O mais novo livro infantil escrito por Carol Sakura e ilustrado por Walkir Fernandes, “O Rei Pássaro”, já tem data de lançamento marcada: será neste sábado (17), às 10h30, na Biblioteca Pública do Paraná. Editada pela Barbante, a publicação tem consultoria de uma das maiores referências brasileiras em obras ilustradas contemporâneas, Odilon Moraes. Ele inclusive vem a Curitiba para um bate-papo com os autores no evento. Também haverá sessão de autógrafos no local.
Em entrevista ao Plural, Carol conversou sobre o livro que nos apresenta a história de um personagem que adora pássaros. É com o olhar poético de uma mãe que busca se conectar com o mundo da imaginação de seu filho que ela nos leva para um voo delicado, onde a ficção nasce inspirada em sua família. A escritora e seu parceiro na vida e na arte, Walkir Fernandes, ilustrador da obra, são pais de uma criança neurodivergente com hiperfoco em pássaros.
O que se lê e se vê nas páginas de “O Rei Pássaro” é o resultado de um trabalho cuidadoso, em que o particular abre espaço para o universal. O tema não é romantizado e não há espaço para lugares comuns ou autoajuda, o que torna a leitura emocionante para todos, seja mãe ou pai, familiar ou educador, e até mesmo filho ou filha. Basta lembrar de um momento em que você observou com ternura uma criança, neurodivergente ou não, que a identificação vem. E ela chega pelo caminho autêntico da arte, sem precisar passar por regras ou manuais. Nas palavras da própria autora, o desejo “sempre foi ir além da nossa experiência como pais e olhar um pouco para a nossa própria infância também”.
E quem conhece a trajetória dos dois artistas, com trabalhos como “Anacleto, o Balão” (livro de 2015, que virou filme em 2023), “Apneia” (de 2019, que conquistou vários prêmios, como o Kikito de Melhor Curta-Metragem Brasileiro no Festival de Gramado) e “O Filho Mau” (graphic novel de 2020), pode notar uma diferença. Como nessas obras anteriores, a semente é o real, Carol continua escrevendo a partir de temas que a “assombram”. Contudo, ela explica que desta vez foi “de um modo mais iluminado”.
O que está longe de significar uma posição confortável da autora. Aliás, o livro de agora pode ter sido o mais desafiador em sua carreira. A maneira como a artista explora sua maternidade na obra é inédita em sua produção e a intimidade compartilhada com Walkir resultou na busca por um caminho que fala dos dois. Ou melhor, dos três. Isso também explica como ele conseguiu traduzir sentimentos em ilustrações que bailam com o menino, enquanto as cores e formas compõem uma bela revoada. Sem tamanha intimidade, seria muito difícil encontrar texto e ilustrações tão afinados. Confira a seguir a entrevista completa de Carol Sakura sobre “O Rei Pássaro”.
Você é mãe, escritora, roteirista e diretora com produção ininterrupta e trabalhos reconhecidos pelo público e também por prêmios. Em “O Rei Pássaro” você revela uma sensibilidade maternal à flor da pele, um lado carinhoso e observador que os leitores podem não conhecer. É pesado dar conta de tudo isso?
A gente tem que fazer um pouco de tudo mesmo. É verdade, “O Rei Pássaro” é um projeto bem diverso, nenhum trabalho anterior explora a minha maternidade dessa forma. Tenho um texto ensaio que publiquei sobre maternidade (“Escrever e ser/não ser mãe”, coletânea de textos, Editora Arte e Letra, 2025), mas foi diferente. Porém, creio que meus projetos sempre exploram algo íntimo e que busco transmutar num texto universal, que escapa da minha experiência particular. Não creio que foi pesado, mas ele veio com uma grande preocupação sobre como contar essa história e de não romantizar o tema.
Você e o Walkir são parceiros na vida e em vários trabalhos na literatura e no audiovisual, como “Anacleto, o Balão”, “Apneia” e “O Filho Mau”. Mas, até o momento, “O Rei Pássaro” é o projeto de maior intensidade pessoal na parceria de vocês. Você concorda? O processo da escrita e da criação foi diferente neste livro?
