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Contrato do lixo de Curitiba chega a R$ 1,67 bilhão

Quarto aditivo levou o contrato de coleta de lixo de Curitiba a R$ 1,67 bilhão. O objeto registrado é uma linha; o contrato de 2019 detalhava cada serviço.

Contrato do lixo de Curitiba chega a R$ 1,67 bilhão
Coleta de lixo reciclável. Foto: Tami Taketani/Plural

> Quarto aditivo assinado em 1º de outubro de 2026 e publicado no Diário Oficial do dia 6. Fichas de contrato do Portal da Transparência consultadas em 7 e 8 de outubro de 2026.

A Prefeitura de Curitiba assinou em 1º de outubro o quarto aditivo do contrato de coleta de lixo e limpeza pública, um acréscimo de R$ 71.962.801,60 que levou o maior contrato do município a R$ 1.674.260.491,58 — R$ 204.929.728,29 acima do valor assinado em dezembro de 2025, alta de 13,95% em dez meses. Mas o que esse dinheiro compra não está descrito em nenhum documento público: o objeto registrado é uma única linha, "prestação de serviços de manejo, coleta e transporte de resíduos sólidos e de limpeza pública". O contrato anterior, de 2019, listava serviço por serviço — da coleta seletiva ao monitoramento do aterro sanitário.

Os números deste texto vêm das fichas dos sete contratos de limpeza urbana no Portal da Transparência de Curitiba, das páginas dos 13 empenhos emitidos em 2026 e dos extratos publicados no Diário Oficial do Município, no arquivo do Plural com o texto integral das edições desde janeiro de 2024. Como o Plural mostrou em setembro, a Prefeitura também contratou consultoria de tecnologia por R$ 8,8 milhões sem licitação e o Instituto Curitiba de Saúde comprou mais de R$ 20 milhões em medicamentos por dispensa.

Contrato por contrato, o que está escrito que a cidade comprou

A Concorrência Pública 4/2017 gerou dois contratos assinados em 26 de fevereiro de 2019, os dois com a ESTRE SPI Ambiental, vigentes até 28 de fevereiro de 2025. A ficha dos dois reproduz o objeto completo da licitação, dividido em três lotes, e é o documento mais detalhado da série:

> Lote I — "Coleta e transporte de resíduos domiciliares, coleta seletiva e transporte de recicláveis, Programa lixo que não é lixo, Programa Cambio Verde, varrição manual e mecanizada, raspagem de cartazes, lavagem de calçadões, manutenção e monitoramento do aterro sanitário de Curitiba." Lote II — "Varrição e lavagem das feiras livres, com a coleta e transporte dos resíduos - Limpeza dos rios - Programa Olho d'agua." Lote III — "Coleta indireta de resíduos domiciliares, coleta e transporte e destinação de resíduos tóxicos domiciliares."

Como as duas fichas repetem esse mesmo texto, elas não dizem qual lote cada contrato executou. Os extratos dos aditivos no Diário resolvem parte da dúvida: o aditivo 23360/18 identifica o contrato 23360 como lote I, o maior. O 23361 tinha mensalidade na casa de R$ 500 mil, compatível com o lote III.

Quando esses contratos venceram, em 28 de fevereiro de 2025, a nova licitação ainda não havia virado contrato. A Prefeitura então assinou, em 19 de dezembro de 2024, dois contratos emergenciais por dispensa de licitação, válidos de 1º de março de 2025 a 28 de fevereiro de 2026 — exatamente a ponte de doze meses. E neles o objeto voltou a ser detalhado:

> Contrato 26368 — "Coleta e Transporte de Resíduos Sólidos Domiciliares e de Varrição; Coleta Seletiva e Transporte de Resíduos Sólidos Recicláveis - Programa Lixo que Não é Lixo e Programa Câmbio Verde; Varrição Manual com Repasse; Varrição Manual Sem Repasse, Varrição Mecanizada; Raspagem de Cartazes e Lavagem de Calçadões; Limpeza Especial e Manutenção e Monitoramento do Aterro Sanitário Desativado de Curitiba." Contrato 26367 — "coleta indireta de resíduos domiciliares e coleta, transporte e destinação para tratamento de resíduos tóxicos domiciliares."

