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Espetáculos de Curitiba e de Ramallah (Palestina) são destaques na programação do FIT Rio Preto

Em cartaz até 25 de julho, o evento é o maior festival internacional de teatro do interior do Brasil

Jonatas Medeiros em “Ilíada em Libras – Canto I” e Khalil Albatran em “Khalil Khalil”
Jonatas Medeiros em “Ilíada em Libras – Canto I” (Foto: Gilson Camargo/Divulgação); e Khalil Albatran em “Khalil Khalil” (Foto: Bilal Alkhatib/Divulgação).
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Após receber mais de 400 inscrições, a curadoria do FIT Rio Preto 2026 formada por Lucélia Sérgio, Luiz Bertipaglia, Adriane Gomes, Priscila Modanesi e Adriana Macedo selecionou 32 espetáculos para a programação principal do evento. Entre as peças de quatro países diferentes, o Brasil está representado por montagens de oito estados e a cena local é valorizada com dez produções da cidade. Na grade de atrações, duas peças têm destaque como oportunidades raras para o público brasileiro. Elas são “Ilíada em Libras – Canto I”, da curitibana Cia. Iliadahomero, em parceria com a Fluindo Libras; e a montagem palestina “Khalil Khalil” do artista Khalil Albatran, com direção de Bilal Alkhatib.

“Ilíada em Libras – Canto I”

Não é a estreia de “Ilíada em Libras – Canto I”, a montagem já está há três anos nos teatros e mantém seu caráter de ineditismo: é a primeira vez que um dos poemas clássicos da Grécia Antiga, de Homero, é traduzido e interpretado na Língua Brasileira de Sinais. A peça, estrelada pelo ator Jonatas Medeiros (ouvinte) e codirigida por Rafaela Hoebel (surda) e Octavio Camargo (ouvinte), é resultado de uma produção que levou 10 anos entre pesquisas e processo criativo. O enredo se passa no último ano de combate da Guerra de Troia, durante o embate entre Aquiles, o maior herói entre os gregos, e o rei Agamenon.

No palco, o que se vê é poesia e força em um espetáculo pensado para a comunidade surda, mas que também convida o público ouvinte para um exercício de empatia. Enquanto Medeiros está em cena, a tradução de Odorico Mendes do poema em português é narrada por Fernando Marés, ou seja: quem não é fluente em Libras passa a depender do intérprete – ao lado da cena. 

Segundo Thiago Freire, gerente do Sesc Rio Preto (realizador do FIT com a prefeitura), em conversa com a imprensa na abertura do evento (16), a peça entrou na programação atendendo a dois fatores de atenção da instituição ligados à acessibilidade. “É algo que está presente em todas as ações do Sesc. Havia também uma preocupação da prefeitura em tornar o festival bastante acessível, tão acessível quanto fosse possível. Conseguimos fazer com que ao menos uma sessão de cada trabalho na programação conte com algum recurso de acessibilidade", diz ele, falando das iniciativas relacionadas ao ponto de vista dos públicos que acessam. 

O outro fator é a busca de acesso ao protagonismo para todos. “Garantir que a diversidade de condições, de corpos, de cores, de tudo, esteja representada de uma forma equilibrada, porque é assim que essa diversidade se manifesta na realidade.” 

Na prática, comprovando que o teatro é a arte do encontro, “Ilíada em Libras – Canto I” foi apresentada aos curadores e organizadores do evento por Lawrence Garcia, coordenador artístico do FIT. Ele conheceu o trabalho anteriormente em uma rodada de negócios de outro evento, o Festival de Curitiba. Pronto, os quase 700 quilômetros entre a capital do Paraná e a cidade paulista de São José do Rio Preto foram vencidos por um encontro e um convite.

“Khalil Khalil” 

No espetáculo “Khalil Khalil”, o público encontra com o artista Khalil Albatran, que recebeu o nome do irmão morto durante a Primeira Intifada Palestina e cresceu sob as expectativas de uma família que o vê como a continuidade dessa trajetória interrompida. Com dança, música e linguagem contemporânea, a herança ancestral é revisitada e são investigados no palco os limites entre legado e identidade e independência.

É mais do que óbvio falar que encontrar um espetáculo como este, palestino, em cartaz no Brasil é algo raríssimo. Fica até difícil dimensionar a importância disso, mas a frase atribuída a Nietzsche citada pela curadora Priscila Modanesi é um ótimo ponto de partida: “A arte existe para que a realidade não nos destrua.”

