Deltan Dallagnol está indignado: candidato ao Senado pelo Novo, está proibido de fazer campanha. Como se sabe, Deltan é conhecido especialmente por combater injustiças judiciais. Agora, que está no lugar de quem tomou a punição (e olha que nem está preso sem provas) decidiu que os erros do Judiciário equivalem à morte da democracia.
Ele e seus pares não cansam de propalar a injustiça que está sendo cometida. Sergio Moro rasga suas vestes; Guilherme Kilter, de joelhos, derrama cinzas sobre a própria cabeça; Jeffrey Chiquini, de joelhos esfolados, sobe a escadaria do Cristo Redentor recitando o número de urna da Dallagnol. Enquanto isso, o próprio Deltan se compara ao herói bíblico Gideão nas redes sociais (essa última parte é verdade).
O que nenhum deles diz é uma verdade simples: tudo isso que se passa é culpa do próprio Deltan. E não se está falando aqui do fato de ele ter burlado a Lei da Ficha Limpa, algo que já foi reconhecido por sete a zero no Tribunal Superior Eleitoral (curiosamente, quando se tratava de Lula, as decisões de Cortes superiores eram a prova de que a Lava Jato estava certa; agora, tudo mudou).
Tendo o registro de candidatura cassado em 2022; sabendo que esse tipo de punição, por lei, dura oito anos; querendo ser candidato de novo; ora, Deltan é grandinho, formado em Direito e sabia o que precisava fazer: apresentar um pedido de declaração de elegibilidade. Foi alertado disso até pelos adversários, que queriam evitar essa incerteza, essa bagunça em que Deltan transformou a eleição para o Senado.
Mesmo sabendo disso, Deltan esperou o fim do prazo, quase em agosto, para enviar seu pedido "antecipado" de declaração de elegibilidade. Era tarde, e ele sabia disso. Mas fez assim por quê? Provavelmente, e aqui, claro, trata-se de especulação, porque sabe que está inelegível, e sabe que o TSE não permitiria jamais sua candidatura depois de ele ter feito o que fez com a Lei da Ficha Limpa.
Deltan, como o bolsonarismo em geral, triunfa no caos. É a desordem que ele queria, para poder se declarar vítima do sistema. E para depois forçar outra eleição, paga pelo contribuinte, claro, em que um amigo seu poderá se eleger. Quem sabe sua esposa, o que seria igualmente típico.