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Curitiba: o cidadão quer coleta de lixo. O vereador pede outra coisa

Enquanto a população abre, em massa, chamados de coleta de lixo, a Câmara promove uma agenda paralela que rende voto justamente onde falta renda

Curitiba: o cidadão quer coleta de lixo. O vereador pede outra coisa
Plenário da Câmara de Curitiba. Foto: Tami Taketani/Plural

Pergunte a um morador de Curitiba o que mais incomoda na sua rua e, em três de cada quatro bairros, a resposta será a mesma: o lixo. A coleta é a demanda número um da população na Central 156 em 56 dos 75 bairros da cidade — muito à frente de trânsito (líder em 12) e iluminação pública (em 4). É o básico do básico, o serviço de zeladoria que define se um bairro é habitável.

Agora pergunte o que o vereador "conseguiu" para esse mesmo bairro. A resposta quase nunca tem a ver com lixo. Nos requerimentos que a Câmara protocola à Prefeitura, o tema dominante é mobilidade e trânsito (o assunto número um em 37 bairros), seguido de meio ambiente e bem-estar animal (em 32). E "homenagens e denominações" — dar nome a ruas, conceder títulos — aparece entre os três temas mais frequentes em metade da cidade.

O resultado é um descompasso quase total. A demanda número um do morador coincide com o tema número um do vereador em apenas 11% dos bairros; em 83% deles, o que mais aflige a população não está sequer entre os três assuntos que o gabinete mais protocola. Em 60 dos 75 bairros, o que o morador mais pede — coleta ou iluminação — não tem praticamente nenhum correspondente na agenda parlamentar. A necessidade central da cidade não é nem uma categoria relevante do que se discute na Câmara.

A convergência, quando existe, é reveladora: ela aparece num punhado de bairros centrais e de renda alta, como o Centro e a Água Verde, onde o próprio morador aciona o 156 sobretudo por trânsito — e aí, sim, o "mobilidade e trânsito" do vereador encontra a demanda real. Ou seja, vereador e cidadão pedem a mesma coisa exatamente onde o vereador menos precisa se meter. Na periferia, onde a intermediação é intensa, o gabinete fala de poda de árvore, nome de rua e esquina enquanto o morador implora por caminhão de lixo.

O canal real é o 156 — o requerimento é uma camada paralela

Para entender por que essa agenda paralela existe, é preciso olhar o tamanho dela. Entre 2016 e 2023, os curitibanos abriram 4,3 milhões de solicitações no 156. No mesmo período, os vereadores protocolaram 127 mil requerimentos citando bairros. Para cada pedido que um vereador faz à Prefeitura, a população faz outros 34 por conta própria. O 156 é o canal real da cidade; o requerimento parlamentar reencaminha ao Executivo um pedido que o próprio morador poderia fazer — e na maioria das vezes já fez — diretamente.

Quando um vereador diz que "conseguiu" o asfalto, a poda ou a troca da lâmpada, ele quase sempre fez uma coisa só: protocolou um papel que carimba um intermediário no caminho de um serviço que sairia de qualquer forma. O 156 já registrou aquela mesma demanda dezenas de milhares de vezes. O que o requerimento acrescenta não é o serviço — é o crédito político por ele.

Por outro lado, falta transparência na forma como a Prefeitura lida com esses pedidos. Para saber como

Cada bairro tem seu dono

Plural · Dados · Câmara de Curitiba
Balanço por bairro — quem pede na Câmara e em que cidade se mora

Os 75 bairros de Curitiba na atual legislatura (2025–2026): quanto e quem protocola requerimentos, o que a população pede direto pelo 156 e os indicadores de dengue, segurança e saúde de cada território. Ordene e filtre para comparar.

