Pular para o conteúdo

Em primeira edição após denúncias de racismo, Gralha Azul consagra Súbita e premia atrizes negras

Primeira edição do prêmio após acusação de racismo apresenta políticas de ação afirmativa e tem discurso em homenagem a Odelair Rodrigues

Em primeira edição após denúncias de racismo, Gralha Azul consagra Súbita e premia atrizes negras
Súbita Companhia, vencedora da noite com "O Medo da Morte das Coisas". Foto: Vítor Dias/Teatro Guaíra
Publicado:

A Súbita Companhia foi a grande vencedora do Troféu Gralha Azul de 2025, com o espetáculo “O Medo da Morte das Coisas”. Dirigida por Nadja Naira, a peça foi escolhida a melhor do ano no teatro paranaense, no ano em que o mais tradicional prêmio das artes cênicas do estado foi obrigado a se reinventar.

Depois de um abalo sísmico na edição de 2023, em que o prêmio foi acusado de racismo, o Gralha Azul ficou um ano em hibernação, para que o edital fosse repensado. Agora, com políticas de ação afirmativa que incluíram pontuações extras para negros, mulheres e pessoas LGBTI+, o prêmio anunciou os vencedores da 41a edição na noite dessa segunda-feira (1).

A cerimônia, apresentada por Raquel Rizzo e Shayene Ferreira de Jesus, mostrou um cuidado maior com a inclusão. E a premiação também mostrou que houve avanços na diversidade.

Cleo Cavalcanti, melhor atriz de espetáculo para crianças: homenagem a Odelair Rodrigues. Foto: Vítor Dias/Teatro Guaíra

As categorias de atuação premiaram duas mulheres negras e um homem trans. Nas categorias técnicas, também houve pelo menos mais dois prêmio para negros, com André Ribeiro Daniel, premiado pela melhor caracterização em "Memórias de uma Baobá". E Nathan Gabriel foi premiado na categoria "Iluminação".

A tensão com as novas regras e com as discussões existentes desde 2023 sobre a necessidade de que o prêmio fosse mais representativo foram evidentes ao longo da cerimônia. Uma tensão subjacente, embora jamais tenha chegado a uma explosão, como aconteceu na edição do prêmio, permeou as falas das apresentadoras e os discursos dos homenageados.

O movimento negro questionou desde a revelação dos indicados o fato de haver menos finalistas pretos e pardos do que antes da implantação das ações afirmativas. E em pelo menos dois momentos voltou-se a repetir da plateia a expressão “Gralha Branca”, que dominou os protestos em 2023.

A atriz Raquel Rizzo respondeu a uma das manifestações dizendo que “a gralha é azul”. O comentário foi recebido com frieza e numa outra intervenção a apresentadora fez questão de ressaltar que é antirracista e que achava lindas as manifestações a favor da inclusão que ocorriam no palco:

Dois discursos emocionados marcaram as premiações de artistas negros. Cleo Cavalcanti, escolhida melhor atriz de espetáculo para crianças, disse que literalmente não estava acreditando. Segundo ela, era difícil acreditar que sendo de outro estado e negra estava sendo homenageada.

Visivelmente emocionada, a atriz se ajoelhou no palco e fez uma homenagem à falecida atriz paranaense Odelair Rodrigues, precursora negra do teatro paranaense, lamentando não ter convivido com ela - ao chegar de Minas, Odelair já não estava mais viva.

Outro discurso emocionado que lembrou a importância dos negros no teatro paranaense partiu de Isabel Oliveira, que junto com Renata Ortiz Bruel foi escolhida melhor atriz de 2005.

Isabel Oliveira, melhor atriz por "Memórias de uma Baobá". Foto: Vítor Dias/Teatro Guaíra

Protagonista de “Memórias de uma Baobá”, Isabel foi uma das indicadas que o movimento negro considerou injustiçadas em 2023. Neste ano, ao subir ao palco, começou citando Belchior: “Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro”.

O prêmio também fez acenos para o interior do estado. Adriano Gouvella recebeu duas estatuetas, de melhor dramaturgia e melhor ator pelo monólogo Réquiem para um Barbeiro. O prêmio de figurino também foi para o interior do estado. Danilo Furlan venceu o troféu por "Historieta".

Veja a seguir a lista dos premiados

Lista dos vencedores Gralha Azul 2025 - 41ª edição: 

Ator
Adriano Gouvella - "Réquiem para um Barbeiro"

Ator Coadjuvante
Isac Kempe - "Cidade dos Jornais"

Ator espetáculo para crianças 
Alexandre Faria - "A Vaca Lelé"

Atriz 
Isabel Caldas  - "Memórias de um Baobá"
Renata Ortiz Bruel - "Cabaré Haikai"

Atriz Coadjuvante
Jordana Dalla Vechia - "Ela Não Pode Gritar"

Atriz espetáculo de crianças
Cleo Cavalcante - "Historieta"

Caracterização
André Daniel - "Memória de um Baobá"

Cenário 
Guenia Lemos - "Cabaré Haikai"

Direção 
Maira Lour - "Deriva"

Direção de Espetáculo para Crianças
Cadu Cinelli - "Plumaje"

Dramaturgia 
Adriano Gouvella - "Réquiem para um Barbeiro"

Figurino 
Danilo Furlan - "Historieta"

Iluminação 
Nathan Balaguer e Lucri  Reggiani - "Pianinho"

Revelação 
Juliane Rosa - "Maria Navalha Vem Aí"

Sonoplastia 
Arthur Jaime - "Sozinho com Romeu e Julieta"

Espetáculo para crianças
"Historieta" - Tato Criação Cênica 

Espetáculo 
"O Medo da Morte das Coisas"  - Súbita companhia de teatro 

Prêmios Especiais

Prêmio Especial 
Gabriela Grigolom

Prêmio Técnico do Ano 
Carol Vaccari

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

Todos os artigos

Mais em cultura

Ver todos

Mais de Rogerio Galindo

Ver todos

De nossos parceiros