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Pesquisadores traçam a história do crime no Paraná

Clóvis Gruner estuda não só a criminalidade como também os discursos mais comuns sobre segurança pública

Pesquisadores traçam a história do crime no Paraná
Clóvis Gruner: pesquisas sobre a criminalidade no Paraná. Foto: João Vítor Corrêa/Agência Escola UFPR
Publicado:

Por João Vitor Corrêa - Agência Escola UFPR
Supervisão: Maíra Gioia

A criminalidade é um fenômeno que acompanha a humanidade ao longo da história. Presente em diferentes formas e contextos, o crime vai além das transgressões à lei, revela também as tensões sociais, políticas e econômicas de cada época. Entender sua trajetória histórica é essencial para compreender os caminhos que nos trouxeram até aqui e para pensar em soluções de enfrentamento a essa problemática. É com esse olhar que o professor do Departamento de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Clóvis Gruner, tem se dedicado às suas pesquisas.

Natural de Joinville (SC), é formado em História pela Univille e tem mestrado e doutorado pela UFPR. É também colunista do jornal Plural. Desde 2013, integra o corpo docente da Universidade, atuando tanto na graduação quanto na pós-graduação, com pesquisas voltadas para duas principais linhas de investigação: a história do crime e a representação de eventos traumáticos em histórias em quadrinhos.

Foi a partir dessa primeira linha — a história do crime — que surgiu a publicação do livro "História do Crime e da Criminalidade no Paraná". A obra nasceu da necessidade de inserir o Paraná no debate historiográfico nacional sobre o tema, respondendo a uma lacuna: a produção sobre o tema no estado era marcada pela fragmentação e pelo isolamento entre os pesquisadores.

Embora o tema da criminalidade fosse objeto de diversas pesquisas, os estudos eram conduzidos de forma isolada, sem diálogo e articulação entre os pesquisadores. O livro, organizado por Clóvis e pelo professor Hélio Sochodolak, que atua como docente permanente no Programa de Pós-graduação em História e Regiões da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) e como professor visitante no Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade Estadual de Londrina (Uel), representa um esforço colaborativo de articulação dessas pesquisas dispersas, buscando oferecer uma visão mais ampla e integrada sobre o crime e sua historicidade no estado do Paraná.

Diferenças regionais e repetições históricas

Os resultados encontrados no livro não chegaram a surpreender os historiadores, ou quem estuda a área, entretanto o professor Clóvis destaca dois pontos que podem chamar a atenção de um público mais geral. O primeiro é a diferença entre o tratamento da criminalidade na capital e no interior, enquanto nas regiões mais urbanas o aparato do Estado já estava mais consolidado, com atuação policial e judicial mais estruturada, a situação no interior estava mais apoiada na resolução dos conflitos de maneira mais informal, baseadas em uma lógica de justiça com as próprias mãos.

“Na ausência de, ao menos, uma tentativa policial, de moderar conflitos a partir do aparato institucional, o que a gente encontra em alguma região interior é a resolução de conflitos de violência, usando o recurso da violência”, explica Clóvis.

Outro aspecto destacado pelo historiador é a repetição de certos discursos e práticas ao longo do tempo. Apesar das diferenças temporais, os discursos utilizados para justificar políticas de segurança - como aumento no efetivo da polícia e a necessidade de mais armas - permanecem os mesmos, com os resultados permanecendo longe do esperado, como destaca o professor:

“Já se falava muito que era preciso ter uma polícia mais armada, mais eficiente, mais moderna, para conter o movimento vertiginoso da criminalidade na capital (...) e até agora não surtiu o efeito que se espera quando se defende essa política, que já era uma política há um século atrás, mais de um século atrás. A impressão que se tem é que se perdeu a guerra antes, e a gente tá perdendo a guerra hoje.”

Um campo em expansão

Nessa primeira edição, os organizadores optaram por reunir pesquisadores já consolidados no campo da história do crime, com trajetórias acadêmicas maduras e produção consolidada. A proposta para uma próxima publicação, prevista para ser publicada em 2026, é de ampliar o escopo e incluir pesquisadores em início de carreira, com estudos ainda em desenvolvimento, como dissertações e teses. Muitos dos trabalhos dessa segunda edição foram mapeados por Clóvis Gruner e Hélio Sochodolak em simpósios temáticos realizados nos encontros da Associação Nacional de História (ANPUH), especialmente nas edições regionais da ANPUH Paraná.

“Como parte do evento, acontecem os simpósios temáticos que reúnem pesquisadores a partir de eixos de pesquisas, de temas. O Hélio e eu organizamos dois desses simpósios temáticos e reunimos alguns pesquisadores interessados nesse tema do crime. No ano passado a gente realizou na Unicentro, onde ainda tinha um evento voltado só à temática do crime, onde mapeamos outras pesquisas que estão em andamento e que a gente pretende reunir no segundo volume. São pesquisas inéditas, ou pelo menos quase inéditas, que não estão nesse primeiro volume. A intenção do segundo volume é juntar só pesquisadores e pesquisadoras que não puderam, por qualquer razão, ser publicadas neste volume de 2023.”

O projeto tem como objetivo central consolidar o campo de investigação sobre o crime no Paraná, mapeando a produção existente e demonstrando tanto o valor qualitativo e quantitativo das pesquisas. O conjunto das produções contribui para formar uma fotografia historiográfica do Paraná no contexto do crime e da criminalidade.

Da universidade à sociedade

Além de sua atuação como professor e pesquisador, Clóvis também se dedica a levar a história para fora da universidade. Desde 2020, escreve quinzenalmente para o jornal Plural trazendo seu olhar de historiador sobre temas e acontecimentos atuais. Para ele, essa atuação é uma forma de aproximar a produção histórica da sociedade: “A gente nunca precisou tanto de história. Mas, ao mesmo tempo, a história nunca foi tão negligenciada, tão pouco valorizada como agora”

O professor critica o distanciamento que a academia manteve por muito tempo em relação ao público geral, limitando a circulação de produção apenas no meio acadêmico, o que, segundo ele, contribuiu para uma crescente desconfiança sobre o papel social dos historiadores. Ao escrever para o jornal, encontra um local para estabelecer um diálogo mais direto com a sociedade, entretanto, um dos maiores desafios dessa tarefa é o esforço de tradução do conteúdo, adaptando conceitos e reflexões teóricas mais complexas para uma linguagem clara, sem perder a profundidade do assunto:

“Você está dentro de um leitor que possivelmente não leu o que você leu, não conhece o autor que você leu, não vai dominar o conceito que você quer citar. É tentar traduzir uma digressão mais acadêmica numa linguagem que tenta chegar a um leitor não acadêmico. O que também é um esforço legal, porque a gente tem que fazer isso como acadêmicos, tentar falar com o público mais amplo, sair da bolha”, diz.

Todo o trabalho de Clóvis reforça o papel essencial do historiador: lançar luz sobre o que já aconteceu, para ajudar a compreender o que somos. Ao sair dos muros da universidade e dialogar com a sociedade, ele mostra que o conhecimento não deve ser restrito, mas partilhado, porque compartilhar a história é abrir uma caixa de ferramentas para o presente.

Serviço

Para quem se interessou e quer conhecer mais sobre a temática, o livro organizado pelos professores Clóvis Gruner e Hélio Sochodolak, está disponível para venda no site da editora do livro .

Tags: Paraná UFPR

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