Quando chegou ao grupo de jornalistas, a notícia da doença do Jorge Javorski foi devastadora. Deu para ver de cara, pelo jeito como a esposa Regina e o filho Bruno contaram, que era algo grave. E ninguém, no mundo, poderia desejar algo grave para o Jorge.
O grupo de WhatsApp só existia, na verdade, por causa dele. Muita gente ali talvez não se dispusesse a falar com todas aquelas pessoas - mas ele fornecia a cola que permitia a convivência de gente muito diferente, com ideias às vezes opostas, e tudo de uma maneira civilizada e comedida.
Modesto, educadíssimo, Jorge Javorski tinha uma espécie de carisma discreto. Sem estardalhaço, sem alarde, conquistava todo mundo que entrava na redação da antiga Gazeta do Povo, onde nos conhecemos. Setorista de saúde, era respeitado pelos médicos - sabiam que ele entendia do assunto; e pelos colegas, principalmente pela falta de estrelismo.
Ninguém podia querer algo de mal para o Jorge, e por isso nos dias seguintes o grupo ficou cheio de mensagens desejando recuperação rápida. Não era da boca para fora. E isso ficou claro quando as notícias foram piorando e todo mundo entendeu que não haveria mais volta.
Em questão de dias, o que parecia mera dor abdominal virou fraqueza; depois veio a suspeita de hepatite, mas os exames mostraram que se tratava de coisa bem mais grave, um câncer pancreático que havia progredido para o fígado e que estava em estágio terminal.
Depois da descoberta do câncer, Jorge não chegou a viver mais uma semana. Faleceu na última quinta (22), aos 66 anos, e deixou uma lacuna no jornalismo local.
Regina, a viúva, contava orgulhosa aos mais novos, no dia do velório, a carreira de Jorge. A cobertura do primeiro transplante cardíaco no Paraná. A reportagem sobre o primeiro transplante de fígados intervivos. Os primeiros tempos da epidemia da aids. Milhares de matérias falando sobre ciência, medicina, cura.
A preocupação com a saúde talvez tenha vindo da história pessoal. Quando criança, Jorge foi vítima da poliomielite, numa época em que a doença já começava a ser rara no Brasil. Passou a vida com dificuldades para andar - cada passo era um risco, e muitas vezes acabou com ferimentos graves. Numa reportagem, escorregou e teve fratura exposta.
Sofreu também com o diabetes, com a epilepsia. Nos últimos anos, com o agravamento dos problemas causados pela paralisia infantil, acabou precisando de uma cadeira de rodas, o que levou a toda uma adaptação da casa e da rotina do casal.
A jornalista Brisa Teixeira, que trabalhou com ele como assessora de imprensa, diz que Jorge brincava com suas limitações. "Eu corria para lá e para cá e o Jorge dizia que eu era as pernas dele", conta.
Na redação, apesar dos problemas que enfrentava, sempre manteve o bom humor. Paranista, falava sempre de futebol. Apaixonado por música, era fanático por MPB e rock.
Com seu indefectível bigode e, mais tarde, a bengala, subiu durante anos as escadas da antiga redação da Gazeta para trabalhar sem jamais reclamar. Ia para a rua atrás da notícia como se tivesse as pernas perfeitas, e mesmo sabendo que havia riscos reais para sua saúde.
Quando o jornal resolveu cobrar exclusividade dos repórteres, em 2004, viu que o salário já não compensava e pediu para ser demitido. A editora Andréa Morais conta o que aconteceu no último dia de trabalho do colega.
"O Jorge protagonizou a maior cena de carinho e reconhecimento que vi numa redação. Tudo estava em silêncio quando ele se levantou para ir embora. De repente, começaram os aplausos de todos os colegas, muitos em pé e emocionados. O Jorge, timidamente, foi agradecendo com gestos e olhares, e saindo", lembra.
Nesta quinta, Jorge teve mais uma despedida. Os amigos, e foram muitos, velaram seu corpo no Memorial Luto Curitiba.
Jorge deixa a esposa Regina e o filho Bruno.