Pular para o conteúdo

O que aconteceu com os estudantes que ameaçaram colegas em Curitiba?

No caso mais grave, um estudante ameaçou outra aluna de estupro. Houve também ameaça de morte contra petista

O que aconteceu com os estudantes que ameaçaram colegas em Curitiba?
Publicado:

“Eu fiquei mais com medo dos pais mesmo. Porque se os alunos agem assim eles aprenderam em casa”. A estudante de 17 anos do colégio Positivo, em Curitiba, que foi ameaçada de estupro por um colega continua a rotina, apesar da situação grave ocorrida em um grupo de mensagens de WhatsApp no início do mês.

A jovem não estuda na mesma sede do autor da ameaça, mas os alunos de todas as unidades costumam usar o aplicativo para trocar informações sobre atividades escolares. A aluna recebeu o link para entrar no grupo bolsonarista e decidiu acompanhar as discussões.

Quando a vitória do ex-presidente Lula (PT) foi confirmada ela mandou uma mensagem comemorando a vitória. A mensagem continha alguns palavrões, mas não tinha tom de ameaça aos colegas.

Como resposta, foi ameaçada de estupro por um dos integrantes do grupo. Ouça:

https://www.youtube.com/watch?v=kCk8iFYv7-g

Além da ameaça, os estudantes também compartilharam conteúdo nazista, xenofóbico e chegaram a ameaçar professores no grupo.

Os autores, segundo o colégio Positivo, vão responder a um processo administrativo “em observância ao devido processo legal e ampla defesa”.

Ainda segundo a escola, os alunos foram recebidos pela direção da escola, junto com os pais e “demonstraram arrependimento e constrangimento pelos seus atos, sendo repreendidos pelos pais e pela instituição”.

Os envolvidos devem ser suspensos e o Conselho Tutelar foi acionado para acompanhar o caso. O colégio entende que não é possível expulsar os alunos porque “a penalidade de expulsão, como medida educativa, afronta o direito de permanência dos alunos na escola (art.53, inciso I da Lei nº 8.069/90, art.3º, inciso I da Lei nº 9.394/96 e, em especial, do art.206, inciso I da Constituição Federal)”.

Outros colégios

A onda de atos antidemocráticos não é exclusividade do Positivo. Também houve registros em unidades do Marista, onde os alunos prepararam um ato em apoio ao candidato à presidência derrotado Jair Bolsonaro (PL) e após a eleição hostilizaram colegas que votaram em Lula. Grupos de aplicativo de mensagens também tinham ameaças de morte ao petista.

Neste caso específico o Núcleo da Infância e da Juventude (NUDIJ) da Defensoria Pública do Paraná (DPE-PR), se reuniu com diretores da instituição e abriu um procedimento padrão para analisar a denúncia.

Leia mais: Empresários bolsonaristas tentam golpe bloqueando as estradas do país

À DPE, a direção do colégio disse que tomou “todas as providências” e deve encaminhar por escrito um documento mais detalhado sobre o caso.

Também em Curitiba, estudantes bolsonaristas queimaram a bandeira do PT levada por um colega de escola. Eles mesmos gravaram um vídeo no qual aparecem urinando na bandeira e publicaram nas redes sociais.

Esta situação aconteceu no Colégio Bom Jesus. A instituição afirmou que as situações são “atípicas e pontuais” e mencionou ainda que “toma as medidas educativas pedagógicas cabíveis”.

Jurídico

No caso da estudante ameaçada de estupro, embora a direção do colégio tenha sido comunicada, a vítima não registrou boletim de ocorrência.

Existem, no entanto, caminhos jurídicos que podem proteger adolescentes de ameaças praticadas por colegas. “Além do diálogo em casa, os pais podem acionar o conselho tutelar, a escola, a delegacia de polícia e o poder judiciário. A medida que os pais podem tomar dependerá do crime cometido”, explica a advogada Raíssa Milanezi, integrante do Instituto Nacional de Pesquisa e Promoção de Direitos Humanos.

Leia mais: Vereadora sofre ameaça de morte por pedir liberação de vias em Foz do Iguaçu

Segundo a especialista, quando há crime de ameaça deve ser feito um boletim de ocorrência junto à Polícia Civil. “Já se ocorrer um dos crimes contra a honra, com ofensas a honra objetiva ou subjetiva, leia-se, xingamentos, acusações e correlatos, deve-se registrar um boletim de ocorrência e contratar um advogado para ajuizamento da queixa crime”, destaca.

Mensagens, prints, vídeos e áudios servem de provas e uma dica e registrar tudo isso em cartório. A escola, por sua vez, deve acionar o Conselho Tutelar para conscientizar e precaver casos de violência e, se for necessário, também há orientação para acionar a Polícia Militar.

Penalizados

Mesmo que as instituições não adotem condutas mais rígidas nos casos de atos antidemocráticos, xenofóbicos, racistas ou sexistas, é possível que os envolvidos sejam responsabilizados penalmente, mesmo sendo adolescentes.

“O adolescente ou a criança será processado pelo ato infracional cometido e ouvido, com possibilidade de apresentação de testemunhas de acusação e defesa. Ao final, caso se reconheça o cometimento de um crime, ele será punido”, salienta Milanezi.

A estudante de 17 anos, após ser ameaçada de estupro, foi removida do grupo, mas recebeu no privado novas mensagens agressivas. Apesar disso, ela não pretende deixar o colégio, mas não acha que os acusados serão transferidos.

A reportagem do Plural questionou a Polícia Civil do Paraná sobre o andamento das investigações nos casos citados, no entanto, por conta do feriado do Dia do Servidor, apenas as demandas de informações factuais (que ocorreram no dia) seriam atendidas nesta sexta-feira (11).

Denuncie

Casa da Mulher Brasileira: 41 3221-2701

Polícia Civil: 197

Polícia Militar: 190

Conselho Tutelar: 41 3363-7681

Defensoria Pública Estadual: 41 3313-7336

Aline Reis

Aline Reis

Jornalista e especialista em Gestão da Comunicação, Assessoria e Marketing pela Universidade Positivo (UP). Mestra em Estudos de Linguagens pela UTFPR. Presidenta do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Paraná.

Todos os artigos

Mais em Vizinhança Curitiba

Ver todos

Mais de Aline Reis

Ver todos

De nossos parceiros