Vale notar a mudança de uma palavra entre 2019 e 2025: o que era "manutenção e monitoramento do aterro sanitário de Curitiba" passou a ser "do aterro sanitário desativado de Curitiba". O serviço continua, o aterro não.

Aí vem o contraste. A Concorrência Pública 63/2023 gerou três contratos, e os três registram o mesmo objeto genérico, sem nenhuma lista de serviços:

ContratoLoteContratadaVigênciaValor atualObjeto registrado
27366IESTRE SPI Ambiental18/12/2025 a 18/12/2030R$ 1.674.260.491,58"prestação de serviços de manejo, coleta e transporte de resíduos sólidos e de limpeza pública, à Secretaria Municipal do Meio Ambiente"
27488IIEcosystem Serviços Urbanos11/02/2026 a 11/02/2031R$ 65.789.817,60idêntico
27489IIIESTRE SPI Ambiental12/02/2026 a 12/02/2031R$ 39.353.435,91idêntico

Nenhum documento público diz o que cada lote inclui. A ficha traz a frase genérica; o extrato no Diário acrescenta apenas a identificação do lote — e, no caso do 27489, com erro de digitação, "lote iII" na publicação de fevereiro e "lote III" no aditivo de julho. Quem quiser saber se a coleta seletiva, a varrição mecanizada, a limpeza dos rios ou o monitoramento do aterro desativado estão dentro do contrato de R$ 1,67 bilhão não encontra a resposta em nenhuma das duas fontes. O detalhamento existe no termo de referência do edital, que não é publicado.

Somados os valores atualizados, a licitação de 2023 vale R$ 1.779.403.745,09, e a ESTRE SPI responde por R$ 1.713.613.927,49 — 96,3% do total.

Quatro aditivos em dez meses

O contrato 27366 foi assinado por até R$ 1.469.330.763,29, com mensalidade de até R$ 24.488.846,05 — o valor global é exatamente a mensalidade multiplicada por 60, com 29 centavos de diferença de arredondamento.

AditivoAssinaturaObjeto publicadoValor
130/03/2026acréscimo de quantitativos de 8,8106% e supressão de 8,0972%R$ 2.157.620,47
212/05/2026ajustes de valoresR$ 52.506.714,04
329/06/2026ajustes de valoresR$ 78.302.592,18
401/10/2026ajustes de valoresR$ 71.962.801,60
Total aditadoR$ 204.929.728,29

A conta fecha ao centavo: os quatro aditivos somam exatamente o total aditado da ficha, e o valor inicial somado a eles dá o valor atualizado. A mensalidade subiu de R$ 24.488.846,05 para R$ 26.743.109,17, alta de 9,21%.

Três dos quatro aditivos têm como objeto declarado apenas "ajustes de valores", sem dizer se tratam de reajuste de preço, repactuação de mão de obra ou acréscimo de serviço. A distinção não é formal: o teto de 25% do artigo 125 da Lei 14.133/2021 alcança acréscimo de quantidade, não recomposição de preço. Pelo texto publicado, só o primeiro aditivo foi explicitamente quantitativo, e veio com supressão quase equivalente.

O campo "% Aditivado" do Portal da Transparência não funciona em nenhum dos contratos da série. Na ficha do 27366 ele informa -12,33, um percentual negativo para um contrato que só cresceu; o acréscimo real é +13,95%. Na do contrato de 2019, que recebeu R$ 403.828.530,38 de aditivos sobre R$ 844.764.594,60 — alta de 47,8% —, o campo mostra 2,51. Na do contrato emergencial 26368, que subiu 8,5%, mostra -6,64. No 27489, que subiu 3,7%, mostra zero.

Há também uma lacuna no registro do aditivo mais recente: na ficha, o aditivo 4 aparece com o valor, mas sem data de assinatura, sem número de Diário Oficial e com o arquivo marcado como "Indisponível" — embora o extrato tenha saído no Diário de 6 de outubro, com assinatura em 1º de outubro.

