Entre os meses de maio e julho de 2025, a cidade de Londrina, no norte do Paraná, foi a casa da atriz Ayomi Domenica (melhor atriz no Festival de Cinema de São Bernardo por “Levante”) e de Brenda Ligia Miguel (melhor atriz no Festival Ribacine por “Causa Mortis”), mãe e filha na série ficcional “Na Batalha”. O elenco da série conta ainda com a cantora e compositora Negra Li, com o ator curitibano Leandro Daniel (vencedor do Festival de Cinema de Gramado por “Jesus Kid”) e com Digão Ribeiro (“Praça Paris” e “Encantadas”).
Criada e roteirizada pela jornalista Alessandra Pajolla, “Na Batalha” tem direção de Thatiane Almeida, a Sabothati (“Cidade de Deus"/HBO Max e "PassinhoFoda"/Netflix) e encontra-se em fase de pós-produção. A série exalta a cultura de rua, a vivência coletiva nos territórios periféricos e aborda outros temas atuais, como a violência policial, o avanço do neopentecostalismo e a violência contra as mulheres.
O enredo parte da angústia da protagonista Rosana (Ayomi Domenica) em atender às expectativas da família tornando-se uma estrela da música gospel ou abraçar a rima como forma de expressão. As gravações envolveram mais de 750 pessoas e, junto com o elenco nacional, reuniu estrelas do hip hop londrinense, como Cleópatra, Dayo e Preta Mar.

Batalha de rima em Londrina?
Atrizes nacionais envolvidas na série se surpreenderam com o fato de uma cidade do Sul do Brasil, identificada nos últimos anos com o conservadorismo, manter um circuito de batalhas de rima tão potente. “Eu fiquei impressionada, impactada, de ver o que eu encontrei aqui: esses jovens nesse universo de batalha, fazendo não só arte, mas representando a resistência”, contou Brenda Lígia Miguel em entrevista concedida ao final das gravações.
“O que é o cenário da batalha de rima em Londrina a gente só conhece estando aqui, vendo a qualidade desses artistas. Aí a gente entende como a frequência, a dedicação, a insistência, a resistência dessa cultura imprime e revela esses artistas. Trabalhando com essas pessoas foi que eu entendi a seriedade do que é feito”, declarou Ayomi Domenica.
Londrina mantém um circuito de mais de 14 batalhas de rima recorrentes, em todas as regiões da cidade, driblando a opressão e o preconceito. Muito dessa história teve início em uma área central, a Concha Acústica de Londrina - mesmo local onde “Na Batalha” começou a nascer.

“Eu fazia alguns cursos ali no Centro, por volta de 2015, via jovens batalhando e comecei a achar interessante. Isso ficou no meu radar, esse tipo de expressão potente. Fui fazendo entrevistas, pesquisas e levantando ideias para os personagens dentro do tipo de dramaturgia que eu tinha interesse. A série ‘Na Batalha’ é ficcional, mas tem muita realidade”, conta Alessandra Pajolla.
A Batalha da Concha viria a ser expulsa do local que lhe deu nome, mas a faísca despertada em Pajolla incendiou anos depois, com a possibilidade de transformar a ideia em roteiro e obter financiamento federal pela Lei Paulo Gustavo.
Para a roteirista, as leis de incentivo à cultura têm possibilitado a produção de projetos como “Na Batalha” com a mesma qualidade daqueles produzidos tradicionalmente no eixo Rio-São Paulo.
“A série tem todos os elementos de uma boa dramaturgia, mas também tem o desejo de provocar reflexão, de mostrar o quanto a arte é importante. O hip hop salva mesmo vidas – os rappers costumam dizer isso e, de fato, é assim. Existem muitas histórias de superação através da arte”, finaliza Pajolla.

Ayomi Domenica rimou pela primeira vez em Londrina
A atriz rimava de brincadeira, como exercício de presença em ensaios de peças de teatro, por exemplo. Em uma das oficinas para viver a protagonista de “Na Batalha”, porém, Ayomi Domenica foi pega de surpresa. Filha de um dos maiores nomes do rap nacional, o rapper Mano Brown, ela rimou a sério pela primeira vez na Batalha da Máfia, organizada por um coletivo de MCs mulheres.
“Fomos com nosso preparador de elenco, Gabriel Bortolini, a princípio, olhar a batalha. A gente ia ficar em volta, sentir o público, e quando vimos, nossos nomes estavam inscritos na lista e a gente batalhou! Sorte que estávamos em dupla, um ator ou atriz e um ou uma MC já experiente. Foi muito transformador, muito importante”, relevou ela, em entrevista no fim das gravações.
Domenica conta que evitou por muito tempo experienciar a cultura hip hop artisticamente, embora seja apreciadora e vivencie o rap no dia-a-dia.
“Eu me protegi muito dessa relação profissional com o rap, com o hip hop, porque já vivenciava o descrédito sendo artista, mesmo exercendo uma profissão que não é a do meu pai, um profissional do rap há mais de 35 anos. Então eu me defendia muito dessa relação íntima. A série foi essa grande oportunidade, maravilhosa, providencial, de olhar para isso de uma forma íntima e compreender que isso me compõe profundamente, que isso é também a minha história, a minha ancestralidade; é parte significativa de quem eu sou”.
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Vida real na tela
Uma das estrelas do hip hop londrinense, Preta Mar trabalhou tanto nos bastidores de “Na Batalha” quanto em frente às câmeras, interpretando ela mesma. Embora já tivesse experiência no audiovisual com a gravação de videoclipes, por exemplo, a possibilidade de atuar em algo grandioso como uma série foi transformadora.
“Eu vejo a série como uma possibilidade de sonhar. É uma experiência muito nova, muito doida, ver tudo que a gente já vive, o nervosismo de estar rimando, mas em outro cenário, o cinematográfico. Me abriu muitas possibilidades de sonhos, tanto para trabalhar no off, com produção de elenco, como investir sim numa possibilidade de estar ocupando mais espaços como atriz, quem sabe uma cantora-atriz”, revela.
Preta Mar espera que a grandiosidade do circuito de batalhas de rima de Londrina seja conhecido e reconhecido, tanto fora quanto na própria cidade.
“Assistindo alguns takes, acho que a galera vai curtir muito. Traz muitas realidades individuais que se somam em coletivo. Acredito que vai ser algo muito bonito, algo que as pessoas vão se sentir representadas, principalmente de ver pessoas que estão compondo esse elenco, pessoas reais, pessoas daqui, que a gente conhece a história, que a gente vê construindo, vê no corre”.
Abaixo o preconceito
Brenda Ligia Miguel acredita que a série tem potencial para mudar a percepção social sobre o hip hop e os artistas que vivem dessa cultura.
“Acho que depois dessa série as pessoas vão olhar para o universo de batalha de rimas com mais carinho, sabendo mais da luta que vem dali, sabendo que o hip hop salva vidas, assim como a igreja também salva vidas. Se pensarmos no paradoxo da série, do núcleo gospel e do hip hop, muitas pessoas têm suas vidas impactadas - em igual proporção, eu arriscaria dizer - pela igreja e pelo hip hop”, acredita.
A roteirista Alessandra Pajolla espera que a série ajude a reduzir preconceitos com a cultura hip hop, a cultura de rua.
“Eu lamento quando vejo cenas de preconceito em relação ao hip hop, porque o que se faz ali é muito potente, muito criativo. A gente tem uma juventude periférica iluminada aqui em Londrina e passou da hora de a gente ter uma série que retrate esse universo”, finaliza.
Na Batalha conta com seis episódios de cerca de 40 minutos cada e tem produção da Condessa Filmes.