Neste fim de semana (17 e 18), Rogéria Holtz estreia “Alice Ruiz - 80 anos” no palco do Teatro Paiol em Curitiba. O show, que celebra a vida e a trajetória de uma das maiores poetas brasileiras, tem participações especiais de Alzira E e Estrela Leminski (cantora, compositora e escritora que é filha da homenageada). As apresentações são no sábado, às 20h, e no domingo, às 19h. Os ingressos estão à venda a partir de R$ 15 (meia-entrada) pelo site Compre no Zet. Na sexta-feira (16), as artistas também participam de um bate-papo gratuito no Conservatório de Música Popular Brasileira de Curitiba.
Rogéria conversou com o Plural sobre o show inédito que chega aos palcos agora, mas que vem de muito longe. A amizade entre a cantora e a poeta começou lá pelos idos dos anos 1990 e, como não poderia ser diferente, o início foi abençoado pela música. Elas se esbarraram por acaso, contudo, num encontro que estava escrito: em algum ponto do caminho, tinha que acontecer. Desde então, muitas ideias fervilharam em versos, melodias, gravações e shows.
E o repertório interpretado ao lado de Alzira e Estrela no show passeia pelos pontos altos dessa história de mais de três décadas e traz para o palco parcerias que marcaram a carreira de Alice. A setlist tem “Socorro” (da poeta com Arnaldo Antunes), “Sei dos Caminhos” (com Itamar Assumpção e Alzira E), “Festa das Estrelas” (de Alice com a própria Rogéria), “Rio Curitiba” (com Waltel Branco) e “Mergulho” (de Alice e Alzira), entre outras. Segundo Rogéria, não há sombra de dúvida sobre qual momento será o mais emocionante para o público e para as artistas. É que as três cantarão juntas “Milágrimas” (mais uma parceria de Alice com o Itamar). Aí, nem tem como competir.
A cantora ainda falou sobre o que os artistas temem no momento atual e como são importantes os mecanismos de incentivo à cultura. Mesmo com uma carreira reconhecida por premiações (como a Ordem do Mérito Cultural do MinC em 2025) e com mais de 40 anos de trabalhos ininterruptos, ela não vê futuro no Paraná: “... é como caminhar em esteira: você se mantém em forma, mas não chega em lugar nenhum”. Confira a entrevista completa com Rogéria Holtz a seguir.
Você tem mais de 40 anos de trajetória na música e, além de intérprete, é compositora. Como a obra de Alice Ruiz apareceu no seu caminho? Como foram seus primeiros contatos com a produção da artista?
Nos anos 1990, eu fui fazer uma Oficina de Música com o maestro Marcos Leite e Alice também estava lá. Sentamos uma do lado da outra, nos apresentamos de maneira inusitada e não nos desgrudamos mais. Ela me ouviu cantar e quis de cara me apresentar suas parcerias que começou com Waltel Branco e depois eu mesma fui atrás. Etel Frota, também poeta e amiga, quis produzir um show que estivéssemos juntas no palco. Eu cantando suas parcerias e Alice declamando seus poemas. Tive o privilégio de conhecer quase que a obra toda, até aquele momento, no show Poesia pra Tocar no Rádio. Foi lindo!! Fizemos o show aqui em Curitiba, mas logo fomos para o Sesc São Paulo no projeto Balaio Brasil. Uma história que começou grande e prazerosa.
O seu projeto de shows com repertório de canções de Alice Ruiz está começando agora? Como e quando ele surgiu?
Começou logo quando nos conhecemos. Depois da Oficina de Música ela teve a ideia de montar uma banda que pudesse gravar as suas parcerias. Eu fui a intérprete convocada. Naquele tempo estava produzindo meu primeiro show solo para o Terça Brasileira no Paiol. Neste show “Com a corda, todas!”, em 1998, incluí “Vê se me esquece”, da Alice e Itamar Assumpção.
Em pouco tempo já estávamos no palco juntas para o “Poesia pra tocar no rádio”. Aí, em 2003, lancei o CD “Acorda”, resultado do show de 1998, incluindo “O amor que merece”, inédita de Alice e Zeca Baleiro.
Em 2008 eu me apropriei da ideia de Alice e lancei um álbum com sua obra: letras da poeta musicadas por Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro, Itamar Assumpção, Alzira Espíndola, Zé Miguel Wisnik, Waltel Branco e ainda duas minhas, “Festa das Estrelas” e “Marinhas”. O CD e o show ganharam o título de “No País de Alice”. Sucesso total, teve produção do carioca Celso Fonseca e, de quebra, uma banda com o baixista icônico Arthur Maia, Zeca Baleiro; Alzira e também Alice estão em algumas das faixas. Em 2009, no Teatro Positivo quase lotado apresentei “No País de Alice convida Zeca Baleiro e Alice Ruiz” que está todinho no Youtube, pode conferir o belo resultado (https://www.youtube.com/watch?v=hlWI4b7aRks&list=RDhlWI4b7aRks&start_radio=1&t=1341s).
Por favor, fale um pouco do trabalho com o João Egashira. Qual a importância da parceria com ele para este show em especial?
Egashira é o tipo de músico que gosta de desafios e acaba fazendo parte de momentos incríveis e inesquecíveis da nossa cena curitibana. Ele topou fazer a produção musical do meu show de 1998. O mesmo aconteceu com o show “Poesia pra tocar no rádio”, seu violão e suas ideias musicais estiveram no palco comigo e Alice. Para homenagear Alice Ruiz nos seus 80 anos nada melhor do que uma volta ao começo. Nada melhor que valorizar quem esteve do meu lado no embrião da produção. Confesso que é muito emocionante pra mim...
