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“Parece que ele queria me machucar”: morador de Curitiba é acusado de mais um estupro contra criança

Mais uma criança teria sido vítima de estupro de vulnerável praticada por um morador do Guabirotuba

“Parece que ele queria me machucar”: morador de Curitiba é  acusado de mais um estupro contra criança
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O banheiro da paróquia Imaculada Conceição, no Guabirotuba, em Curitiba, pode não ter sido palco de um único abuso infantil cometido por Wily Rocha (nome fictício), que atuava em atividades da Igreja. O local, de acordo com João da Silva, que hoje tem catorze, foi usado para que o acusado praticasse sexo oral na vítima.

O mesmo lugar é apontado por Mariana Alves (nome fictício para proteger a vítima), de sete anos, como um ambiente de toques impróprios em seu corpo. Mariana é uma criança que não frequentava tanto a Igreja, nem integrava o grupo de coroinhas do qual Rocha era um dos responsáveis, mas tem parentesco com o acusado.

A criança morava com a mãe, o pai e parentes dele em uma residência no Guabirotuba. Depois disso, com a separação do casal o caso ganhou vias judiciais e a criança precisou passar por escutas especializadas em decorrência de um processo por maus tratos envolvendo Mariana.

https://wp.plural.jor.br/noticias/vizinhanca/duas-conselheiras-tutelares-renunciam-em-curitiba/

Em uma das escutas, que ocorreu no Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria), em Curitiba, Mariana demorou mais que o habitual, enquanto a mãe aguardava do lado de fora. A delonga chamou atenção, mas não chegou a preocupar a genitora.

Quando a escuta terminou, a psicóloga do Nucria pediu para que a mãe entrasse e revelou que a criança acusou Wily Rocha, seu parente, de tê-la tocado nas partes íntimas e introduzido o dedo em sua genitália. “Eu não tinha ideia. Entrei em negação”, lamenta a mãe da criança, Amanda Alves (nome fictício).

Modus operandi

Quando, em 2023, Wily Rocha foi preso em decorrência dos abusos praticados contra João da Silva, pessoas procuraram Amanda para alertá-la de que a filha também poderia ter sido uma vítima. “Eu nunca desconfiei de nada. Eu disse para esse grupo que ele tinha sido preso por outra questão, não tinha nada a ver com a minha filha, porque não acreditava nisso até a escuta”, revela.

Como Mariana tem apenas sete anos, a oitiva – a qual o Plural teve acesso a um trecho – a parte que envolve Rocha inicia com o questionamento da criança sobre quais são partes íntimas do corpo. A menina indica que sabe e então, na sequência, é perguntada se alguém já tocou nesses locais com ou sem sua permissão. Neste momento ela revela o comportamento de Wily Rocha, que a tocava por cima e por baixo das roupas, na maioria das vezes na casa dos familiares. "Parece que ele queria me machucar", relatou a vítima.

O modus operandi do acusado neste caso é semelhante o que foi relatado no processo e pelo pai de João da Silva, a outra vítima que registrou boletim de ocorrência (cuja história está disponível aqui). Ele mantinha uma relação de proximidade com a criança, que tem dificuldades de entender que algumas das demonstrações de “carinho” são crimes.

De acordo com a psicóloga clínica, Joyce Schmidt Gonçalves, que atualmente está no Núcleo de Escuta Especializada Intersetorial da Criança e Adolescente, no município de Piraquara, isso ocorre porque a criança via de regra conhece o criminoso. "Geralmente o abusador utiliza-se de ameaças, manipulação, coação e/ou culpabilização da vítima, o que suscita na criança ou adolescente sentimentos de medo ou vergonha. Além disso, dados da Unicef (2021) mostram que 86% das violências sexuais são perpetradas por conhecidos das vítimas, e muitas vezes o abusador se utiliza deste vínculo de confiança para convencer a criança de que o ato da violência sexual é uma forma de demonstrar carinho, amor, afeto. Por estes motivos, muitas das vítimas não relatam sobre o ocorrido", explica.

Isso causa consequências comportamentais e emocionais nas crianças. No caso de Mariana, a criança iniciou tratamento psicológico, mas precisou trocar de profissional. Agora ela aguarda atendimento na rede de São José dos Pinhais, onde mora atualmente.

