João da Silva é um nome fictício, usado aqui para proteger a identidade de um menino que hoje tem catorze anos. Aos doze, ele foi vítima de abuso sexual na Paróquia Imaculada Conceição, no Guabirotuba, em Curitiba.
João começou a frequentar a Igreja Católica por influência do pai, Arnaldo da Silva (nome fictício), que vem de família religiosa. Ele, a esposa e o filho desenvolviam diversas funções na paróquia e dedicavam boa parte do tempo livre para os trabalhos na comunidade.
Desde os oito anos João era coroinha. Os coroinhas atuam como auxiliares do padre, que preside as missas, a celebração mais importante para os católicos.
Para organizar escalas e detalhar a função de cada coroinha no altar, as paróquias costumam ter como responsável um membro da comunidade. Na Imaculada Conceição, quem desempenhava esse papel era Wily Rocha (também um nome fictício para preservar a vítima).
A proximidade com as crianças não levantou suspeitas do comportamento predatório de Wily, que só foi descoberto por acaso.
João utilizava um celular de segunda mão, que antes tinha sido de seu pai. Mas o aparelho estava quase sem memória e a família decidiu comprar um novo para o menino.
Na transferência de arquivos de um celular para outro a mãe de João, Maria da Silva (nome fictício), viu uma foto do filho nu e resolveu pesquisar mais: acabou encontrando um vídeo de Wily manipulando o próprio pênis.
Quando o casal questionou o filho, a criança revelou que vinha sendo vítima de Wily.
Investigação
Um boletim de ocorrência foi registrado em 26 de janeiro de 2024, na sede do Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria), em Curitiba. Conforme a denúncia, em dezembro de 2022, Wily pediu ao menino que mandasse fotos íntimas.
As investidas continuaram até que, em agosto de 2023, durante um casamento na Igreja, o acusado teria praticado estupro de vulnerável contra a vítima, por meio de sexo oral nas dependências da Igreja. Depois disso, ocorreu a troca de fotos.
Partindo dessa denúncia, quase um mês depois, a Polícia Civil prendeu o acusado, que à época tinha 24 anos. A investigação apontou que ele era suspeito de estupro de vulnerável e promoção de cena de sexo explícito ou pornográfica. O Ministério Público do Paraná ofereceu denúncia contra o suspeito em 27 de fevereiro de 2024, conforme informações da Secretaria de Segurança Pública do Paraná.
O acusado ficou preso até outubro de 2024, quando voltou para o bairro Guabirotuba e chegou a retornar à Igreja, que não é mais frequentada pela família.
Em janeiro, o celular de João foi entregue para a Polícia Civil do Paraná. Em fevereiro foi apreendido o aparelho do homem acusado dos crimes. A ideia era que ambos passassem por uma perícia técnica da Polícia Científica para recuperar troca de mensagens e checar a veracidade das fotos, o que, até a publicação desta reportagem, em novembro de 2024, ainda não havia acontecido.
Ao Plural a assessoria de imprensa da Polícia Científica informou que os exames em dispositivos eletrônicos são de alta complexidade “pois é necessário a quebra das senhas e extração dos dados. A quebra de senhas, por exemplo, pode demorar meses ou até anos, dependendo do nível de segurança da senha”. Ambos os aparelhos ainda estão em poder da Polícia Científica para análise e “assim que possível será finalizado o laudo e entregue a autoridade policial requisitante”.
O processo está em segredo de Justiça e por essa razão o Ministério Público não repassou informações específicas sobre o andamento dos trabalhos.
Contudo, a promotoria informou que casos como este tramitam na área de Infrações Penais contra Crianças, Adolescentes e Idosos. A família da vítima, ao Plural, lamentou a demora no avanço da caso – como resposta, o Ministério Público destacou que há mais de 3,2 mil inquéritos policiais em andamento e que todos recebem “a mesma atenção pelos agentes ministeriais do MPPR, que agem sempre no melhor interesse das vítimas e estão à disposição delas e de seus familiares”.
Tanto o advogado que representa o acusado, quanto a advogada que representa a família se negaram a dar entrevistas, embora o sigilo sobre a identidade da vítima não tenha sido violado durante a apuração desta reportagem.
Fé
Quando Arnaldo e Maria se casaram, ela não era frequentadora assídua da Igreja. O pai levava João para Igreja imaginando que assim o filho tivesse os mesmos valores fraternais.
“Eu levei meu filho para Igreja para a construção dele como pessoa. Ele é uma criança que tem um acompanhamento do pai e da mãe. E aí nós falhamos. E aí eu, como pai, falhei. Foi um susto. A religião também falhou com ele”, diz o pai.
João nunca dormiu fora de casa. Nunca foi a lugar nenhum sozinho – nem mesmo às festas de amigos da escola ou à confraternização do grupo de coroinhas. Mesmo quando não estavam com ele, os pais ficavam no carro, em frente ao local onde estava o filho.
No dia em que João afirma que o acusado praticou sexo oral nele, os pais estavam rezando na Igreja, sentados de frente para o altar. Atrás do altar, há dois banheiros e em um deles ocorreu o crime, segundo o relato do adolescente.
A paróquia deixou de ser Imaculada, ao menos para João.
Após o acusado de cometer o abuso ser preso, a família se reuniu com o pároco, que também prestou depoimento ao Nucria.
Além disso, eles procuraram a Arquidiocese de Curitiba após o suspeito ser solto. No caso de João, A Mitra Diocesana ofereceu suporte psicológico e a família recebeu orientação para que trocasse de paróquia, para evitar que criança e acusado se cruzassem. O acusado, já visitou a Igreja ao menos em uma ocasião desde que está em liberdade.
A reportagem solicitou entrevista com o arcebispo de Curitiba, Dom José Antônio Peruzzo, para falar da investigação em curso, mas foi informada que ninguém da Mitra irá se pronunciar.
Em uma nota enviada sem assinatura, a Arquidiocese disse que tomaria as “medidas legais” contra o Plural em caso de publicação da reportagem – embora os nomes da vítima e do acusado não tenham sido mencionados. “Por fim, reiteramos que todas as medidas cabíveis foram prontamente adotadas tanto pelo Pároco quanto pela Mitra Arquidiocesana de Curitiba. Esse fato pode – e deve - ser confirmado junto à delegada Dra. Gabriele Amaral”, diz um trecho do documento.
João está sendo acompanhado por psicóloga que não é ligada à Arquidiocese. Continua estudando, mas a família não frequenta mais a paróquia onde teria ocorrido o crime. A fé da criança que queria ser padre e dos pais está em xeque.
“Ele não sabe se ele acredita em Deus. Ele não sabe. Se ele acredita em espírito. Se acredita em demais é religiões (...) a minha preocupação é com a minha esposa, com a minha família. O que vai ser do meu filho daqui 23 anos? O que vai estar enraizado na cabeça e no coração dele? Como ele agirá como membro da sociedade? Essa é a minha preocupação”, lamenta o pai.
O processo segue tramitando em segredo de Justiça.