Sete anos e sete meses sem interrupção, por três instrumentos diferentes

A ESTRE SPI Ambiental S.A., CNPJ 10.541.089/0001-57, recolhe o lixo de Curitiba desde 26 de fevereiro de 2019, sem intervalo. A empresa tem matriz em São Paulo, capital social de R$ 364.877.305,00 e dois estabelecimentos em Curitiba, abertos em 2010 e 2013; a atividade principal registrada é coleta de resíduos não perigosos. Está em recuperação judicial, condição que consta do cadastro de fornecedores da Prefeitura.

InstrumentoOrigemPeríodoValor inicialValor final
23360 (lote I)CP 4/201726/02/2019 a 28/02/2025R$ 844.764.594,60R$ 1.248.593.124,98 (+47,8%)
23361CP 4/201726/02/2019 a 28/02/2025R$ 23.431.459,80R$ 34.266.959,77 (+46,2%)
26368dispensa emergencial DT 24/202401/03/2025 a 28/02/2026R$ 279.793.881,12R$ 303.669.319,74
26367dispensa emergencial DT 23/202401/03/2025 a 28/02/2026R$ 8.197.031,64R$ 8.529.251,16
27366 (lote I)CP 63/202318/12/2025 a 18/12/2030R$ 1.469.330.763,29R$ 1.674.260.491,58 (+13,95%)
27489 (lote III)CP 63/202312/02/2026 a 12/02/2031R$ 37.955.757,60R$ 39.353.435,91

O valor final do contrato de 2019 foi reconstituído somando ao valor inicial da ficha o total aditado que ela informa, e o resultado confere ao centavo com os extratos do Diário: R$ 1.248.387.655,26 no aditivo 18, de 6 de janeiro de 2025, mais R$ 205.469,72 do aditivo 19, de março. O contrato de seis anos terminou 47,8% acima do assinado. Vale o registro de que o campo "Valor Atualizado" da mesma ficha informa R$ 248.263.938,80, menos de um quinto disso e menor que o próprio valor inicial — número que não se sustenta contra o total aditado que a ficha publica ao lado.

Somados os valores finais dos seis contratos, a Prefeitura comprometeu R$ 3.308.672.583,14 com a empresa desde 2019 — valor contratado ao longo de sete anos e sete meses, incluindo dois contratos de cinco anos que só vencem em 2030 e 2031, e não dinheiro já pago.

Os dois contratos emergenciais ainda geraram termos indenizatórios depois de encerrados: R$ 4.403,74 no 26367, em 23 de março de 2026, e R$ 5.064.945,04 no 26368, em 1º de abril. O segundo reconhece crédito por revisão do adicional de insalubridade decorrente da mudança do salário mínimo em 1º de janeiro de 2026, pela diferença entre o saldo empenhado e o valor medido e pela execução de serviços das equipes de verão em fevereiro de 2026.

A licitação que gerou o contrato atual foi aberta em janeiro de 2024 e homologada quase dois anos depois. A disputa foi contestada: em julho de 2024, três empresas impugnaram o edital — Sistemma Assessoria e Construções, Sero Comercial e Ecoservices —, e a Comissão Especial de Licitação da SMMA negou provimento integral às três.

R$ 163 milhões pagos em oito meses

O contrato 27366 tem 13 empenhos em 2026, somando R$ 224.459.634,75, dos quais R$ 182.000,00 foram anulados. Liquidados, R$ 190.381.125,95. Pagos, R$ 163.158.344,51 — 9,7% do valor atualizado.

O primeiro empenho é de 4 de março de 2026, não de dezembro de 2025, quando o contrato foi assinado. A data coincide com o fim do contrato emergencial, em 28 de fevereiro, o que indica que o serviço sob o novo contrato começou em março. A mensalidade variou:

Mês de 2026Valor empenhado
marçoR$ 24.488.846,05
abrilR$ 26.646.466,81
maioR$ 24.488.846,05
junhoR$ 25.416.526,51
julhoR$ 27.459.995,54
agostoR$ 26.743.109,17
setembroR$ 26.243.109,17
outubroR$ 26.743.109,17

Além dessas oito parcelas, que somam R$ 208.230.008,47, há três empenhos avulsos — R$ 6,5 milhões em março, R$ 2,98 milhões em julho e R$ 6,75 milhões em outubro, R$ 16.229.626,28 no total. O de março foi liquidado e pago no mesmo protocolo da primeira mensalidade.

