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Pânico satânico pode ter deixado impune por 20 anos assassino da menina Giovanna

"Eu sabia que aqueles achados no cadáver eram nada mais que assinaturas do crime”, diz advogado de acusados na época; jornalista Ivan Mizanzuk analisa impactos do pânico moral na investigação de crimes contra crianças

Pânico satânico pode ter deixado impune por 20 anos assassino da menina Giovanna
Ação da PCPR que prendeu Martonio em Londrina na quinta-feira (18). Foto: Divulgação PCPR

“Morte em ritual macabro”, dizia manchete de um jornal paranaense em julho de 2006, quando a Polícia Civil concluiu as investigações do assassinato de Giovanna dos Reis Costa, de 9 anos, cometido em Quatro Barras, região metropolitana de Curitiba, em abril daquele ano. A investigação apontava quatro ciganos como responsáveis pela morte da menina em um ritual de “magia negra”. Três deles foram julgados e absolvidos em 2012; a quarta era uma adolescente.

Diante da falta de provas, o caso acabou arquivado. Mas o nome de um suspeito, que chegou a figurar no processo, nunca saiu do radar do advogado criminalista Cláudio Dalledone Jr., que defendeu os ciganos. Agora, 20 anos depois, prestes a prescrever, o caso ganhou novo rumo - ou o rumo certo.

Dalledone Jr. relembra que as características do crime, apontadas como indícios de “magia negra”, sinalizavam a atuação de um assassino em série. “Eu sabia que aqueles achados no cadáver eram nada mais que assinaturas do crime, enquanto o promotor trabalhava na perspectiva de um ritual de magia negra para extrair sangue para sustentar um casamento cigano”, relembra.

O corpo de Giovanna foi abandonado em um matagal, em posição fetal. Ela tinha os cabelos cortados e ferimentos na região vaginal. Nesta quinta-feira, 19 de fevereiro, Martonio Alves Batista, de 55 anos, foi preso pelo crime em operação da Polícia Civil do Paraná (PCPR), em Londrina, norte do Estado.

Ação da PCPR na pastelaria de Martonio Batista. Foto: Divulgação

Contaminação pelo pânico

Martonio chegou a ser investigado pelo crime na época, mas “ocorreu o fenômeno do pânico satânico”, lembra Dalledone Jr. “Esse Martonio sempre figurou como principal suspeito, entretanto, dava muito mais manchete ter o ingrediente do ‘pânico satânico’”, afirma. Até mesmo a comunidade cigana internacional foi afetada pelas suspeitas contra os brasileiros, diz o advogado: “Isso que não tínhamos internet na época”, mensura.

O jornalista e professor Ivan Mizanzuk adentrou o universo do “pânico satânico” em pesquisas para seus podcasts O Caso Evandro, O Caso Leandro Bossi e Os Meninos de Altamira - todos sobre mortes violentas de crianças. Ele chegou a ter acesso aos autos do crime contra a menina Giovanna dos Reis e concorda que a investigação seguiu uma linha semelhante à dos demais casos, com pessoas sendo acusadas de rituais enquanto os verdadeiros criminosos permaneciam impunes.

“Os prejuízos que isso traz são de que, infelizmente, esses casos têm explicações muito mais lógicas e, ao meu ver, muito mais perversas”, pontua Mizanzuk.

“São crimes tão horríveis que pega no viés de confirmação de quem está investigando, num ponto muito sensível, e a pessoa não consegue entender como pode haver tanta crueldade assim. A única resposta que ela entende é que, para fazer uma coisa tão cruel, só se for um satanista. Daí entra toda sorte de preconceitos enraizados naquela sociedade. No caso do Brasil, vai ser o Pai de Santo, vai ser o cigano; no caso nos Estados Unidos era muito comum serem apontados metaleiros e jogadores de RPG - isso nos anos 1980”, detalha.

O advogado Cláudio Dalledone Jr. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

“Seita satânica”

Quando assumiu a defesa dos ciganos em Quatro Barras, Claudio Dalledone Jr. conhecia na prática esse tipo de processo. Ele havia atuado na defesa de Valentina de Andrade, apontada como líder de uma seita satânica responsável pelo assassinato de meninos na cidade de Altamira, no Pará, nas décadas de 1980 e 90. O julgamento o caso dos meninos emasculados ocorreu em 2003 e Valentina acabou inocentada. Outros três acusados foram condenados e a sentença mantida mesmo após a prisão do real assassino, Francisco das Chagas Rodrigues de Brito.

