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Crescer na Vila Torres: relato(s) de criança, jovem e mulher periférica

Uma trajetória em andamento

Crescer na Vila Torres: relato(s) de criança, jovem e mulher periférica
Vila Torres. Foto: Daniel Castellano/Arquivo SMCS
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Ser mulher, cis ou transgênero, é um desafio, ser mulher no Brasil é um pouco mais difícil e ser mulher periférica no Brasil é sempre estar um degrau abaixo. E ainda falo do meu lugar de mulher branca. 

Crescer mulher na periferia de uma cidade como Curitiba não me parecia disforme até que atingi idade o suficiente para entender que nem todas as meninas da minha idade, nos lugares que eu frequentava, sentiam todo aquele desconforto o tempo todo. Curitiba é uma cidade que, apesar de altamente hostil com quem não segue os padrões das famílias europeias do Sul, ainda veste o disfarce da cidade sorriso. Sendo assim, os ataques direcionados às crianças que vêm da periferia são sutis o suficiente para que não causem alarde, mas definitivamente fortes o suficiente para marcar numa vida inteira. 

Não quero que pensem que a violência em Curitiba é velada, pois não é. 

“Quando é que vai tirar essa gente daqui?” Foi assim que ouvi uma professora universitária se referir a mim e outras crianças da vila numa aula de campo certa vez. Fomos, minha turma de dança e nossa professora, visitar o laboratório de teatro de uma faculdade de artes e lá fomos guiados por esta professora. A visita terminou pouco tempo depois da fala fatídica, mas a vergonha e o desconforto que aquela professora e sua agressividade completamente gratuitas me causaram, permanecem comigo. 

Por definição a vergonha é o sentimento de inadequação e não pertencimento, o desconforto de não alcançar qualquer tipo de alvo ou padrão pré-estabelecido. 

As sensações de desconforto e deslocamento recorrentes resultam numa vergonha constante - e uma vez que se sente vergonha de quem é, é incrivelmente difícil de voltar atrás. Anos depois, já capaz de analisar minha trajetória, consegui perceber que tive anos de experiências que me foram privadas pela sensação de que não pertencia a qualquer lugar fora da Vila. E por isso também negava o meu lugar dentro da minha comunidade e, consequentemente, tudo o que ela poderia me oferecer. 

Em certo ponto da minha criação, foi tomada a decisão de sairmos da Vila e hoje vejo que isso também serviu para nos afastar das influências não muito positivas presentes na comunidade, numa idade muito determinante da formação humana, entre os 13 e 17 anos. Infelizmente, esse tempo fora da Vila me afastou de tudo o que eu conhecia ali, me separando da identidade da vida na periferia. Não era favelada o suficiente para me enturmar com a comunidade, mas fora dali também não havia lugar para mim, afinal continuava sendo favelada. 

Fazendo parte de uma geração que conseguiu chegar à universidade, e cada vez mais vem fazendo com que suas vozes sejam ouvidas e consideradas, não é surpresa concluir que independentemente de gênero, sentir-se deslocado é quase que uma característica básica de quem nasce e cresce na periferia. As pessoas não esperam que as crias da periferia sejam capazes de juntar algumas palavras bonitas e complicadas para escrever para um jornal, por exemplo. 

Acontece que quando se tem uma base forte numa família matriarcal, como é boa parte das famílias de onde eu sou, é difícil que te tirem o orgulho de ser quem é, com todas as características do lugar onde nasceu e cresceu. Fui criada por uma rede de mulheres, desde minha mãe que trabalha desde os catorze anos e entrava na sala de aula de manhã como professora e a noite como estudante, à minha irmã que se dividia entre sua própria filha e eu, até minha avó que me levava para fazê-la companhia nas missas da paróquia local. 

Hoje me pego considerando válida toda a minha vivência, mas há um esforço diário a ser feito para que meu trabalho não seja diminuído pelo CEP da rua onde moro. Longe de mim querer romantizar a vivência dentro da favela, não é nem nunca vai ser bom ver, ouvir e presenciar as coisas que acontecem em lugares onde a justiça falha e os olhos de quem deveria cuidar não chegam, mas já que assim aconteceu, o que me resta é continuar juntando palavras bonitas e conseguir que alguém leia, é o meu modo de usar tudo que foi feito contra pessoas como eu, a meu favor. Tudo que penso e quero tem o peso das coisas que vivi ali, não consigo me separar da responsabilidade que se carrega ao crescer em comunidade. 

Falar sobre pode ajudar, além de mim mesma, as próximas gerações de potências vindas da periferia curitibana.

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