"Parece que ele queria me machucar", trecho do depoimento da vítima.

Além disso, o agravante neste caso é que o parentesco da vítima com o acusado faz com que ele tenha que manter contato com pessoas muito próximas a ele, que eventualmente mencionam o nome dele para criança.

Enquanto isso, a mãe e o padrasto tentam minimizar as sequelas, como comportamento violento e autoflagelação. "A vivência de violências sexuais, assim como outras violências, como física e psicológicas, traz consequências emocionais importantes, sendo que cada pessoa ressignificará as consequências da ocorrência de forma individual, conforme suas vivências e sua história. Algumas possíveis consequências são: baixa autoestima, depressão, transtorno de estresse pós-traumático, síndrome do pânico, comportamentos autodestrutivos, dentre outros", menciona Joyce.

Mais suspeitas

Além do caso de João da Silva e Mariana Alves, é possível que haja outras vítimas de Wily Rocha, que estão organizadas por meio de redes sociais, mas que, por medo de retaliação, não formalizaram as denúncias contra o acusado.

Em 2023, o Ministério Público do Paraná apresentou 3.299 denúncias criminais em inquéritos policiais por estupro de vulnerável, ou seja, violência sexual majoritariamente cometida contra pessoas com menos de 14 anos, como no caso das duas vítimas das quais as famílias registraram o boletim de ocorrência.

https://wp.plural.jor.br/noticias/vizinhanca/exposicao-as-telas-aumenta-casos-de-miopia-entre-as-criancas-afirma-ioc/

Segundo relatório do Centro Marista de Defesa da Infância, o Cadê Paraná (Crianças e Adolescentes em Dados e Estatísticas), as meninas são as principais vítimas de abuso sexual, sendo 84% no Sistema de Informação da Infância e Adolescência (Sipia), 88% no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e 76% no Disque 100.

O relatório, embasado em dados do Sinan, aponta que 35% dos crimes de abuso sexual são praticados por pessoas próximas da vítima, o que vai ao encontro do caso de Mariana.

Além do banheiro da Igreja, Mariana também relatou em sua oitiva que quando Wily Rocha lhe dava banho, na casa dos familiares paternos, aconteciam toques nas regiões íntimas. O Cadê Paraná indica que a residência é o local mais ocorrência de abuso sexual contra crianças e adolescentes, com 71% dos casos registrados no Sinan e 52% no Disque 100.

No caso de Mariana, embora ela não viva mais com os parentes, o local é um ambiente familiar por ser a moradia anterior. “A casa é de madeira. Como ninguém ouviu isso? Tinha mais gente adulta na casa”, questiona a mãe da vítima.

“Quando a minha filha nasceu eu prometi para ela que eu não eu iria protegê-la, então aconteceu isso [choro]. Mas eu vou continuar lutando para fazer um pouco do que eu posso para ela se curar disso”.

Andamento

Segundo o anuário do Fórum Nacional de Segurança Pública, o Paraná teve 7.578 estupros de vulneráveis em números absolutos em 2023, ficando atrás apenas de São Paulo entre todos os Estados do Brasil.

Nesta seara, dados do Ministério da Justiça referentes até o primeiro semestre deste ano apontam que dos 663 mil encarcerados do Brasil, mais de 30,3 mil estão presos por crime de estupro de vulnerável.

No caso de Wily Rocha ainda não houve condenação. No processo que envolve o adolescente João da Silva, embora tenha sido preso neste ano, atualmente responde em liberdade. Já no caso de Mariana ainda não houve denúncia, mas está prevista uma medida cautelar para produção antecipada de provas que menciona Wily Rocha e a mãe dele, Arlete Rocha (nome fictício), que se mudaram de endereço após as acusações de estupro de vulnerável.

A defesa do acusado foi procurada por e-mail, mas não retornou o contato da reportagem até o fechamento deste texto.

Em ambas as situações, ainda não há previsão para que aconteça julgamento.

Aline Reis

Aline Reis

Jornalista e especialista em Gestão da Comunicação, Assessoria e Marketing pela Universidade Positivo (UP). Mestra em Estudos de Linguagens pela UTFPR. Presidenta do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Paraná.

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