As convidadas também fazem parte do seu círculo de amigos? É um encontro inédito no palco? Como foram os convites e como é a sensação de estar prestes a dividir o palco com Alzira e Estrela Leminski?
Respondendo a primeira pergunta, elas fazem parte do meu círculo de amigos e arte. Estrela eu vi crescer, literalmente, e se tornar esta grande artista. Já estive no palco com ela num trabalho pro Sesi onde selecionamos mulheres ‘cantautoras’, “Rogeria Holtz convida Vozes da Cidade”. E agora, desde a Oficina de Música de janeiro, começamos as homenagens à sua mãe.
Alzira está do lado da Alice sempre, muito fácil de se aproximar, sorte a minha. Estivemos no Paiol numa participação que fiz num show dela.
É um show inédito, mas nós três já nos vimos juntas pelos palcos. O convite foi fácil, aconteceu há algum tempo pois faz parte de um edital municipal. Ficamos imensamente felizes pela aprovação no edital, principalmente pela homenagem merecida à nossa amiga poeta.
Qual será a setlist? Entre as músicas que vocês interpretarão no palco do Teatro do Paiol, quais as suas três preferidas e por quê?
Bom, no setlist faço questão de abranger a diversidade de Alice Ruiz com suas parcerias. Mas como eu tenho que dividir com Alzira não posso exagerar. Mas fiz questão de incluir Waltel Branco com “Rio Curitiba”, Zé Miguel Wisnik com “Virtual”, Itamar Assumpção com “Vou tirar você do dicionário” e claro, as minhas “Festa das Estrelas” e “Marinhas”. Mas juntas iremos relembrar o que gravei da parceria da Alice e Alzira, como “Mergulho”. As minhas três preferidas? Ah, não me force a deixar tantas de fora, kkk.
Você tem um palpite sobre qual deve ser o momento mais emocionante do show para o público? Tem planos para o show virar um álbum?
Ahh, o ponto alto será certamente as três juntas cantando a obra prima de Alice e Itamar, “Milágrimas”. Aliás, essa canção sempre se eleva ao ponto mais alto.
O show virar um álbum? Vai virar vídeo, com certeza. O álbum pode ser uma consequência. Quem sabe alguns singles, afinal hoje a gente se curva a volatilidade das plataformas de streaming e também nelas os álbuns ficam desagregados.
Após o primeiro turno das eleições de 2026, a classe cultural teme como será o futuro do fomento às artes. O mecenato subsidiado foi importante para a produção deste show? As leis e mecanismos de incentivo municipais, estaduais e federais têm papel fundamental em sua carreira?
Difícil até de pensar nisso. A vida de artista é sempre bem complicada. Se não tivermos os editais e mecenato subsidiado não conseguimos concretizar os bons projetos musicais. Não podemos apenas idealizar, precisamos pagar as produções e músicos envolvidos. Para isso precisamos de verba. É um assunto muito delicado e abrangente que precisaríamos de outra entrevista para discutirmos. O que posso dizer é que depois de tanto tempo trabalhando e usando esses mecanismos eu digo que nem são suficientes. Porque mesmo fazendo álbuns bem produzidos e shows impecáveis não temos um futuro como artistas aqui no Paraná. Eu digo que é como caminhar em esteira: você se mantém em forma, mas não chega em lugar nenhum. Poucos conhecem meu trabalho e por isso sempre parece que estou começando. Precisamos que nossa música toque, que ouçam, que tenham orgulho da nossa arte.
Como será o futuro do fomento às artes? Será que teremos futuro? Ou será que voltaremos a ser inimigos da sociedade como no governo passado?
Por que os curitibanos devem ir conferir ao vivo “Alice Ruiz 80 anos. Rogéria Holtz convida Alzira e Estrela Leminski”?
Porque nós estamos comprometidos com a emoção. Um poema de Alice Ruiz pode transformar um momento. Com música boa a vibração se eleva e pode fazer você cantar junto, mexer o corpo, vir as lágrimas e catalisar os problemas. Depois da clausura na pandemia o melhor a fazer é se misturar e viver a nossa arte, que inclui a poesia de Alice Ruiz, a nossa musicalidade sincera, o talento de todos os músicos: Alzira, Estrela, Egashira, Vini Araújo, Luiz Rolim, Marcelo Dworecki e eu; a mistura de artes, figurino de Alexandre Linhares, cenário de Bea Storino, vídeos incidentais de Fábio Mazzardo; a produção impecável de Luciana Monteiro... Só venha!
Alice Ruiz – 80 anos. Show de Rogéria Holtz com participações especiais de Alzira E e Estrela Leminski.
Sábado, dia 17 de outubro, às 20 horas e domingo, dia 18 de outubro, às 19 horas, no Teatro Paiol (R. Cel. Zacarias, 51).
Ingressos: R$30 e R$15 (meia entrada) pelo site Compre no Zet.
Classificação etária: Livre.
Duração 65 min.
Bate-papo com as artistas
Sexta-feira, dia 16, às 19 horas, no Conservatório de Música Popular Brasileira de Curitiba (R. Mateus Leme, 66).
Entrada franca.