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Defesa do que é ou não “coisa de mulher” traz incontáveis retrocessos

A ministra de Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, causou polêmica ao defender que menino veste azul e menina veste rosa. Crédito da foto: Valter Campanato/ABr
Escrito por Daniel Medeiros
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A cultura histórica de naturalização e objetificação do corpo da mulher teve papel fundamental no estabelecimento do lugar do homem na relação social. Os homens, ainda hoje, ocupam o espaço do indivíduo que busca “estabilidade”, que “pensa” e é o mais capacitado para obter sucesso na transposição do mundo da opinião para a contemplação das coisas verdadeiras. Quando uma mulher busca o mesmo caminho, o que se percebe – na visão da masculinidade tóxica – é que há um quê de artificialismo na tentativa. Só “masculinizando-se”, alguns pensam, as mulheres conseguem alcançar sucesso em “campos masculinos”. Mas não por muito tempo. A instabilidade emocional ou a falta de estrutura para a pressão que os desafios impõem a elas, por exemplo, acabariam levando as que tentam trilhar esses caminhos ao descontrole. “Não há motivo para submetê-las a esses escrutínios, quando todos sabem que os homens é que seriam adequados para esses papeis”, continua defendendo o pensamento machista.

Quando se diz “razão”, “pensamento” ou ainda “ser”, “conhecimento” e “verdade”, há sempre um artigo masculino oculto por trás dessas palavras. Como lembra Simone de Beauvoir (1908-1986), o masculino aparece sempre como “o absoluto”. Daí a crença de que há coisas que são “de homens”, cabendo às mulheres as coisas que os homens dizem ser “de mulheres”. A condição dissemina afirmações comuns de que “isso não é coisa de mulher” ou “mulher não nasceu para isso” ou ainda “quando mulher tenta fazer esse tipo de coisa, dificilmente dá certo”. Ao homem, cabe o fardo do que, erroneamente, acaba chamando de “proteção” ou “zelo”. São muitos os que defendem às mulheres que tais posturas não são resultado de uma posição machista ou preconceituosa, muito pelo contrário: “é assim que são as coisas desde sempre”, afirmam, com a expressão serena e a voz macia de quem apenas repete “verdades milenares e irrefutáveis”.

Simone de Beauvoir

Sou um homem refletindo sobre tudo isso e dessa maneira. Eu também cresci dentro da tradição, ouvindo que “a mulher foi criada da costela do Adão”, que é a “rainha do lar”, o “sexo frágil”. Também escutei por muitas vezes que “homem não chora” – feito mulherzinha –, que meninos devem ter muitas namoradas e meninas precisam “se dar ao respeito”. Que “mulher diz ‘não’ só porque gosta de se fazer de difícil”. Cresci ouvindo tudo isso de pessoas que deviam estar me educando. Que pensavam estar me educando dentro da tradição.

Ao fazer essa reflexão, sei que sou uma voz em uma frente de batalha, sujeito ao tiroteio dos homens que se sentem traídos e das mulheres que não precisam de mim. As mulheres não precisam de um homem para dizer o que se aprontou com elas ao longo desse tempo todo. Elas próprias viveram isso. Quando elas falarem, então indico, apenas escutem.

Para me fazer entender, reproduzo o que aprendi da filósofa Adriana Cavarero quando, conversando com jovens de ensino médio, um deles perguntou: “por que temos professoras por praticamente toda a nossa infância e início da adolescência e as amamos, admiramos, mas não conseguimos respeitar as mulheres como iguais depois que nos tornamos adultos?”.

Falo como professor e afirmo que somente a escola, assumindo-se como problematizadora dessa tradição torta e tóxica – que vitimiza tantas mulheres, mas também homens – pode reconstruir o conceito de humanidade como um lugar de seres humanos sem distinção e sem vontade de submissão. Falo do lugar do professor e me sinto à vontade em crer que tudo deve ser feito para que a base masculina do pensamento possa se modificar. Afinal, como defendia o físico norte-americano Thomas Kuhn (1922-1996), “a transição sucessiva de um paradigma a outro, por meio de uma revolução, é o padrão usual de desenvolvimento da ciência amadurecida.” Façamos, portanto, como homens e mulheres, como cidadãos, a nossa parte.

Thomas Kuhn

Sobre o autor

Daniel Medeiros

Daniel Medeiros é professor de humanidades, enquanto elas existirem.

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