Como ler / fontes

Câmara (2025–2026): requerimentos à Prefeitura citando o bairro, de 02/01/2025 a 02/06/2026, da raspagem do SPL. Dono é o vereador que concentra mais requerimentos do bairro. 156: solicitações dos moradores à Central 156 (2016–2023), como linha de base do que de fato se pede. A cidade no território vem da base Curitiba por Bairro (Portal de Dados Abertos/C3SL-UFPR e Censo 2022): dengue notificada em 2024, ocorrências da Guarda Municipal, unidades públicas de saúde e acessos ao app Saúde Já. Ressalvas: ocorrências da Guarda são dominadas por trânsito e inflam onde há grande circulação; Caximba não consta da base por bairro.

Fontes: SPL — Câmara Municipal de Curitiba; Central 156 — Prefeitura de Curitiba (dados abertos); IBGE Censo 2022; base Curitiba por Bairro — Portal de Dados Abertos de Curitiba (C3SL/UFPR). Produzido por Plural — plural.jor.br.

E esse crédito não se reparte por igual. Os bairros não são "atendidos" pela Câmara como um todo: cada território tende a ter um vereador dono, que concentra a maior parte dos requerimentos da região. Na atual legislatura, esses feudos se concentram em pouquíssimas mãos.

O caso mais extremo é o de Lorens Nogueira, que sozinho assina 58% de todos os requerimentos sobre o Xaxim e 31% dos que tratam do Boqueirão — os dois maiores territórios de demanda da cidade. Marcos Vieira é dono ainda mais absoluto do Sítio Cercado, o segundo bairro mais populoso de Curitiba: responde por 56% de tudo o que se pede ali. Já Bruno Secco — o vereador de maior volume da Casa — distribui sua operação por um cinturão inteiro da periferia norte e sul, liderando os requerimentos de Cajuru, Bairro Alto, Uberaba, Santa Cândida e Hauer, em vários deles com um terço de toda a produção do bairro.

Curitiba não tem vereador de distrito; a representação é por toda a cidade. O que os dados revelam, portanto, não é uma divisão formal de circunscrições, mas uma partilha informal de feudos eleitorais: o gabinete adota um bairro, abastece a esteira de requerimentos e ali colhe os votos.

A concentração ganha contornos delicados no caso de Lorens Nogueira. Foi no Xaxim — o bairro onde ele mais protocola — que a Operação Déjà-vu, do Gaeco, registrou em vídeo, em maio de 2025, o vereador recebendo R$ 5,6 mil em espécie numa entidade assistencial, episódio que embasou a investigação por suposta "rachadinha" e o processo de cassação aberto pela Câmara. O parlamentar nega as acusações e responde ao processo, com direito a ampla defesa. Mas o desenho dos dados — um único gabinete dominando a relação entre um bairro inteiro e a Prefeitura — ajuda a entender como a intermediação de demandas e o capital político local se entrelaçam.

O mapa do pedágio é o mapa da renda

A intermediação não se distribui pela cidade conforme a necessidade, e sim conforme a renda. Quando se agrupam os bairros por classe socioeconômica e se mede quantos requerimentos de vereador existem para cada mil solicitações que os próprios moradores fazem ao 156, a escada é quase perfeita. Nos bairros de classe popular extrema, há em média 84 requerimentos por mil chamados ao 156; nos populares, 40; nos médio-baixos, 39; nos médios, 19; nos médio-altos, 15; e nos de classe alta, apenas 13. Cada degrau de renda para cima derruba a presença do vereador. A correlação entre a renda média do bairro e a intensidade da intermediação é de −0,54: quanto mais rico o bairro, menos o vereador se mete.

Os exemplos concretos são eloquentes. No Tatuquara, cuja renda média é de cerca de R$ 2,2 mil por mês, a mais baixa da cidade, são 91 requerimentos para cada mil chamados ao 156; no Boqueirão (R$ 4,4 mil), 80. Na outra ponta, no Batel, onde a renda média beira os R$ 15 mil, a relação cai para 5,8; no Centro Cívico, 4,4; no Alto da Glória, 0,9; e no Alto da Rua XV, 0,2 — ali o vereador praticamente não existe. O morador de renda alta abre o aplicativo do 156 e resolve; o morador da periferia passa pelo gabinete, e o gabinete cobra o pedágio em lealdade política.

