Em 2025, fiquei absolutamente curiosa a respeito de “Estou Bem Aqui e Lembrei de Você”, um espetáculo de percurso em formato de audiotour do Em Bando Coletivo, de Santos, litoral de São Paulo. A peça, ou para muitos, a experiência, começa quando o público munido de fones aceita o convite de uma neta para refazer os últimos passos de sua avó na cidade. O ponto de partida é uma praça retratada em um cartão-postal recebido pela jovem. Conforme explicado à época pela dupla Marcus Di Bello e João Lírio, que assina o texto (a direção também é de Di Bello), o trabalho que estava em cartaz no Festival de Curitiba nasceu de experiências pessoais dos dramaturgos com suas avós para a criação de uma ficção e tem influência da canadense Janet Cardiff e do grupo paulistano Teatro Dodecafônico.
Só que o teatro tem destas coisas: não consegui assistir (ou, se você preferir assim, participar), houve muita procura e as sessões estavam lotadas. Mas calhou de ele entrar em cartaz no FIT Rio Preto 2026 e eu também estar por lá. Enfim pude conferir “Estou Bem Aqui e Lembrei de Você” e posso afirmar que vale a pena aceitar o convite do coletivo para uma caminhada pela cidade guiada pela arte, que move nossos olhares e sentimentos para lugares que se tornam invisíveis no dia a dia. No cenário urbano, entre pedestres e trânsito, compromissos apressados e rotina estressante, a poesia se esvai sem notarmos e, às vezes, ainda leva com ela as boas lembranças e a capacidade de ver a beleza cotidiana. A proposta do audiotour é andar na contramão disso tudo, buscando na nossa relação com a cidade desacelerar o tempo para encontrarmos memórias e afetos.
E, sim. Eles cumprem a missão. Ao som da voz de Luma Eckert, a plateia segue Di Bello pela cidade, cruzando ruas e resgatando lembranças, embarcando em propostas e acessando emoções. “Tem alguém nos observando?”, pergunta a Neta em certo ponto. É claro. O “bando” paramentado com fones, celulares ou aparelhos de MP3 e sacolas com objetos que fazem parte da performance, acompanhado por fotógrafos e produtores (mesmo que à distância), chama a atenção na paisagem urbana e tem muita gente tentando descobrir do que se trata. “Eles estão todos ouvindo a mesma música?”, pergunta uma mulher.
Em vários momentos, a voz abre nossos olhos para contrastes e situações que incrivelmente falam de maneira particular e universal. Enquanto caminhava com eles pelo centro de São José do Rio Preto, lembrei que esse mesmo áudio, com o texto embalado por músicas (até jazz) nas horas certas, ainda funcionou em Curitiba e pelo menos mais cinco cidades. Talvez o segredo seja que o grupo sabe trabalhar com criatividade o simples (não se trata de simplório), pois qualidade não depende de parafernálias.
Ouvindo a neta falar de sua infância, de sua relação com a avó, também é praticamente impossível não encontrarmos naquelas esquinas a nossa história, alguns dos afetos que nos levaram até ali e que ainda tornam nossa paisagem ora um pouco cinza, ora mais ensolarada. “Perder tempo para ganhar tempo”, será que alguém além de mim sentiu essa frase como um chute no estômago?
Minha avó paterna morou comigo até eu completar pouco mais de 20 anos de idade e sua influência foi determinante em meu caminho. Como aquela narradora, eu me perdi dela por diversos motivos em vários momentos e não dá para refazer esse percurso, mesmo querendo ter dobrado em esquinas diferentes. Continuamos agora seguindo um mapa que me pegou de surpresa. Eu o tirei da sacola sem imaginar que fosse como aqueles que desenhamos quando crianças e, com um grande aperto no peito, fiz força para não deixar as lágrimas escorrerem. Saudades. Tudo bem, outra pessoa chora copiosamente. Eu fui levada pela emoção em “Estou Bem Aqui e Lembrei de Você”, mas não fui só.
Senti um pouco a falta do guia, o Marcus. Dá para entender tecnicamente por que ele estava tão à frente, acabando por escapar demais do nosso olhar. Seu rosto é muito expressivo ao longo do trajeto, complementa a voz, só que infelizmente ganha distância e, como o grupo é grande, na maior parte do tempo não o vemos nem é possível interagir com ele. Pena. Agora, nem de longe a experiência se perde por isso. Parabéns ao Bando.
Ficha Técnica
Realização: Em Bando Coletivo
Direção Artística: Marcus Di Bello
Direção de Produção: Jamili Limma
Dramaturgia: João Lírio e Marcus Di Bello
Voz e Comunicação: Luma Eckert
Produção: João Lírio e Luma Eckert
Direção Musical e Composições: Emerson Tripah
57º FIT Rio Preto
Com 57 anos de existência e 24 edições internacionais, o Festival Internacional de Teatro (FIT) de São José do Rio Preto é um dos mais tradicionais eventos de artes cênicas no Brasil. A realização é da Prefeitura de São José do Rio Preto em parceria com o Sesc São Paulo.
Nesta edição, a programação é totalmente gratuita.
Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto – Fit Rio Preto 2026
De 16 a 25 de julho, em São José do Rio Preto (SP)
Realização: Prefeitura Municipal de São José do Rio Preto, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, e Sesc São Paulo
Apoio: Conselho Municipal de Políticas Culturais
Parceria: Sesi São Paulo e Senac
Programação totalmente gratuita.
Outras informações: fitriopreto.com.br.
A repórter viajou a convite do festival.