A poucos metros do fim do mapa curitibano no sentido Sul, o Centro Cultural Boqueirão (CCB) propaga o ideal de arte-educação gratuito por duas décadas. A iniciativa, encabeçada pelo produtor cultural Márcio Roberto, 55 anos, atua em sintonia com a comunidade local e segue formando uma legião de artistas mirins por meio do teatro. Junto da efeméride, comemoram-se também os dez anos do EnCena Boqueirão — sua própria mostra que reúne companhias paranaenses desde 2016.
Posicionado na Rua José Guercheski e a 1,5 quilômetros do terminal de ônibus, o terreno que hoje conta com espaço lúdico e barracão totalmente equipado funciona em uma área que estava abandonada nos inícios dos anos 2000. Márcio buscou a Arquidiocese de Curitiba, proprietária do imóvel, e conversou sobre o projeto. Desde quando recebeu o aceite e, até os tempos atuais, passou a conviver com glórias e desafios cotidianos.
Nesses vinte anos, o CCB oferece cursos de teatro e dança para os pequenos, recebe peças avulsas, atividades em conjunto com o Festival de Curitiba e organiza o EnCena. Tudo isso é gratuito e aberto ao público. Entre artistas, alunos e público, estima-se que mais de cinquenta mil pessoas passaram pelas dependências da unidade; cerca de quinze escolas da região firmaram parceria.
A ideia de pôr arte-educação para funcionar no bairro veio de uma observação que fizera pelo entorno. Já atuava na área e estudava teatro. Na época, início dos anos 2000, a região convivia com ocupações crescentes e ausência de ações e iniciativas culturais para as crianças do bairro. Sabia, por experiência própria, o que a cultura podia operar e, com essas imagens da comunidade, pensou que poderia fazer algo do seu escopo e ajudar de alguma forma.
Era 2006. O barracão, gradualmente, ganhou forma de teatro. O arquiteto Rui Almeida aceitou o convite e desenhou uma caixa de palco italiano, dois camarins, poltronas resgatadas do antigo CineLuz. Cada ano, um ajuste. Em 2008, veio o fôlego: o primeiro edital de Pontos de Cultura de Curitiba, em parceria com o Governo Federal, contemplou o projeto com R$ 180 mil. O montante ajudou a equipar a sede, pagar água, luz, organizar as oficinas.
De acordo com o idealizador, o principal objetivo é oferecer arte-educação com acolhimento para as crianças e seus familiares. ‘Acolhimento’ é um dos termos recorrentes nas avaliações dos usuários no Google. “Uma palavra: fraternidade. O Centro Cultural Boqueirão é isso”, escreveu Raquel Carissimi. “Sempre sendo bem recebida, pessoas maravilhosas tanto no palco quanto fora dele. Ambiente que parece nossa casa de tão intimista. Eu amo!!!”, comentou Gerlaine S. Pinto.
Essa noção acolhedora se deu com prática nas rotinas do CCB, que debutou com atendimento para escolas do bairro e, em seguida, ampliou para toda Curitiba e região. Atualmente qualquer menor de idade e responsáveis podem procurá-los para aprenderem sobre a 5ª arte.
A aproximação com várias histórias de vida lhe mostrou a dimensão das vulnerabilidades enfrentadas pelas crianças que frequentavam o espaço. Histórias difíceis de ouvir e acreditar, compartilha o idealizador: "Uma criança chegava atrasada para a aula de teatro e eu perguntava: 'Por que você chegou atrasada?'. Ela respondia: 'Professor, porque tive que esperar tirarem um corpo que estava perto da porta da minha casa. O IML tinha que buscar, porque mataram uma pessoa'.”
O relato expõe uma realidade na qual a violência fazia parte do cotidiano. Segundo ele, muitas crianças reproduziam essa dureza nas relações. “Elas xingavam, brigavam, saíam nervosas. Mas, quando você convive, percebe o quanto existe amor ali. Aquela agressividade toda é fruto de uma sociedade que vai excluindo essas crianças. Quem apanha da vida aprende a ficar na defensiva.”