Para ela, as apresentações são oportunidades para lembrarmos de que a arte se faz presente, mesmo onde só enxergamos tragédias. “Às vezes, colocamos tudo numa caixinha só. É muito importante a gente bater no peito e falar: ‘Ele está aqui, é um artista e a arte existe em meio ao caos e em meio a tudo que está ocorrendo. Há muitos outros artistas, como ele, que estão lá e não temos nem conhecimento.”

Já a expectativa da produção pela peça andou tão grande quanto a da plateia, inclusive por um ponto que talvez nem tenha passado na cabeça de muitos. “Tem um lugar nesse espetáculo que move não só o público que vai assistir, move a gente também porque desde o começo a preocupação foi se eles conseguiriam chegar, se essa programação realmente aconteceria, se é o que a gente iria ver", explica a curadora Lucélia Sérgio. Entre mundos que num primeiro olhar podem parecer muito distintos, a escolha pela montagem dos artistas Khalil Albatran e Bilal Alkhatib também foi justificada pelas aproximações e semelhanças. “A questão que o espetáculo traz também reflete muito do que são algumas realidades no Brasil. Esse espetáculo traz a questão de uma geração que é marcada pelo temor, pela responsabilidade que vem de gerações anteriores, e o nosso Brasil também está marcado por essa característica. A gente tem famílias que seguem numa mesma dificuldade ou numa mesma dor, ou numa mesma luta política de resistência”, fala Lucélia. 

Os realizadores do FIT Rio Preto 

O Festival Internacional de Teatro de São José do Rio - FIT Rio Preto nasceu como um evento dedicado ao teatro amador em 1969. Em 2001, passou a ser realizado em parceria entre a prefeitura do município e o Sesc São Paulo e ampliou sua atuação e começou a receber programação também de fora do Brasil. 

Após uma edição reduzida no ano passado, o festival voltou em 2026 ao formato que o consagrou como o maior festival de teatro internacional no interior do país (além do Brasil e Palestina, México e Chile, neste ano estão presentes entre as atrações principais). Segundo o secretário de cultura do município, Erick Soares, e o diretor do Sesc São Paulo, o sociólogo e economista Luiz Galina, o evento não contou com o apoio do Sesc em 2025 por problemas relacionados ao cronograma de contratações e execução. Mesmo assim, a prefeitura realizou o festival em menor escala. Mas, agora, a programação volta com o status e a importância de edições anteriores, atividades inteiramente gratuitas e estimativa de público de 30 mil pessoas.

Conforme Galina, o FIT Rio Preto é uma das ações mais importantes ao longo dos 80 anos do Sesc, junto com o Mirada - Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas (que chega à 8ª edição em setembro, em Santos-SP). “A missão do Sesc é trabalhar para o bem-estar, para a qualidade de vida, para o desenvolvimento cultural das pessoas e da sociedade. E, é claro que, para cumprir essa missão, o Sesc sempre considerou que o teatro, das expressões artísticas, é uma das bases mais importantes para que esse objetivo seja atingido", diz ele. 

Além de relembrar que a primeira sede planejada e construída da entidade foi o Sesc Consolação, prédio que abriga o Teatro Anchieta – um dos palcos mais conhecidos e respeitados do Brasil, que recebeu grandes companhias e foi casa do Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho – o diretor frisou os motivos que fazem do teatro uma ferramenta imprescindível no trabalho da entidade. “O teatro traz reflexão, traz provocação, traz entretenimento, também traz o sonho e os problemas tão importantes para todos nós discutirmos a cada momento da história, a cada momento da evolução da sociedade. O teatro está presente, provocando, instigando e contribuindo para que a gente evolua como sociedade, para que a gente evolua como cidadão e como cidadã.”

Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto – Fit Rio Preto 2026 

De 16 a 25 de julho, em São José do Rio Preto (SP) 
Realização: Prefeitura Municipal de São José do Rio Preto, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, e Sesc São Paulo 
Apoio: Conselho Municipal de Políticas Culturais
Parceria: Sesi São Paulo e Senac
Programação totalmente gratuita.
Outras informações: fitriopreto.com.br.

A repórter viajou a convite do festival. 

Luciana Nogueira Melo

Luciana Nogueira Melo

Jornalista apaixonada por cultura, moda e turismo. Cursou publicidade, letras, um pedaço de artes cênicas e outro de produção cênica. Já trabalhou com publicidade, produção, como locutora e na TV.

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Tags: teatro cultura

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