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Como é ser jovem e viver no limite de Curitiba?

“Qualquer propósito de intervenção cidadã que pense em oferecer alternativas, deve criar a possibilidade de abrir a cidade”, diz José Magnani. Fonte: IEA/USP
Escrito por Gustavo Queiroz
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O pesquisador José Magnani, da USP, explica como a Antropologia Urbana pode contribuir para o desenvolvimento de um jornalismo cidadão. Além disso, o antropólogo dá pistas para aplicação de uma oficina de comunicação com jovens moradores de ocupações urbanas. O trabalho do pesquisador desvela a relação que o território tem no processo de formação de identidades.

O Núcleo de Comunicação e Educação Popular (NCEP) e o Ministério Público do Paraná desenvolvem oficinas de educomunicação com os moradores jovens da “Ocupação 29 de Outubro”, a fim de desenvolver pautas importantes à comunidade. Partimos da hipótese de que cada morador desenvolve trajetos pessoais próprios, para dar conta das necessidades sociais de lazer, trabalho, educação. Quais são os marcos – e como identificá-los – para se mapear e reconhecer circuitos etnográficos jovens nas periferias?

Em primeiro lugar, em toda comunidade há um tipo de organização política. É preciso definir quem são as lideranças, formais e informais. Também podemos fazer um mapa, digamos, das áreas de lazer e cultura. Por vezes são as mesmas, por vezes não. É possível também mapear centros religiosos. De repente um terreiro de umbanda fica escondido, mas a igreja evangélica aparece, a igreja católica aparece… isso tudo é importante para a percepção da realidade. Além disso, é comum se verificar, por exemplo, a organização espacial de equipamentos de comércio. Que tipo de venda existe? A vila tem bar, mercado, padaria, tem gente que vende artesanato, tem gente?

Isso é importante, porque todos esses lugares são também pontos de encontro. Você vai fazer compra numa vendinha e acaba experimentando outras relações sociais no caminho. O mapeamento nos permite perceber se esse bairro tem uma organização em vários planos. Lazer e cultura, religião, comércio e moradia. Até o sistema construtivo vai gerar elementos importantes para a pesquisa. As casas são em palafita, alvenaria ou madeira? Ou os três? A antropologia parte de uma pesquisa de reconhecimento, que também vai ser importante ao jornalismo.

Partindo da proposta do jornalismo cidadão, que identifica a organização da comunidade para dela partir, como esse mapeamento pode ajudar na identificação das pautas importantes a serem trabalhadas?

A partir do mapeamento, já é possível propor. Uma ideia é realizar caminhadas com os jovens moradores. Porque eles, inclusive, vão ajudar a melhorar o diagnóstico. Eles vão dizer coisas que o pesquisador não viu. Pode ter uma vendinha que vende coisas roubadas… ou em algum lugar a Internet é gratuita e vira ponto de encontro. Tudo isso faz parte da agenda deles. Principalmente em lugares que ainda não estão tão consolidados e passam por processos de construção. A visita é sempre um campo interessante, porque tem de fazer esse diagnóstico, que é um diagnóstico macro. A partir daí, observamos as fronteiras, os sentimentos relacionados a determinados lugares, as questões de mobilidade e assim por diante.

Em algumas comunidades se percebe a dificuldade de acesso aos equipamentos urbanos da cidade, dada a distância com a região central da cidade e o custo do transporte coletivo. Qual o impacto da mobilidade no desenvolvimento das periferias brasileiras?

A partir da definição dos circuitos de lazer, cultura, religiosidade, estudo e trabalho, vamos perceber a relação do transporte. Metodologicamente, é possível partir das conversas com os jovens para, depois, identificar com as fontes oficiais quais são as possibilidades de mobilidade que eles têm. Monta-se um histórico, para se ter um dossiê mais encorpado, visual, das linhas de ônibus, por exemplo. Depois dessa fase, é a vez dos moradores serem os pesquisadores. Eles vão pesquisar e identificar se o transporte público que se disponibiliza para eles é coerente com a necessidade. Muitas vezes, o custo da passagem, ou mesmo a distância do trabalho vão gerar desconfortos rotineiros e até a impossibilidade de realizar algumas tarefas. Essa perspectiva do cotidiano deve vir dos jovens interlocutores, dos moradores.

Sobre os jovens. Alguns autores trabalham com o termo “juventude” para identificar o grupo juvenil e outros usam “juventudes”, no plural. O senhor costuma utilizar o conceito de “circuitos juvenis”. Qual a diferença entre eles?

