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Nos cinemas: “Amor à segunda vista” e “Um homem fiel”

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“Amor à segunda vista” vai contra todas as ideias preconcebidas que alguém pode ter de um filme francês (e entendo que muita gente ache isso uma qualidade). Para encurtar o argumento: trata-se de um filme francês tentando se passar por uma comédia romântica americana, e falhando miseravelmente.

Não vou citar nomes de personagens e atores porque não vale a pena: a história fala de um casal jovem com uma vida legal que, de repente, degringola. Ele é um escritor de sucesso com livros de fantasia. Ela é professora de piano. O sucesso sobe à cabeça do rapaz e ele vira um “babaca” (diz a moça casada com ele). Um dia, de maneira inexplicável, ele acorda numa realidade paralela em que não está mais casado com ela e não é mais um escritor de sucesso, e sim um professor de literatura numa escola cheia de dificuldades. A moça, porém, é uma pianista de sucesso nessa outra realidade, e ela não faz ideia de que o rapaz existe. A partir disso, ele vai tentar reconquistar a moça, acreditando que assim conseguirá recuperar a vida que perdeu.

O enredo se parece com uma dúzia de outros, mas ainda assim o filme poderia ser divertido, coisa que ele não é. São quase duas horas que se arrastam interminavelmente.

“Eu não aguento mais”, disse a certa altura uma senhora atrás de mim antes de se levantar e sair da sala, deixando duas amigas para trás. Eu teria feito o mesmo se pudesse.

A quantidade de clichês é tão grande e os personagens principais, tão sem graça, que você está liberado para mexer no celular durante a sessão. É isso aí. Vá em frente e dê uma olhada no Instagram, reclame do filme para alguém no WhatsApp e lembre que eu avisei. (Só cuide para não perder as cenas com Benjamin Lavernhe, o ator que faz o melhor amigo do protagonista. É a única coisa que vale alguma coisa nesse filme.)

“Amor à segunda vista” é vazio. “Um homem fiel”, não.

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Inteligente sem ser pedante, “Um homem fiel” lida com temas grandes – amor, separação, morte, reconciliação – com delicadeza e humor. É uma comédia romântica despretensiosa até no tempo de duração: uma hora e quinze minutos que passam voando.

Bem no começo, Abel (Louis Garrel), o homem do título, recebe duas notícias grandes de Marianne (Laetitia Casta), a mulher de sua vida: ela está grávida e o pai do bebê é o amigo de Abel.

Com calma, Abel presta atenção no que Marianne tem para dizer, ouve que eles decidiram casar porque a família do amigo é conservadora, ouve que o casamento será o quanto antes por causa da gravidez e que, dentro de dez dias, Abel precisa sair do apartamento que divide com ela.

Então ele faz as malas e vai embora.

Nove anos depois (e com apenas seis minutos de filme), o amigo que engravidou Marianne morre e Abel, apesar de ter mantido distância do casal, considera se reaproximar dela. Para complicar mais um pouco, Ève (Lily-Rose Depp, filha de Johnny Depp), a irmã do amigo morto, resolve declarar seu amor por Abel.

Não chega a ser um triângulo amoroso, mas é essa história que vai colocar à prova o amor de Abel por Marianne.

Garrel escreveu o roteiro – com Jean-Claude Carrière, um senhor roteirista – e dirigiu o filme, além de interpretar o papel principal. Não bastasse ser um sujeito bonito e carismático, é também um bom cineasta (puxou ao pai, Philippe). Ele gosta de histórias simples e se dedica aos pequenos acontecimentos: uma queda que a gente não vê mas ouve, um sorriso desajeitado e não correspondido, um aperto de mão que quase não acontece… Nada é exagerado. Ninguém grita para chamar atenção. O filme é foi uma boa companhia e acabei sentindo falta dele depois.

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“Amor à segunda vista” estreou no Cineplex Novo Batel (17h15 e 21h) e no Espaço Itaú de Cinema (16h40 e 19h).

“Um homem fiel” está em cartaz no Cine Passeio (14h), no Cineplex Novo Batel (17h15 e 21h05) e no Espaço Itaú de Cinema (16h e 20h).

É bom dar uma conferida nos horários das sessões antes de sair de casa.

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Sobre o autor

Irinêo Baptista Netto

Irinêo Baptista Netto (1978) escreve sobre livros e filmes para o Plural. É jornalista e doutor em Estudos Literários com pesquisa baseada na obra de Joseph Mitchell (1908–1996), autor de “O segredo de Joe Gould” que desbravou o jornalismo literário entre as décadas de 1930 e 1960, nos Estados Unidos.

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