Três poemas de Victor Hugo Turezo | Jornal Plural
15 fev 2019 - 0h00

Três poemas de Victor Hugo Turezo

Poeta quase menino, Victor é repórter dos bons e começa a publicar seus livros de literatura. Vale conhecer

Conheci o Victor na redação. Moleque, cabelo comprido, típico estudante de comunicação. Do tipo gente boa, que não recusa trabalho e parece se divertir com jornalismo (meu tipo favorito). Logo a gente se dá bem.

Em pouco tempo a gente está fazendo pauta junto. Convido para ajudar, ainda de estagiário, numa série sobre homicídios. Quando rola, fazemos dupla numa pauta sobre a preponderância do sertanejo nas rádios.

Mas o que descubro com o tempo é que o negócio dele é mesmo literatura. Roberto Bolaño. Literatura latino-americana. Poesia. E o menino escreve. E é bom.

Agora o Victor é parceiro do Plural. E começa a publicar livros e a chamar alguma atenção. E nada mais justo do que a gente abrir espaço aqui também pra ele. Grande menino, grande promessa e, quem sabe, grande poeta.


descobri a deficiência continental da arte
o nada de quando colocamos um material imposto
ambiente quadriculado e compassado
olhamos ali o lastro discreto da pós-sincronia
tentando torcer algo de algo
o algo da discrepância suicida contida
o torcer por aniquilar
se objeto é a categoria sensível das instalações
é senão a gentileza fugaz de um olhar
comedido e sem
                         palavra
em algum momento pararam de furar paredes
existem ainda os feixes e as sobras de madeira
e as molduras inoportunas; quem suporta uma imagem
dentro do vazio, dentro d’outro
no instantâneo momento dum olhar esburacado
na cavidade íntima, no diagrama inventado
minha cabeça repele e museu é uma palavra
que wittgenstein proferiu
                                       sentença
paro de interpretar cores e silêncios
vejo o quadro e só imagino mão-tinta-pincel
e quando por sintoma me pedem pelo direito
inofensivo de conversar sobre uma tela
respondo sim, meneio a cabeço, sim
pela inoperância de meus sentidos
importância orgânica do pouco domínio
em campos de não-palavra
profiro sim e a convulsão do objeto
bate em retirada; porque insistem em dizer
que as coisas carecem de sentido
porque convergem as cartas, moldes e vidro esverdeado
dentro dum movimento único-uníssono
prostrada em quatro lados acessíveis
aos que cospem embaixo de taças
                                                     quebradas.


não consigo mais acreditar em constelações
em planetas distantes orbitando cidades sem luz.
vírgulas e parágrafos e letras e pontos de interrogação
a radiografia de um texto metafórico
sobre o movimento dadaísta
me mantém doente.
tenho a impressão de ter estabelecido nós sistemáticos
enrubesço com o mínimo artístico
com a irrelevância.
o degradante me converteu
o sujo me expôs.
quero revitalizar a minha incongruência
tudo não é e deixou de ser.
resvalo na autocomiseração.
não ligo.
não importa a métrica e a sonoridade de um poema.
não importa a revolução que você planejou.
não importa a complexidade lexical do teu vocabulário
não importa o livro que você recomendou
não importa o mapa que você traçou.
não importa.
não verto mais nada.


e coloca o cabelo atrás da orelha
a mão como régua da página
lê cinco sílabas e é sintomático
diagnostica a minha insensatez
com um poema do allen ginsberg.
sei que uma vez você atravessou
dois países num carro amarelo
somente fazendo prognósticos aleatórios
sobre dias nublados no verão
e que você sentava no banco do passageiro
e via coisas verdes se subtraírem no espaço
e dizia que a solução para parte
dos homicídios que acontecem
dentro de apartamentos com quartos
de quinze metros quadrados
é diminuir a quantidade de sentenças imperativas
no café da manhã
que é emergencial queimar livros de mil páginas
e limpar estantes cheias de pó
e que só é possível cavoucar poesia dentro de corpos
que não suportam mais.

(o primeiro poema é do livro inédito ‘existe uma cratera para cada sintoma do mundo’ e os dois outros estão em ‘minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro’, publicado pela patuá, em 2017)


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