Apesar de ter empreendido pela primeira vez com uns 30 anos e, desde então, ter aberto mais seis outros negócios, eu nunca me considerei empreendedor.
É engraçado, mas a ideia que eu faço da palavra empreendedor parece combinar com muita gente, mas não tem nada a ver comigo.
Soa sério, formal, terno e gravata, camisa engomada, cabelo lambido, escritório envidraçado num prédio bonito, secretária cuidando da agenda, planilhas e mais planilhas fazendo volume na pasta de trabalho. Nada a ver comigo.
Pra piorar, nem meus ideais políticos se encaixam no que se espera de um empreendedor padrão: tenho votado pensando mais nos meus funcionários do que em mim mesmo, o que, pra muita gente, é uma incoerência. Sim, eu voto em quem defende direitos trabalhistas, cotas nas universidades e isenção de imposto de renda para os mais pobres.
Atuo no ramo de restaurantes. Nasci dentro disso, trabalhei muitos anos no dia a dia da operação. Aprendi muito com meus pais e meus tios. Sempre que me dizem “nossa, da pra sentir que você ama o que faz”, eu respondo que só faço o que faço porque nasci filho de donos de restaurantes, e se o destino me tivesse feito filho de donos de livraria eu seria escritor ou, se o destino me tivesse feito filho de funcionários públicos eu não sei o que eu teria feito da vida, mas a probabilidade de ter entrado no universo gastronômico seria nula.
Ou seja: eu só faço o que faço porque sou filho de quem sou. Coisas do destino. Aprendi a gostar. Gosto de gente, amo as pessoas que trabalham comigo. Talvez isso facilite bastante as coisas.
Há duas semanas minha mãe me disse: filho, você tá com 46 anos, tá na hora de desacelerar e curtir um pouco a tua casa, tua esposa, teus enteados e teu pequeno netinho. Sim, mãe, tem toda razão.
Ao mesmo tempo que respondia ela no telefone eu trabalhava numa logomarca do meu próximo restaurante que vai se chamar UMA OVA, um bar de frutos do mar. Pra mim, empreender não é algo racional. É um rebento. É fruto de um processo criativo que preciso botar pra fora, dar vida, é mais forte do que eu.
Ontem, repito: ONTEM, fui visitar um imóvel no Juvevê para uma possível expansão do Magrela Café. Fiquei alucinado, saí de lá cheio de ideias pra um negócio que deve ficar pronto só daqui a 2 anos caso eu aceite a proposta.
Se o mecanismo do empreendedor for igual ao do escritor, ao do pintor e ao do músico, que lançam uma série de livros, quadros e álbuns ao longo da vida, é natural que o empreendedor abra uma série de negócios ao longo da vida. Aliás, acho que nesse sentido o lançamento de um livro ou de um álbum não deixa de ser um empreendimento. Veja só, é aqui que minha profissão se mistura com a deles. Se o lançamento de um livro pode ser considerado um empreendimento, talvez a abertura de um negócio possua algo de arte em si, já que envolve processo criativo, data de lançamento, materialização da ideia e coragem para botar no mundo algo que está dentro de nós, correndo o risco de ser um fiasco total aos olhos dos outros. Obs: aqui me refiro principalmente a negócios autorais e não a franquias, que invertem totalmente essa lógica.
Assim como na arte, empreender é ato contínuo que revela as etapas da nossa vida. Os primeiros empreendimentos são mais ousados, irreverentes, inconsequentes. Depois, com a experiência adquirida, eles ganham maturidade, consistência e maior repertório. Fica mais fácil saber o que o público quer, erramos menos, arriscamos menos. Talvez um empreendedor deva ser avaliado não por um único negócio, mas pelo conjunto da obra, sua trajetória, sua evolução. E aqui entram aqueles negócios que não deram certo, que foram feitos sem alma, refletindo, ainda assim, uma fase da vida.
Olhando pro passado, não consigo mais negar que sou um empreendedor e que nessa jornada eu posso viver os mesmos prazeres de artistas que lotam as casas de shows e de escritores que veem seus livros voarem das prateleiras. E também as fases duras, claro, de negócios que não deram certo, não decolaram.
É, talvez empreender esteja longe dessa ideia de estar numa sala de vidro com cabelo lambido investindo na bolsa de valores. No meu caso, não sou inspirado por livros de CEOs nem por palestrantes motivacionais. No lugar deles prefiro flanar por aí apaixonado pela vida, inspirado pelas coisas do cotidiano, das artes, da natureza.