Dois meses estão em aberto: a medição de setembro foi atestada em R$ 25.836.222,19 e não teve nenhum pagamento, e os dois empenhos de 1º de outubro, R$ 33.489.621,82 somados, não registram movimentação, o que é esperado num mês em curso.

Um detalhe de classificação orçamentária: todos os 13 empenhos são lançados como "locação de mão de obra" (natureza 339037, subelemento 7, locação de mão de obra de limpeza pública), e não como prestação de serviço de coleta. E a fundamentação registrada em todos é "Lei Fed. nº 8.666/93", a lei de licitações anterior — possível porque a licitação foi aberta em 2023, quando a administração ainda podia optar pelo regime antigo, mas em contraste com os contratos recentes do município, que invocam a Lei 14.133.

O que ainda não está explicado

A ficha informa vigência de 18 de dezembro de 2025 a 18 de dezembro de 2030, 1.826 dias. O contrato prevê 60 meses contados da ordem de serviço, e os empenhos indicam início em março de 2026 — o que jogaria o fim para o começo de 2031. A data da ordem de serviço não é publicada.

Gestora do contrato é Marina de Campos Rymsza Ballao, com Eliane Nercinda Chiuratto Train como suplente e Rafael Garcia como fiscal. A despesa corre por dez dotações da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, todas na função de saneamento básico urbano.

Perguntas rápidas

Quanto vale o contrato do lixo de Curitiba?

R$ 1.674.260.491,58, depois de quatro aditivos. Foi assinado em 18 de dezembro de 2025 por R$ 1.469.330.763,29, para 60 meses.

O que o contrato do lixo de Curitiba inclui?

O objeto registrado é "prestação de serviços de manejo, coleta e transporte de resíduos sólidos e de limpeza pública", sem lista de serviços. O contrato anterior, de 2019, detalhava coleta domiciliar, coleta seletiva dos programas Lixo que Não é Lixo e Câmbio Verde, varrição manual e mecanizada, raspagem de cartazes, lavagem de calçadões e monitoramento do aterro sanitário. O detalhamento atual está no termo de referência, que não é publicado.

Quem recolhe o lixo em Curitiba?

A ESTRE SPI Ambiental S.A., CNPJ 10.541.089/0001-57, vencedora dos lotes I e III da Concorrência Pública 63/2023. O lote II ficou com a Ecosystem Serviços Urbanos. A empresa presta o serviço na cidade desde fevereiro de 2019, sem interrupção.

Quanto a Prefeitura já pagou?

R$ 163.158.344,51 em 2026 no contrato atual, de R$ 224.459.634,75 empenhados. A mensalidade é de R$ 26.743.109,17.

Como apuramos esta reportagem

O Plural leu os extratos de contratos e aditivos publicados no Diário Oficial do Município, as fichas dos sete contratos de limpeza urbana no Portal da Transparência de Curitiba, consultadas em 7 e 8 de outubro de 2026, e os registros de empenho e pagamento do contrato em vigor. O objeto de cada contrato foi transcrito das fichas, sem reescrita. Os dados da empresa vêm do cadastro público de CNPJ. Os valores desta reportagem foram conferidos contra os totais que a própria Prefeitura publica.

Três limites. Os extratos do Diário usam a expressão "Valor Global" com sentidos diferentes de um aditivo para outro — ora o valor do próprio aditivo, ora o acumulado do contrato —, e só as fichas permitiram reconstituir a série. A Prefeitura não publica quanto pagou nos contratos já encerrados, de modo que os R$ 3,3 bilhões citados são valor contratado, e não desembolsado. E o detalhamento dos serviços de cada lote da licitação de 2023 está no termo de referência, que não é publicado.

Última atualização: 8 de outubro de 2026.

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Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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