebendo salários), por ter homologado um acordo que previa o repasse de R$ 2,5 bilhões para uma fundação privada destinada ao "combate à corrupção".
Falta de resultados práticos, erros comprovados, "convicções" ao invés de provas, prejuízo estimado de R$ 153 milhões à economia, segundo estimativa do Dieese (diante de apenas R$ 6 milhões recuperados aos cofres da Petrobras): nada parecer afetar a imagem dos lava-jatistas no Paraná.
Sergio Moro e Deltan Dallagnol seguem em campanha para o Governo e o Senado, respectivamente, usando símbolos da Lava Jato. O ex-juiz tem participado de eventos de campanha com uma camiseta com a inscrição "Curitiba prende, Brasília solta" – sem citar que, para prender, muitas vezes ele combinava as operações com os java-jatistas no MPF e com a Rede Globo.
Deltan apostou na mesma tática: passou a usar uma camiseta reproduzindo o power point fajuto que acusava Lula sem qualquer elemento objetivo – mais o menos como um aluno de quinta série que, ao receber um apelido jocoso, assume a alcunha para não virar motivo de piada constante entre os colegas.