O termo juventude aponta muito para uma questão de faixa etária e isso é complicado. Porque se pode ter um menino que tem de trabalhar desde cedo. Já é quase adulto. Por outro lado, às vezes, um menino de classe média com 20 anos não trabalha e vai na balada com frequência. Para a antropologia, o termo “juventude” não marca, não é um classificatório. Ele é muito mais da psicologia, que marca etapas: adolescência, pré-adolescência, etc. Para o estudo antropológico isso não funciona, porque o que faz sentido para nós é um grupo de pessoas que têm um modo de vida comum. É diferente da classificação biológica. No nosso caso, vai-se trabalhar com diversos grupos identificados pela pesquisa. Nesse sentido, pode-se usar a ideia de “juventudes”. Jovens de periferia, por exemplo, são jovens que moram na periferia; jovens de classe média, significa outra coisa. A conceituação começa a colocar adjetivos para dar conta das diferenças. Por isso é complicado utilizar o termo “juventude”, no singular.

Eu utilizo “circuitos juvenis”, porque entendo que a “juventude” é o circuito de pessoas que se reconhecem. Por que? Por estar na mesma escola, por participar de um mesmo grupo, por viver nos mesmos espaços. Isto quer dizer que os próprios membros do circuito se legitimam. Caso se pegue um grupo de circuito juvenil, veremos que tem gente de várias idades.

Pode haver um menino de 10 anos muito esperto e um jovem mais velho de 18 anos, que não age como se “esperaria” de um menino da idade dele. Para a antropologia, não é a idade que determina a juventude, é a circulação de símbolos entre eles.

O senhor comentou anteriormente que as camadas de relações urbanas, como o comércio, a religião, o lazer, são definidores dos circuitos juvenis. A proposta de se utilizar o termo “circuitos” vem da necessidade de aliar o território às identidades?

Às identidades, ao espaço e ao tempo. Nesse caso não se pode circunscrever o circuito à comunidade. O circuito juvenil necessariamente vai para fora. Os trajetos que esses grupos fazem na cidade formam um mapa de sociabilidade, que, por vezes, apenas parte da comunidade, daí a importância da mobilidade. Os grupos identitários vão formar estes circuitos. Os jovens participam, por exemplo, de alguma, alguma torcida organizada? Se sim, eles conseguem sair de casa e ver o time jogar no estádio? Eles se encontram com outros membros da torcida?

Apenas o “pedaço” se restringe ao bairro. Ou, no caso, “pedaços”… uma esquina, um parque, uma quadra de futebol. São os primeiros pontos de sociabilização. O“trajeto” vincula esses circuitos que extrapolam o pedaço.

A identificação dos pedaços, trajetos e circuitos é muito importante para a pesquisa, ou para a produção da reportagem. O jornalista vai perceber que, aparentemente, os membros estão em um gueto fechado, mas é o momento em que eles saem que existe a notícia. Porque daí sim se absorve a questão do tempo e do espaço. Se a identidade vai ser formada no circuito (gay, cultural, esportivo, etc) e o circuito necessariamente extrapola o pedaço, a comunidade se torna uma mancha de habitação, em que acontecem apenas as primeiras relações sociais, que geram demandas próprias.

Legenda foto: Em oficina de educomunicação, adolescentes descrevem sentimentos atrelados ao território onde vivem.

O que é essa mancha e por que, neste caso, falamos de uma mancha de habitação?

A mancha é contígua, por definição. O pedaço é só dos “iguais”. Tem-se um lugar de encontro, por exemplo, ao qual só pertence gente que se conhece bem. O trajeto mobiliza pessoas de um pedaço para o outro. Este contínuo forma uma mancha. A mancha é o lugar do encontro. No caso da Caximba, me parece que a mancha está num primeiro momento, de definição. Como ela não é estática, podemos entender que essa comunidade é uma grande mancha de habitação, uma vez que a habitação é a motivação para ali se estar. Mas a mancha tem fronteiras que ficam bem delimitadas. Como falamos, o circuito extrapola a mancha e isso é o mais bonito de se perceber, posto que permite até a quebra de estereótipos. Exemplo: quando se afirma que o jovem vive na vila, num gueto, só lá, será que é só lá mesmo? Eles devem sair para outros lados, ou por trabalho, ou por diversão, ou para visitar algum parente. Os jovens saem de lá em que horário? Ou em que dias? Ao se perguntar isso, entra-se na dimensão temporal do circuito, não só na dimensão espacial.

Por compreender vários pedaços, as manchas também englobam várias identidades? Isso é definidor das características e demandas de uma comunidade?

Com certeza. Dentro de uma mesma mancha existem várias unidades temáticas, que se encontram temporalmente. Na praça da Igreja da Ordem, em Curitiba, por exemplo, existe uma mancha deste tipo. É uma mancha identificada, ali acontecem coisas em tal momento. Dentro dela se pode identificar pedaço com identidades diferentes. Um exemplo em São Paulo, parecido com a Rua São Francisco de Curitiba, é a Rua Augusta. É uma mancha de lazer em vários grupos. Tem um grupo da universidade que vai no bar, outro que toma café, um grupo que frequenta uma balada gay. Dentro desta mancha de lazer, vão se formando os trajetos. No caso da comunidade estudada, a mancha é de habitação. Haverá vários tipos de demandas identitárias que se encontram.

Os projetos de vida juvenis estão ligados à questão territorial? É possível que o espaço onde o jovem vive defina seu desenvolvimento pessoal e profissional? Como uma ação pode trabalhar estes elementos?