Aos poucos, relata Márcio, o vínculo construído pelo teatro transformava essa lógica. “O amor foi quebrando isso. Eles entraram em cena, produziram espetáculos. Foi muito lindo”, confessa.
A precariedade também atravessava o cotidiano dos alunos. Não eram raro que alguma criança dizia que sequer iria à escola por não ter dinheiro para participar das atividades. Algumas iam pedir moedas na porta do supermercado.
Diante dessas situações, a equipe buscava soluções improvisadas — comprava ingressos para brinquedos de parques itinerantes ou organizava pequenas ações para garantir que as crianças também pudessem viver experiências de lazer. Mais do que oferecer atividades culturais, o trabalho passou a ser, segundo Marcos, um exercício permanente de escuta.
“A gente tentava entender essas crianças e encorajá-las a perceber que o bairro também era delas. O trabalho de arte-educação caminhou para isso: ajudá-las a encontrar um caminho mais confortável, mais generoso, mais digno”
Em outros casos, os efeitos apareciam silenciosamente. Como professor lembra de uma menina que, em casa e na escola, quase não falava. A família acreditava que havia algo errado. No palco, porém, a menina surpreendeu e deu um show. Os pais e avós foram vê-la e não seguraram as lágrimas e os abraços emocionados.
Segundo Márcio, a presença de familiares dos alunos é algo comum nas apresentações e sempre acaba com um agradecimento singelo. Em dia remoto, os avós vieram em sua direção e pediram o PIX para ajudar no projeto. “Está tudo muito lindo”, eles disseram. Agradeceu o carinho e explicou que o projeto já estava pago pela Lei Rouanet, que aquele recurso vinha dos impostos que eles mesmos já tinham contribuído. Se emociona ao resgatar esta lembrança.

Apesar da resposta dada aos avós da criança, parte dos desafios vem da descentralização do fomento cultural e dos acessos aos editais públicos que, muitas vezes, encontram barreiras geográficas. O gestor do CCB relata que o financiamento da cultura se mostra centralizado historicamente, e que os principais espaços e salas culturais de Curitiba estão no centro.
E nesses casos, para além dos trabalhos como arte-educadores, a equipe precisa deixar os afazeres no bairro para lidar com questões administrativas no centro da cidade. Esse é um dos motivos que o faz clamar pela descentralização de todas as esferas culturais do município.
Constantemente presentes nos editais de fomento à cultura, passaram muitos anos sem serem contemplados. Embora seja experiência nesses trâmites, compartilha ter uma dificuldade em expressar a grandeza das ações nas formações e nas interações que acontecem na vida real em anexos solicitados aos montes, e que essas noções chegam de outras formas nos avaliadores.
O aspecto financeiro é uma questão real, mas já bem resolvida, se comparado com anos recentes. A imprensa paranaense serviu como suporte em anos difíceis (entre 2014 e 2017) ao noticiar que a instituição poderia fechar as portas devido à falta de recursos. O risco passou e voltou com força na pandemia do coronavírus (2020–2021), quando os setores culturais tiveram quedas bruscas em apoios.
Em algumas temporadas, o EnCena sobreviveu no limite. Houve anos em que o cancelamento parecia inevitável. Várias saídas ajudaram a reverter os cenários negativos: retirada dos fundos da produtora de Márcio (MRG); programação com montagens próprias; grupos de teatro aceitavam receber cachês reduzidos — ou até simbólicos. Houve até um bingo organizado em um salão de igreja que arrecadou o dinheiro necessário para pagar os cachês.
A temporada atual, comemorativa de dez anos, vai bem e recebe apoios de entidades públicas e privadas para a sua realização. A mostra vai até o dia 18 de agosto com quatro apoiadores, dois patrocinadores e ancorado pela Lei Rouanet.
Entre glórias e desafios, o produtor se orgulha do legado popular que o CCB segue oferecendo nesses vinte anos. “Se alguém tem receio de abrir um espaço de cultura em um bairro descentralizado, ele [o CCB] serve para encorajar”, complementa: “Essas iniciativas são importantes, elas fomentam a cultura e a economia dos bairros, afastam das páginas policiais e os colocam nas páginas da cultura”.
Este texto integra o projeto Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional.