Quando tinha 14 anos, o que era um privilégio se tornou um peso enorme para Seun Kuti. Seu pai, Fela Kuti, o gênio que criou o afrobeat, que enlouqueceu a Nigéria e o mundo com sua música, morreu cedo demais. O menino, que desde cedo teve a chance rara de conviver com todos aqueles músicos que orbitavam sua casa, e que já tinha entrado para a banda, passou a ser visto como o sucessor natural do pai. Mas quem, no início da adolescência, está pronto para isso?
Para entender o peso da coroa que foi posta sobre a cabeça de Seun é preciso lembrar o que significou a revolução cultural e política de Fela Kuti - um homem capaz de irritar o governo de seu país, a Nigéria, a ponto de se tornar o músico mais perseguido do planeta em sua geração. Fela foi preso cerca de 200 vezes e nunca desistiu de fazer sua revolução musical.
Com letras simples e altamente críticas (que chamavam de "zumbis" os integrantes do exército nigeriano ou tiravam sarro dos africanos que tentavam emular os europeus), Fela Kuti reunia multidões em Lagos e começou a fazer sucesso fora do país também. A certa altura, criou seu próprio partido político para disputar o poder com a elite política nigeriana, que via como corrupta.
Morto em decorrência de complicações causadas pela Aids, Fela deixou um legado e um vácuo. Seu afrobeat, que misturava o improviso do jazz com as percussões da música subsaariana, que impunha um ritmo forte e suingado a canções de 15 minutos com letras hipnóticas e politizados, era um poderoso instrumento usado em nome do pan-africanismo e da divulgação da música africana. Mas ele era tão central para o movimento que não se via alguém à altura de continuar o que ele havia começado.

Embora diga que o pai não ensinou a ele nenhum instrumento, foi vendo e ouvindo os músicos da Egypt 80 que o filho caçula de Fela Kuti começou a se interessar por música. Ainda menino Seun começou a participar dos ensaios e dos shows. Mas assumir a banda foi um passo difícil - os músicos eram muito mais velhos e mais experientes do que ele.
Hoje, 28 anos depois, Seun diz que a decisão de assumir o Egypt 80 e a condução do afrobeat foi acertada. Desde 1997, ele e outro filho de Fela, Femi Kuti, têm estado entre os mais importantes representantes do gênero e da música nigeriana.
Ao longo de sua carreira, Seun também foi incorporando novos elementos ao afrobeat - fazendo, por assim dizer, uma atualização do movimento. E se tornou, assim como o pai, um ativista político, inclusive recriando o partido que seu pai fundara décadas antes.
No mais novo álbum, "Heavier Yet (Lays the Crownless Head", produzido por Lenny Kravitz, apresenta essa nova sonoridade, que agora chega ao Brasil. Em Curitiba, o show que acontece neste domingo, apresenta Seun no seu auge e com a banda completa do Egypt 80. Uma rara chance de ver a realeza africana de perto no Brasil.
Serviço
Seun Kuti e Egypt 80 em Curitiba | Turnê “Heavier Yet”
Abertura: Um Baile Bom
Local: Tork n’ Roll (Avenida Marechal Floriano Peixoto, 1695 - Rebouças, Curitiba)
Data: 2 de novembro
Abertura da casa: 18h
Ingressos: https://shotgun.live/pt-br/events/seun-kuti-pela-primeira-vez-em-curitiba
ou bio no Instagram da @transpira.com.br
Classificação: 18 anos
Mais informações: www.instagram.com/transpira.com.br