Assim como no caso de Altamira, o pânico satânico que impediu uma investigação realista sobre o assassinato de Giovanna dos Reis fortaleceu o criminoso, opina Dalledone Jr. 

“O fato dele (Martonio) não ter sido alcançado pela autoridade policial fez com que ele fortalecesse sua saga criminal, porque ele falava ‘Eu matei e nada me aconteceu’”, afirma. Para Dalledone Jr., a justiça precisa ser incisiva na busca por respostas para evitar que crimes assim se perpetuem. “Teve absolvição, tem que descobrir quem matou”, sintetiza.

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Do ritual ao real

Ivan Mizanzuk abordou com profundidade os efeitos da injustiça em seus podcasts sobre mortes de crianças. Seu trabalho em O Caso Evandro levou à revisão criminal de Beatriz Abagge e outras três pessoas condenadas injustamente pelo crime.

Ele explica que, embora não existam estudos muito aprofundados sobre pânico satânico no Brasil, esses casos ocorrem com certa frequência, causando diversos prejuízos.

“Essas crenças pessoais atrapalham muito o olhar frio da investigação, que deve olhar para todas as provas e olhar justamente que, se uma criança foi morta de maneira muito brutal, não é de se descartar a possibilidade de ela ter sido abusada sexualmente; e se ela foi abusada, provavelmente foi por alguém conhecido, ou alguém que tinha acesso a essa criança de alguma maneira. Quem seria essa pessoa então; qual é o círculo em torno daquela criança? E são sempre investigações muito difíceis, muito dolorosas, as famílias sofrem muito e querem justiça, com toda razão. Só que, infelizmente, às vezes o Estado prefere um inocente preso, mas que dê uma resposta para a sociedade, do que ir atrás do verdadeiro assassino”, avalia.

O jornalista Ivan Mizanzuk. Foto: Divulgação

Busca por resposta

Em 2018, Martonio Alves Batista foi preso pela Polícia Civil por importunação sexual após instalar câmeras no banheiro feminino da pastelaria em que trabalhava, em Paiçandu, também no norte do Paraná. (https://www.facebook.com/watch/?v=1641862122547804) . O comentário de uma mulher na publicação sobre o caso chamou a atenção da equipe de Cláudio Dalledone Jr.

“Eu nunca desliguei desse caso, fiquei investigando. Em 2018, quando ele é preso por importunação sexual, dentro de uma das notícias de Facebook tinha uma mulher dizendo ‘Até que enfim, você vai começar a pagar pelos crimes que cometeu’. Eu fiz contato e ela me contou que era filha de uma ex-mulher dele, que havia sido abusada sexualmente dos 9 anos até o 15 anos por ele”, relata Dalledone.

A jovem tinha o mesmo nome da pequena Giovanna, coincidência que contribuiu para fortalecer a denúncia contra Martonio, já que ele a ameaçava dizendo que “já tinha matado uma Giovana e ela seria a segunda”. “A Giovana sobrevivente duvidava que existia essa Giovanna que ele falava. Quando eu disse que existia mesmo, ela desabou”, relata o advogado.

Dalledone Jr. documentou os relatos e entregou os achados à polícia, possibilitando a resolução do caso pouco antes da prescrição. Advogado de defesa dos ciganos à época dos crimes, ele agora defende os interesses da família de Giovanna dos Reis e se declara feliz com a prisão de Martonio Alves Batista. Segundo ele, os familiares também estão animados com a possibilidade de, enfim, conseguirem justiça.

“Até recebi algumas declarações da mãe e da prima da Giovanna, que teria hoje 29 anos. Eles não imaginavam que tinha alguém em busca desse cara”, conta.

De acordo com Dalledone Jr., a história deve ser transformada em uma série documental por uma plataforma de streaming.

Cecília França

Cecília França

Jornalista há 20 anos, é especialista em Direitos Humanos.

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