A regra não é mecânica, e as exceções iluminam a lógica do voto. A Cidade Industrial, bairro popular e o mais populoso de Curitiba, tem uma das menores taxas de intermediação (4,2 por mil) — sua massa enorme de demandas vai direto ao 156 e nenhum gabinete consegue capturá-la inteira. Já o São João, bairro minúsculo de pouco mais de três mil habitantes, aparece no topo apesar da renda média elevada, mostrando que, onde há poucos moradores, um único gabinete ativo basta para dominar o território. No conjunto, porém, o vetor é inequívoco: o pedágio se arma onde rende voto, e rende mais voto onde falta renda.

O recorte por regional confirma o desenho. Nas regionais da periferia — CIC, Bairro Novo, Pinheirinho e Boqueirão —, a média fica entre 55 e 67 requerimentos por mil solicitações ao 156. Na Regional Matriz, que concentra os bairros de maior renda do centro expandido, a média cai para 7,8: o vereador aparece ali cerca de oito vezes menos do que na periferia.

A doença também tem mapa — e é o mesmo

Se o pedágio se arma onde falta renda, é também ali que se concentram os problemas que o requerimento, na prática, não resolve. A dengue é o exemplo mais cru. Os casos notificados em 2024 desabam conforme a renda sobe: nos bairros de classe popular extrema são cerca de 2.418 casos para cada 100 mil habitantes; nos populares, 1.147; nos médio-baixos, 781; e, nas áreas de classe alta e médio-alta, menos de 290 — uma correlação de −0,45 entre renda e incidência. O Tatuquara, o bairro mais pobre e um dos mais "pedagiados" da cidade, registrou 1.891 casos, ou 3.374 por 100 mil habitantes; Hugo Lange, bairro de renda alta no centro expandido, teve três casos no ano inteiro, 72 por 100 mil — uma distância de quase 50 vezes. Em número absoluto, o foco é o Cajuru (2.162 casos), seguido de Tatuquara e Sítio Cercado, os mesmos bairros que enchem a esteira de requerimentos dos gabinetes.

Na periferia, o vereador protocola homenagens, denominações de ruas e pedidos de trânsito enquanto a dengue corre solta e o lixo se acumula; o requerimento não chega perto nem do caminhão de coleta nem da epidemia que de fato adoece o bairro. A camada de saúde reforça o ponto: são os bairros populares que carregam o sistema público nas costas — a Cidade Industrial soma quase 389 mil acessos ao aplicativo Saúde Já, o Sítio Cercado 265 mil e o Cajuru 206 mil. É a periferia que mais precisa do Estado e menos consegue resolver sem passar pelo gabinete.

Retratos de bairro

O Boqueirão é o território mais disputado da cidade: foram 21 mil requerimentos em onze anos, e na atual legislatura quase um terço deles leva a assinatura de Lorens Nogueira. A demanda número um de seus moradores no 156, porém, é simples e maciça — 59 mil chamados de coleta de lixo. Ainda assim, o bairro somou 595 casos de dengue e 3.436 ocorrências da Guarda no período. O Sítio Cercado, com 102 mil habitantes o segundo bairro mais populoso de Curitiba, virou domínio quase exclusivo de Marcos Vieira, que responde por mais da metade dos requerimentos recentes — e onde a dengue (1.531 casos) e a sobrecarga do sistema de saúde (265 mil acessos ao Saúde Já) dizem mais sobre a vida real do que a esteira de papéis da Câmara. No Cajuru, de 90 mil moradores, Bruno Secco lidera a produção, enquanto a fila do 156 é puxada, de novo, pela coleta — e o bairro lidera a dengue na cidade inteira, com 2.162 casos.

Na outra ponta da cidade, o Batel resume o avesso do pedágio: bairro de maior renda de Curitiba (média em torno de R$ 15 mil por mês), gera pouquíssimos requerimentos — e ali o que o morador mais aciona no 156 é trânsito, que ele mesmo resolve; a dengue, com 35 casos, é quase residual. A Cidade Industrial, o maior bairro da cidade, com 172 mil habitantes, mostra que tamanho não compra atenção parlamentar: gera 66 mil chamados de coleta no 156 e quase 389 mil acessos ao Saúde Já, mas apenas 4,2 requerimentos por mil — entre os mais baixos da cidade. O que move o vereador não é o volume de gente, e sim a geografia da renda e do voto.

