10 maio 2022 - 9h24

O fim

Esse prazer claudicante de seguir atrás de pequenos fins é o vício que costumamos chamar de vida

Fim é uma palavra que, como sabemos, tem dois significados destacados: de algo a ser alcançado, um propósito; de término, limite, fronteira, game over. Passamos a vida buscando o primeiro significado quase na mesma medida em que fugimos do segundo. Para dar o exemplo padrão: queremos ser felizes mas sofremos com a ideia de que a felicidade acabe.

Esses dias fui visitar meus pais, que estão com 81 e 84 anos de idade. Disse a eles que meu sonho era chegar aonde eles chegaram, nesse tempo de vida tão longo, ainda como um casal, vivendo uma vida digna, lúcida e saudável na medida do possível. Eles me miraram com um olhar opaco, sentidos com o meu comentário. Depois de um silêncio excessivo, minha mãe disse apenas: tenho muito o que viver.

Freud disse que a principal fonte de nossas neuroses é a perda de uma sensação de plenitude – um sentimento oceânico – que tivemos em algum momento de nossa infância, antes de percebermos o dentro e o fora do mundo, antes de entendermos que os objetos que dão prazer não são partes de nós e que ,em algum momento, saem de nosso campo de visão e tornam-se ausentes. Por isso, ensina ele, aprendemos a gritar. E o grito como manifestação humana tornou-se uma expressão da falta, do desamparo com o qual passamos a conviver na nossa existência. Quando alguém grita, é porque algo não parece que vai bem.

No entanto, não fosse essa presença da falta e não teríamos a consciência do prazer e muito menos desenvolveríamos mecanismo de busca, sofisticando nossas ações no mundo, criando tanta coisa, a ciência, a arte, o esporte, a literatura. O prazer é primo-irmão da carência. A satisfação plena não é um fim desejável, pois torna-se enjoativa. Daí a tarefa humana ser tão desafiadora e complexa. Buscamos um fim até alcançá-lo e, logo depois, a comemoração da conquista rapidamente perde o brilho, pois a sensação de euforia não consegue se manter por muito tempo.

O fim que se alcança logo exaure-se em um fim, término. E a busca recomeça.

A religião, segundo Freud, teve a capacidade de reduzir as expectativas dos múltiplos fins a um único fim – a Salvação – e ampliar o objeto a ser amado de um objeto (por vez) para todos – o milagre da multiplicação do amor como Paixão para o amor como Ágape – e, com isso, tentar diminuir as tensões entre o fim como objetivo e o fim como término. Da mesma forma, esticou a ideia de vida consciente para além da matéria, tentando solucionar o drama da percepção da decadência dos corpos em uma dualidade que descarta um para manter o outro, o que aceitamos muito mais por desespero do que por convicção e à custa de um encobrimento que nunca é totalmente bem sucedido: o de que o prazer é algo que é próprio do corpo.

A alma é insípida. Se é nela que reside a esperança da continuidade, da ausência do fim, para que desejamos alcançar esse propósito? Ele abre a porta para a eternidade de um espaço onde nada nunca mais será feito, realizado.

A versão religiosa não compreende que o fim, em si, é só uma desculpa para continuarmos andando, experimentando, inventando novas histórias. Por isso entendo minha mãe e sua sede que não seca. A vida que ela ainda quer viver é a esperança de deixar mais marcas por aí, de conter lembranças de algo, de imprimir assinaturas em atos, de compartilhar pedaços de seus sucessos e ainda de cruzar linhas de chegada de aventuras imaginadas. Esse prazer claudicante é o vício que costumamos chamar de vida.

Epicuro lembrava: não há razão de temer a morte, porque a morte não é uma experiência da vida. O risco grave é não viver a vida e suas possibilidades de satisfação, mesmo que provisórias, mesmo que incapazes de encher a taça do desejo. Somos feitos dessa incompletude e não da ideia da perfeição, que é uma armadilha do nosso pensamento.

Demócrito, de quem Epicuro era um discípulo entusiasmado, afirmava que o que não tem fim é o movimento dos átomos, que juntam e formam corpos e depois separam-se e desfazem esses corpos. A ideia de vida e morte é, portanto, uma ilusão. Só há a percepção e a memória dela, que forma a consciência de que estamos aqui e agora. Para aproveitar esse minuto. E depois o outro. E além. Até o fim.

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