Um achado é um machado | Jornal Plural
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19 nov 2019 - 22h27

Um achado é um machado

As coisas mais raras frequentemente se tornam também as mais preciosas. Os Grandes Encontros são assim

Para Nicole Lima

Nos textos da época de escola, eu escrevia sempre a partir de um título dado pela profe. Hoje em dia eu deixo o “nome da redação” por último. Seja aqui no Plural ou nos contos e romances que cometi, não lembro de ter começado já com um título pronto. Escrevo e depois fico me batendo para achar um rótulo capaz de carimbar dignamente o texto. É gostoso, principalmente porque dá a sensação de que o pior já passou, o esforço de fazer o bolo se foi e resta só colocar a cerejinha e servir, esperando que esteja gostoso. Mas fácil não é, vide minha coluna passada, que eu batizei de “Pareidolia do ego”, me arrependi, desbatizei, rebatizei de “Uma canção para mim” e logo em seguida ouvi: mas por que você mudou?

Na era adulta, desconfio que esse texto aqui seja o primeiro que faço experimentando o processo pelo seu contrário: estou convicto do título, agora me bato para falar alguma coisa que preste sobre ele. A cerejinha está ali, flutuando, sem bolo embaixo.

Lembrei da voz do Milton Nascimento cantando “Certas canções que ouço / cabem tão dentro de mim / que perguntar carece / como não fui eu que fiz?”

Pode ser que “um achado é um machado” tenha a ver com isso. Muitas vezes sentimos “uma coisa, sabe?”, e essa coisa não sabemos nomear, só chamamos de coisa mesmo, reviramos um pouco os olhos, fazemos um movimento circular com os indicadores perto da cabeça e paramos por aí, lançando nesse “sabe?” uma esperança de que aquele que nos ouve saiba mesmo a que nos referimos quando dizemos “uma coisa”. O outro, pela amizade, faz um sim amarelado e mal convencido, que aceitamos aliviados, sem tempo de perceber que ele não faz ideia alguma de que coisa se trate, ou talvez empreste as coisas dele para tapar o vácuo.

Uma imagem contendo textoDescrição gerada automaticamente
Ilustração: Conde Baltazar

As grandes experiências que fazemos ao longo da vida, acho eu, passam pelo encontro com algo que consiga vestir com palavras a nossa coisa misteriosa. As palavras não conseguem ser o real da vida, o real da existência, mas o vestem, contornam esse real e dão a ele um corpo vestido, simbólico e imaginário. O real é um ilegível invisível que só toma alguma forma quando vestido. Tirou a roupa, vira alma penada, evapora-se, vaza. Vira, no máximo, uma coisa, sabe?

É conhecido no meio psicanalítico o caso de uma paciente atendida por Jacques Lacan que vivia atormentada pelo terror da guerra, com sonhos recorrentes e sempre no mesmo horário em que a Gestapo, polícia nazista, batia nas casas das pessoas atrás de judeus. Lacan aproximou-se dela, tocou seu rosto e disse geste à peau (tipo um “gesto na pele”). Gestapo e geste à peau têm, em francês, a mesma pronúncia (“gestapô”). Aquele significante “Gestapo”, tão fixo e traumático, de que a paciente não conseguia se desfazer por meio do luto, ganhava então uma chance de se abrir, de respirar outro sentido, arejando uma estrutura que estava fechada.

Estou conseguindo dar forma ao meu “um achado é um machado”? Tento mais um pouco:

Já falei aqui que sou ruim de memória e passo vergonha quando digo que li um livro, assisti a um filme, mas quase nunca me lembro dos enredos, por exemplo. Contudo, há um gesto que sempre me vem à lembrança em momentos de leitura: o da suspensão admirativa. A própria expressão não é minha, li faz muito tempo em algum lugar. E o que ela indica? Indica um buraco no terreno liso da leitura. Ou: indica a abertura de uma fenda na estrada pavimentada de uma narrativa, de um poema. Estamos seguindo o curso de uma história – isso vale também para o cotidiano, para a rotina da vida – e sem muito aviso o chão se abre e dali sai algo que nos faz parar um tempo, pausar, interromper o tráfego, que nos deixa intransitivos para aproveitar o mergulho e não a superfície.

Suspensão admirativa: parar o curso, a caminhada, para se deter e pensar coisas do tipo puta que pariu, que massa.

É isso, olha como um achado, que eu posso chamar de Grande Encontro (com uma narrativa, um poema, um quadro, uma pessoa), no meio de tantos pequenos encontros, foi capaz de vestir e revestir o real, envolvendo-o sem, no entanto, sê-lo. Ele pode emprestar, enfim, sentido para aquela “uma coisa, sabe?”, para aquele “noooossa, estou sem palavras”, ou criar fissuras no tecido imaginário, que vê verdades onde só há fantasma, ou ainda ressimbolizar aquilo que se dava por indiscutível e, portanto, por questão fechada – como dizem os italianos, punto e basta. O achado é atiçador do desejo e, para o desejo, não há punto, nem há basta.

(Espera, minha voz contra-argumentadora está me avisando alguma coisa aqui: ela diz que estou sendo incoerente, pois são justamente esses encontros que nos deixam sem palavras, que deixam nu o real). É que o Grande Encontro – um achado! – seduz mais do que conduz. E seduzir é desviar. A vida seguia por um caminho e o achado abre uma fenda que nos mostra possibilidades de mergulho e outros caminhos possíveis, derivados, uma deriva esperando por passos que, do contrário, seguiriam pelo terreno da vida ordinária e previsível. Podemos sim ficar sem palavras no momento de um Grande Encontro, mas haverá retomada, agora em novo chão, e lá vamos nós fazendo outros laços com a existência.

Uma imagem contendo texto, mapaDescrição gerada automaticamente
Ilustração: Conde Baltazar

No nosso balaio diário de perdidos e achados, o encontro de verdade é sempre um achado. E um achado é um machado não porque tolhe e corta o que viceja, mas porque abre fendas que permitem que nosso novo chão frutifique diferente. O machado aqui não destrói, abre sulcos de semeadura em terra batida – a rigor, então, um achado é um arado, só que aí eu perco o trocadilho.

Vivemos bem mais de perdidos do que de achados, bem mais de coisas que logo descartamos do que de machados capazes de abrir um poro por onde se possa respirar e fazer confluir a beleza do outro. As coisas mais raras frequentemente se tornam também as mais preciosas. Os Grandes Encontros são assim. Não se trata de um narcisismo patológico, em que me afogo e morro. Mas de encontrar no outro uma chave outra, caixa de ressonância que me faz vibrar em nova frequência.

Né, não?

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