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Dança às escuras

Conheça o refugiado angolano cego que ensina dança a outros deficientes visuais

Por Admin
Dança às escuras
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Com passos leves e um tanto gingados, Jacob Cachingapercorre o emaranhado de corredores até chegar à sala da academia de dança emque dá aulas. Lá, alguns alunos já o esperam. Após conduzir o alongamento,descrevendo minuciosamente como deve ser a execução de cada exercício, o rapazde 29 anos conecta o celular ao cabo de uma caixa de som e seleciona umamúsica, anunciando o ritmo a ser explorado em aula. “Galera, hoje vamos dançarmerengue!”. Tudo seria absolutamente corriqueiro, se Cachinga não fosse umrefugiado angolano que perdeu a visão ainda criança e que, após se formar emeducação física no Brasil, decidiu ensinar a arte da dança a outros cegos deCuritiba. Tudo de graça.

Como professor e alunos vivem às escuras, são os outrossentidos que vão guiar o processo de aprendizado. Tudo começa com uma rápidapreleção, em que Cachinga discorre sobre as características essenciais do ritmoe explica os pormenores dos passos básicos. Mas é principalmente pelo tato queo dançarino vai corrigir o movimento de seus pupilos. No caso do merengue, porexemplo, ele dança diante de cada aluno, enquanto este lhe toca o quadril, comose a partir disso pudesse enxergar cada detalhe do requebrado, que contrastacom o tronco quase imóvel.

Assim que a turma dá mostras de ter pegado os passosbásicos, Cachinga tira cada aprendiz para dançar – desta vez, em par –,aprofundando o grau de dificuldade, conduzindo giros e fazendo pivôs. Usamínimos movimentos – toques discretos com o antebraço, costas das mãos ou pontados dedos – para sentir o corpo da dama e, por conseguinte, constatar háquantas anda a execução. A partir daí, corrige detalhes tão minúsculos que,para quem assiste, é de se perguntar: como ele pode fazer essas observações, senão enxerga?

“A gente vê de outras formas: pela audição e muito pelotoque. Um cego enxerga sentindo. A gente tem uma sensibilidade diferente”resumiu Cachinga, sorrindo por detrás de óculos escuros e debaixo de um chapéupreto que, com seu cavanhaque bem desenhado, lhe dava um estilo despojado de streetdancer.

Quando nem a percepção de Cachinga é capaz de notareventuais falhas dos alunos, entra em cena Pâmela Shiroma, que também é professorado projeto. Ela é a única integrante do grupo que enxerga e costuma intervirsempre que se faz necessário aperfeiçoar o movimento de alguns dos aprendizes.Corrige detalhes que jamais poderiam ser captados por um cego, como uma jogadade cabeça ou uma passada de mão pelos cabelos. A dançarina profissional, porsua vez, teve que passar a pensar como um deficiente visual para ensinarmelhor.

“A partir daí, eu comecei a perceber não só a visão, mastodos os outros sentidos. Hoje, eu não preciso só da visão para dançar. Eudanço com os outros sentidos também”, disse. “Eventualmente, vem algum alunoque enxerga e sai daqui completamente maravilhado com a experiência”,completou, apontando que o projeto também está de portas abertas aos que veem.

O projeto

Chamado “Dançar sem ver”, o projeto está em vias decompletar três anos. Foi criado por Pâmela e Cachinga em 2016, assim que eleconcluiu o curso de educação física. O trabalho é totalmente voluntário. Osalão das aulas é cedido gratuitamente – atualmente, pela escola Cenário EspaçoArte – e os professores nunca ganharam um real sequer para tornar a dançaacessível a deficientes visuais. E a iniciativa vai além das aulas: o grupocostuma a ministrar oficinas de inclusão em escolas públicas.

No ano passado, o projeto chegou a ser aprovado em um editaldo governo do Paraná, mas não foi contemplado com recursos. Para se manter, oprofessor atua como personal trainer e dá aulas particulares de dança.“O ruim é que, quando bate a crise, isso é a primeira coisa que as pessoascortam. Aperta um pouco, mas está tudo certo”, apontou Cachinga, comindissociável otimismo. “Mas um patrocínio não seria nada mal”, acrescentou.

A ideia que deflagrou o “Dançar sem ver” ocorreu a partirdas próprias observações do professor. Cachinga notou que, em festas e baladas,os cegos permaneciam quase à margem, apenas comendo ou bebericando. Ponderou,então, que as aulas poderiam ser uma ferramenta de inclusão. Em pouco tempo, ainiciativa ganhou adesão maciça. Ele estima que os deficientes visuais que jápassaram pelo salão do projeto se contem às dezenas. No ano passado, os alunoschegaram a se apresentar em um festival, no Teatro Fernanda Montenegro,dançando um ritmo desafiador: o samba.