Por 100 mil habitantes

Ajustando pela população, os bairros onde a Câmara mais "produz" por morador são o Hauer, com cerca de 3.060 requerimentos por 100 mil habitantes ao ano, o São João, com 2.895, e o Boqueirão, com 2.660 — todos de renda média-baixa. No fundo da lista aparecem os endereços nobres: o Alto da Rua XV, com apenas 9 por 100 mil, o Alto da Glória, com 64, e a própria Cidade Industrial, com 85, esta puxada para baixo por sua enorme população. Bairros minúsculos, como a Riviera, de pouco mais de 400 habitantes, produzem taxas por 100 mil instáveis e devem ser lidos com cautela.

Como foi feito

A apuração cruzou várias fontes. Da Câmara, analisamos 274.095 proposições de 2015 a 2026; cada uma foi associada aos bairros citados em sua ementa, por casamento de texto com a lista dos 75 bairros oficiais, de modo não sobreposto (assim "Alto Boqueirão" não é contado também como "Boqueirão"). A análise de quem é o dono de cada bairro restringiu-se às proposições de 2025 e 2026, para refletir apenas a atual legislatura. Do 156, foram processadas 4,28 milhões de solicitações dos arquivos anuais de 2016 a 2023, agregadas pelo campo de bairro. População, renda média mensal e classe socioeconômica por bairro vieram do Censo 2022.

A comparação entre o que o vereador pede e o que o morador pede confronta, em cada bairro, o tema predominante dos requerimentos (classificação da Câmara) com o assunto mais frequente no 156. Como as duas bases usam taxonomias diferentes, o casamento é conceitual, não exato: por exemplo, "trânsito" no 156 corresponde a "mobilidade e trânsito" na Câmara; "árvore", a "meio ambiente"; "posto de saúde", a "saúde". A coleta de lixo, principal demanda da população, não tem categoria equivalente entre os temas dominantes da Câmara — o que, por si só, é parte do achado.

As camadas de dengue, Guarda Municipal e saúde vêm do Portal de Transparência da Prefeitura de Curitiba: os casos de dengue são notificações de 2024 casadas pelo bairro de residência; as ocorrências da Guarda vêm do Sigesguarda; e os acessos ao Saúde Já medem o uso do aplicativo público de saúde por bairro do usuário. Caximba, ausente na base por bairro, teve a população complementada pelo Censo 2022 do IBGE, e apenas o Champagnat ficou fora do cálculo por habitante. As comparações entre Câmara e 156 usam a janela comum de 2016 a 2023.

Valem as ressalvas. "Intermediação" e "pedágio" são leituras do padrão dos dados, não da intenção de cada parlamentar — há requerimentos legítimos, que dão prazo e publicidade a uma demanda. A classificação temática da Câmara é feita por palavras-chave e tende a superestimar "mobilidade", já que toda ementa cita um logradouro — mesmo descontando isso, o descompasso com a demanda do morador permanece. A renda usada é a média do responsável pelo domicílio (Censo 2022), e bairros muito pequenos produzem médias e taxas instáveis. As ocorrências da Guarda são dominadas por trânsito e inflam onde há grande circulação, como o Centro e os eixos comerciais, de modo que não devem ser lidas como medida direta de criminalidade. E uma proposição que cita dois bairros é contada nos dois. As informações sobre a investigação de Lorens Nogueira são atribuídas ao Gaeco/Ministério Público do Paraná.

Fontes: SPL — Câmara Municipal de Curitiba; Central 156 — Prefeitura de Curitiba (dados abertos); IBGE Censo 2022; base Curitiba por Bairro — Portal de Dados Abertos de Curitiba (C3SL/UFPR), com dengue, Guarda Municipal e saúde por bairro.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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