Em certa medida é uma intimidade compartilhada, já que a história vem de ambos. Em outros projetos o Walkir me ajudava a dar forma a um relato meu, neste colaboramos juntos para escolher um caminho que falasse dos dois. Mas sempre buscando escapar do relato familiar. O nosso desejo sempre foi ir além da nossa experiência como pais e olhar um pouco para a nossa própria infância também.
“O Rei Pássaro” voa para além do que muitos esperam quando se fala em uma obra que parte da sua relação com seu filho. Como é abordar a neurodivergência artisticamente sem ir para o caminho da autoajuda ou das narrativas de superação?
Ainda bem. Nosso maior receio sempre foi que o livro fosse definido como uma obra 'sobre o filho deles' ou restrita ao tema da neurodivergência. Sempre buscamos abordar o tema com cuidado, nunca quisemos romantizar a relação com uma criança autista. Não é fácil e isso faz parte do nosso texto para quem souber olhar. A intenção é construir uma identificação para cuidadores e pessoas neurodivergentes, pois trazemos características no próprio personagem. E, principalmente, falar dessa busca de conexão sem dizer que vai dar tudo certo, mas sim sobre o desejo que todos temos de nos conectar.
“O Filho Mau” também é inspirado em uma história real de sua família. Contudo, a natureza de “O Rei Pássaro” é muito diferente. Como é escrever a partir de seu universo familiar, mas com pontos de vista tão distantes sobre relações de afeto?
Acredito que esse tipo de relação, especialmente entre pais e filhos, me interessa em diferentes níveis. Talvez seja um tema que me assombra, dessa vez creio que de um modo mais iluminado. Foi desafiador escrever de um lugar tão próximo e íntimo, principalmente por me preocupar em não expor excessivamente meu filho. Por isso o texto também é ficcional e poético. O real é a semente para a obra. Creio que todo projeto artístico não vem do nada, sempre é semeado no cotidiano.
E a presença do ilustrador Odilon Moraes no projeto? Por favor, fale um pouco sobre a participação dele no livro.
Eu tenho uma relação muito antiga com as obras do Odilon Moraes e admiro ele demais. Foi um sonho de fã também. Admiro como ele pensa o livro ilustrado e a sensibilidade que imprime no seu trabalho. Quando ele topou ficamos super animados. E ele é mesmo tudo que eu imaginava: muito generoso e inspirador. Ele nos ajudou a pensar o livro conceitualmente e, principalmente, entendeu profundamente a proposta que tínhamos para o projeto. Cada consultoria foi uma aula sobre literatura. Estamos animados para ter ele presencialmente no lançamento conosco.
O lançamento oficial do livro ainda não aconteceu, entretanto, algumas pessoas já tiveram acesso à obra. Eu fui uma delas e me emocionei pela beleza, pela força e pela delicadeza desse olhar sobre o universo de seu filho. Como têm sido as reações, a recepção dos primeiros leitores?
Que alegria receber sua leitura. Na verdade, estamos ansiosos para que todos leiam e para saber como será essa recepção. Sabemos que ele é diferente de "Anacleto, o Balão". Por enquanto poucas pessoas leram. Uma leitura que me emocionou foi de uma amiga que é uma pessoa autista e se identificou com o livro. Nossa intenção é que ele possa ser visto como um projeto artístico, mas que pessoas diversas se encontrem nele também.
O texto do livro é encantador, ainda mais em conjunto com as ilustrações. O livro “O Rei Pássaro” pode ser a gestação de um novo curta-metragem dirigido por você e pelo Walkir?
Ah, isso já está no nosso horizonte. Ele tem tudo para ser um curta muito especial. Estamos com essa proposta inscrita em editais torcendo para virar realidade. A gente não dá ponto sem nó.
Lançamento do livro “O Rei Pássaro”
Dia 17 de outubro, às 10h30
Biblioteca Pública do Paraná (Rua Cândido Lopes, 133)
Entrada franca
Livro "O Rei Pássaro"
Carol Sakura e Walkir Fernandes
48 páginas
Editora Barbante
R$ 69,90