“Não tem um cego que esteja, hoje, dançando em Curitiba quenão tenha passado pelas nossas mãos”, orgulhou-se. “Quando eu os vi no palco dofestival, eu não resisti e chorei”, disse Pâmela.

Alguns alunos não sabiam sequer que seriam capazes dedançar. É o caso da massoterapeuta Luzia da Luz Silveira, de 50 anos. Viúva,mãe de quatro filhos, ela começou a frequentar as aulas no ano passado. Nosdias de aula, guiada apenas pela própria bengala, vai sozinha à escola de dançae já planeja desbravar outros ritmos. “Eu nunca tinha dançado. Agora, não possoouvir música que já começo a balançar. Eu me redescobri”, disse. “Mais prafrente, eu quero fazer dança do ventre e pole dance”, adiantou.

Outra aluna frequente, Hellen Mieko Hamada, de 31 anos,começou a frequentar o projeto por acreditar que a dança lhe ajudaria em suasatividades principais: ela é atriz e musicista. Segundo a dançarina aprendiz,as aulas foram determinantes em seu desempenho na última peça em que atuou,“Navalha na Carne”, de Plínio Marcos. “A dança deixa o corpo com mais molejo,mais solto. Ajuda na coordenação e na expressividade. Tem melhorado muito aminha atuação como atriz”, avalia.

Como é de se supor, as aulas transcorrem em uma atmosferadas mais leves, em boa medida por causa do bom humor da trupe. Quando Cachinga,por exemplo, quis contar vantagem, dizendo, em tom de galhofa, que o homem émais importante porque é quem conduz a dança de salão, Pâmela devolveu: “Mas éa mulher quem faz o charme e quem brilha”. Quando este repórter alegou timidezante o convite para se juntar aos alunos e tomar parte na aula, Luzia respondeusem pestanejar: “Não faz mal! A gente é cego. Ninguém vai te ver dançandomesmo!”.

Os passos do refugiado

Jacob Cachinga perdeu a visão aos dois anos de idade, apóster contraído sarampo. Na ocasião, ele ainda morava com a família em Moxico,cidade situada à faixa leste de Angola, quando o país vivia às voltas com umaguerra civil que provocou efeitos severos à sociedade. Dos tempos que aindaenxergava, a única imagem que preservou na memória é o rosto da mãe.

“Na época, todo o poder econômico de Angola ia parafinanciar a guerra. Assistência em saúde não existia. Então, eu considero que aguerra me cegou. Crianças, como eu, perdiam a visão ou morriam de sarampo todosos dias”, contou.

Em 2001, Cachinga e outros nove cegos angolanos chegaram aoBrasil como refugiados, por meio de uma ONG do país africano. O rapaz tinha,então, 11 anos. Não sabia ler, nem escrever e tampouco tinha mínima autonomia.Em Curitiba, se formou em educação física e, hoje, cursa pós-graduação. Nesteperíodo, nunca abandonou a dança – que é o que o mantém conectado com as raízesangolanas.

“Na África, nós expressávamos a dor, a fome, os males daguerra através da arte. Era, também, uma forma de termos alguma alegria”, disse.“Quando cheguei, eu dançava muito kuduro [ritmo africano], mas fui meaproximando da dança de salão quando eu conheci a Pâmela. Comecei a frequentara mesma academia que ela e virei bolsista”, relembrou.

Ao vir ao Brasil, Cachinga perdeu completamente o contatocom a família. Só em 2016 – depois de 15 anos –, conseguiu notícias da mãe. Foià Angola reencontrá-la, mas se impressionou com as condições em que ela vivia:em extrema vulnerabilidade, a mulher dormia no chão de uma igreja – sobre umacanga estendida no chão – e, em troca do teto, fazia as vezes de faxineira dotemplo. Com o dinheiro que havia juntado, o rapaz conseguiu realizar o sonho decomprar uma pequena casa à mãe. Agora, eles se falam a cada duas semanas,quando ela consegue emprestar o celular de um vizinho.

“Quando eu a abracei nesse reencontro, a gente começou achorar muito. Foi muito emocionante. Agora, ela tem uma casa. É uma casca deovo, mas é dela. Está protegida”, disse.

O refugiado não quer parar por aí. Sonha em fazer doutoradoe, em um futuro ideal, planeja regressar à Angola e abrir uma universidade.Enquanto isso, pretende continuar compartilhando com o Brasil o que puderoferecer. “A educação é o maior bem que existe e ainda é muito carente no paísem que nasci”, apontou. “Mas hoje eu me sinto realizado devolvendo um pouco doque o povo brasileiro sempre fez por mim. O projeto é uma forma deagradecimento”, finalizou.

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Tags: Paraná

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