Em passagem por Curitiba, para um show no Teatro Guaíra, a cantora Maria Gadu presenciou uma situação de truculência policial no Largo da Ordem, onde amigos seus foram agredidos e quase presos. A ação da PM, na última sexta-feira (20), motivou crítica de um fã durante apresentação musical da cantora, que acabou por se posicionar politicamente durante seu show. Com exclusividade, Maria Gadu fala ao Plural sobre o que viveu por aqui.
“Fomos pegos de surpresa. Estávamosassistindo uma apresentação artística, no encerramento do ato pela Greve Mundialpelo Clima, quando alguns colegas viram os policiais batendo em uma moradora derua. Um dos nossos amigos foi perguntar o porquê da violência, e foram supertruculentos com esse amigo que estava com uma câmera no pescoço. Bateram nele eele caiu”, relembra a cantora.
Foi quando, conta ela, o grupo(de 15 pessoas) se aproximou para contestar a violência contra a moradora de rua(que segundo os policiais estaria usando crack na região) e também contra ofotógrafo agredido. Neste momento, registrado em vídeos, os policiais empurramalgumas pessoas e tentam levar um dos rapazes presos, por estar filmando aação. “Inclusive mulheres foram agredidas pelos policiais”, afirma Gadu.
Uma das vozes mais populares daMPB, indicada duas vezes ao Grammy Latino, paulistana e moradora do Rio deJaneiro, ela diz já ter presenciado algumas atuações truculentas da políciacarioca, porém, em situações de manifestações maiores. “Mas dessa forma, íntimae gratuita, com tanta violência, não.”
Ela revela que a sensação foide impotência, injustiça e medo. “Uma tristeza também...por essa falta dediálogo e compaixão.”
Sobre o posicionamento do fã,durante o show no Teatro Guaíra, Gadu revela que já houve situações semelhantesem suas redes sociais, mas em show nunca. “As pessoas podem se manifestar comoquerem, mas sabendo do meu posicionamento político, existencial, ele ter ido eter se incomodado com esse fato violento, e ter retrucado dessa forma, foi umadicotomia infeliz”, avalia.
Agredidos
Dois dos agredidos durante aação policial também se manifestaram ao Plural. Um deles, assessor do deputadoestadual Goura (PDT), chegou a registrar um boletim de ocorrência. “Eles agredirama usuária de drogas com um chute e o fotografo registrou. Saíram e voltarampara abordar novamente a mulher, que continuava ali. Nisso, voltamos aregistrar as imagens e um dos policiais o agrediu com um soco, que o fez cair.Perceberam que foram registrados e se sentiram ameaçados”, conta ele, queprefere não se identificar.
“Ele me dá voz de prisão poreu simplesmente estar filmando. Recebi uma chave de braço. Começou a confusão eeles desistiram de me levar, mas nesse momento acabaram agredindo também umagarota, que foi ao chão.”
A garota em questão, que também preferiu não se identificar, reforça que tudo aconteceu ao final de uma apresentação artística, ligada ao ato da Greve Geral pelo Clima. No momento em que os policiais tentaram levar o rapaz, houve reação por parte do grupo, composto por 10 mulheres. “Eu disse para não levarem ele, pois não tinha razão para prendê-lo. Nesse momento, um dos policiais me pegou pelas costas e me jogou no chão. Eles chegaram a pegar a arma. Foi assustador; surreal”, afirma.
“Foi um grande abuso deautoridade, falta de diálogo. Os policiais estavam muito alterados, parecia quetinha tomado algo. Estavam muito mau preparados, primeiro por chegar batendo emuma moradora de rua, usuária de drogas. Você pensa que a polícia vai teproteger mas ela te dá medo”, confessa.
“Esse foi um caso queaconteceu no Centro de Curitiba, envolvendo pessoas públicas e conhecidas, masessa abordagem truculenta se dá diariamente, especialmente nas periferias, e ninguémfica sabendo”, destaca o assessor.
Má interpretação
Na visão do advogado criminalista e professor de Direito Penal na PUCPR, Eduardo Miléo, especialista em Direito Penal Militar, há uma falta de diálogo e má interpretação de ambos os lados. "A tomada de decisão policial acaba sendo ofensiva à população, que pouco conhece da atividade policial. A técnica militar diz que quanto mais o policial demonstra a força, menos força ele precisa utilizar. E isso nem sempre é bem interpretado. Mas há uma apuração interna muito rígida para toda atuação policial e com certeza isso será investigado”, analisa Miléo.
“As técnicas policiais àsvezes ofendem, mas são técnicas-padrão repassadas. As pessoas reclamam dopolicial mostrar a arma, mas ele é orientado assim. Quando uma pessoa seaproxima muito de um policial, ela será repelida e isso é necessário para aprópria segurança, para que a arma não seja retirada e usada contra ele mesmoou contra a população.”
O advogado lembra ainda que apolícia trabalha sob pressão. “Eles trabalhamà exaustão, com equipamentos vencidos, com armas que falham, falha decomunicação. Qual a possibilidade de um homem que combate o crime com todos estesproblemas”, questiona. “O estresse os acompanhae vemos muitas baixas por estes problemas. Um serviço naturalmente estressantee com todas estas mazelas, além dos salários baixos, é um alerta.”
Segurança emite nota
Procuradas pela reportagem,Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp/PR) e Polícia Militar do Paraná(PM/PR) emitiram nota a respeito.
O 12° Batalhão da PM sustenta que abrirá um procedimento para apurar o ocorrido. “A unidade se reserva a não detalhar informações da situação sem a completa apuração dos fatos e sem ouvir os policiais militares. A Polícia Militar preza pelo bom atendimento à população, amparada na legalidade e no respeito aos direitos humanos. A PM lembra que a abordagem, que pode ser feita a qualquer cidadão, é uma forma de evitar crimes e identificar criminosos.”
Já a Sesp assegura que o assunto envolvendo pessoas em situação de rua é recorrente e que o tema foi tratado em reunião ontem (23), na qual participaram a PM e a Fundação de Ação Social (FAS). “No encontro, foi tratado sobre formas de atendimento a este público e sobre a necessidade do desenvolvimento de mais políticas públicas voltadas a ele.”
A denúncia de agressão foi recebida pelo secretário Romulo Marinho Soares e, segundo a Sesp, encaminhada para o Subcomado Geral da Polícia Militar “para avaliação e tomada de providências”.