Nem sempre as limitações urbanas vão definir que o jovem cresça e viva no mesmo lugar. Às vezes, essa é uma concepção de fora. Costumo brincar que o pesquisador só responde essas perguntas com observações “de perto e de dentro”. De qualquer forma, na investigação, se pode descobrir que um jovem que não tem uma perspectiva pessimista é um sujeito que vive um circuito mais amplo. O sujeito que está mais preso à família, que não terminou os estudos, pode acabar se fechando no interior; e aí acaba por se aproximar do tráfico, por exemplo, e vivendo na mesma comunidade. E o outro que trabalhou em outros lugares da cidade, que usa outros equipamentos urbanos tem um olhar diferente. O circuito amplia o horizonte. Por isso, qualquer propósito de intervenção cidadã que pense não apenas realizar uma pesquisa, mas também oferecer alternativas, deve criar a possibilidade de abrir a cidade. Uma alternativa é criar caminhadas organizadas pela cidade. É uma opção didática. Levar os participantes de uma oficina a um shopping, a uma feira, a outras comunidades, a ruas de lazer, auxilia a desfazer essa ideia de gueto.

Como a caminhada etnográfica pode ser trabalhada no grupo?

É fundamental comparar os relatos. Porque eles vão caminhar com um caderninho de campo, com um celular, fotografando. Fez a caminhada, tanto na comunidade como na rua, reúne todo mundo e eles vão contar, soltar o verbo, vão começando a articular. Na partilha da experiência, cada um vai perceber elementos importantes para ele. Antes da escrita, é possível ainda realizar uma construção visual de desenhos, que formem o todo da experiência. Num momento depois, escreve-se o relato.

A segunda possibilidade é pedir para que cada um entreviste pessoas antigas da comunidade. Avô, artesão, marceneiro, comerciante… Você dá ao participante a possibilidade de se trabalhar com a língua. Cada um pode gravar a conversa, depois transcreve a gravação – entra em contato com a escrita. Seria muito legal eles fazerem um levantamento com os profissionais da comunidade, os mais antigos, os primeiros que chegaram. Eles vão brincar com a biografia viva.

Demandas urbanas e habitacionais dos moradores podem surgir nestas entrevistas e motivar pautas futuras. Como a antropologia levanta e considera este tipo de agenda?

A instituição governamental costuma ter uma ideia de como devem ser as coisas. A antropologia pergunta antes de formular a ideia. Todo o material que os jovens da oficina desenvolverem pode ser, inclusive, entregue à prefeitura. Do ponto de vista do planejamento urbano, por vezes, acaba por se impor decisões, mas do ponto de vista de quem passa o dia inteiro ali, no próprio cotidiano da vila, ser ouvido é importante. A perspectiva antropológica é o modo de vida que eles têm. Claro que não se pode ficar só com o entendimento do modo de vida. Tem de abrir o espaço de negociação entre os moradores e os técnicos governamentais.

Um dos temas levantados pelos participantes das oficinas é o preconceito que existe dentro do espaço escolar entre alunos que não vivem na área ocupada e alunos que vivem. O que motiva isso? Como a oficina pode trabalhar essa questão?

Status. Quem já estava no bairro há mais tempo, tem a casa melhor. Os que estão chegando agora e vivem na ocupação ainda não estão consolidados. Os outros falam: “Nós somos donos do pedaço”. Isso pode surgir, inclusive, da fala dos pais e responsáveis. O caminho para ultrapassar essa questão é um diálogo ativo com os professores. É interessante trabalhar com a escola para que o preconceito seja, sim, tema de debate. Atividades que provoquem o participante a perceber que o que mora e o que não mora na ocupação podem ter vivências iguais são um caminho.

De repente, o aluno que chegou agora a pouco tempo tem um histórico interessante na biografia que tem que ser contada. Tem que valorizar o lugar onde cada um mora. O que não se pode é ignorar que o preconceito existe. Assim os conflitos começam a se diluir.

Esta caracterização também existe no discurso urbano, de modo a estereotipar a juventude que vive na periferia?

Existe muito o discurso de que o jovem da periferia “não quer nada com a vida”, é um vândalo, possivelmente um marginal. E de repente tem gente lá que com a formação adequada, que se desenvolve. Não tem nada a ver uma coisa com a outra, mas o estereótipo existe. A oficina pode ter um papel fundamental nisso. Para cada acusação de “o cara da periferia não estuda e não gosta de ler” crie uma proposta de uma biblioteca comunitária, por exemplo. O livro, a escola, o museu, não são – e não podem ser – lugares de separação. A literatura, a escrita, a comunicação… se a oficina permitir aos participantes manusear e conhecer estas ferramentas, eles terão uma arma política na mão.

Sobre o autor

Gustavo Queiroz

Gustavo Queiroz é jornalista e graduado em Relações Internacionais. Atua em projetos de educomunicação, checagem, fotojornalismo e Comunicação e Direitos Humanos.

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